sexta-feira, 6 de julho de 2018

“Passou por aqui uma guerra. ” Como se cuida de uma comunidade em risco de colapso psicológico

REPORTAGEM
Liliana Valente
17 de Junho de 2018,    8:10
























A saúde mental das pessoas afectadas pelos incêndios de há um ano foi tema de discussão ao longo de meses. Os cuidados foram ou não suficientes? E o que foi feito? No último ano, o PÚBLICO foi falando com utentes e com as psiquiatras que coordenam as equipas que fizeram mais de cinco mil consultas. Este é o retrato de uma comunidade em sofrimento prolongado a tentar erguer-se do luto e do trauma.

“Não lhe chamem estrada da morte.” 
Era Setembro, as festas de Verão tinham sido todas suspensas naqueles três concelhos, mas houve uma que, pela tenacidade das gentes da Moita, Castanheira de Pêra, e pela devoção à Nossa Senhora do Bom Sucesso, se manteve. 
Era gente triste a dançar com lágrimas, ali mesmo à beira da N236-1, que ficou com um rótulo que ninguém quer ouvir. 
“Ainda ontem passaram aqui uns turistas a perguntar pela estrada para verem onde morreram pessoas. 
Não têm vergonha”, ouve-se da conversa entre duas amigas no beiral da igreja onde dizem que se salvou uma família, no trágico dia 17 de Junho de 2017.

A conversa constante em torno da estrada e de todos os outros locais onde a tragédia aconteceu é uma faca de dois gumes. 
Na visão dos psiquiatras que têm acompanhado o evoluir da situação mental dos utentes naqueles concelhos, o facto de as vítimas falarem, contarem o que se passou ajuda-as a conviver com o sentimento de dor, a fazer a “catarse”. 
Contudo, ouvirem falar de constantes responsabilidades que caem em saco roto e dos rótulos postos a locais onde vivem todos os dias acentua a dor e provoca o reavivar de memórias, que têm de estar guardadas “num sótão”, na parte de trás do cérebro, um lugar onde, quem sofre, só lá vai para as arrumar, nunca apagar.

Não havia experiência em Portugal de como tratar a nível psicológico e psiquiátrico uma vasta comunidade fustigada por uma catástrofe como os incêndios do ano passado. 
Entre-os-Rios tinha sido um trabalho duro (a queda da ponte, em 2001, causou 59 mortos); Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos elevaram os problemas e riscos para a saúde mental a uma escala nunca vista e que permanecerá por muito tempo. Os especialistas socorreram-se de experiências noutros países, aplicaram muita da literatura que estudaram e admitem falhas, que constituem o pilar das recomendações que servirão de guia para melhorar trabalhos semelhantes no futuro.

“Um destes dias oferecemos um galo a um paciente. 
Todos os dias acordava com o galo que morreu nos incêndios”, conta a psiquiatra Ana Araújo, coordenadora da equipa de saúde mental dos três concelhos afectados em Junho. A alteração da rotina matinal descoordenou as horas de sono daquele doente e o sono é elemento fundamental para a recuperação em saúde mental. 
Havia quem não dormisse. 
“Iam para a cama, reviviam momentos com as chamas, havia pessoas que nos descreviam que ouviam os estalidos das chamas, que sentiam o calor. 
Se a pessoa não dorme bem, tem de ser ajudada a dormir. 
O sono reparador é fundamental para que tudo o resto seja recuperado”, explica Célia Franco, uma das médicas psiquiatras coordenadora de equipas nos concelhos atingidos pelos incêndios de 15 de Outubro.
Num rastreio às populações afectadas pelos incêndios, mais de um terço dos inquiridos (750 no total) evidenciava “sintomas de luto complicado”
A intervenção no dia-a-dia da comunidade, com pequenos gestos como a recuperação de animais ou consultas ao domicílio, fazem parte do trabalho que já estava no terreno pelas equipas de Saúde Mental Comunitária, uma experiência dos hospitais universitários de Coimbra em Leiria Norte (nos três concelhos afectados em Junho) e no Pinhal Interior Norte (que abarca os concelhos de Oliveira do Hospital, Tábua e Arganil). 
O conhecimento prévio do terreno facilitou a intervenção neste último ano. 
Estas equipas seguem o conhecido “modelo de Avilés”, que herdou o nome da localidade das Astúrias onde está sedeado o hospital que criou este tipo de intervenção, baseada no tratamento de doentes a partir da sua vida em comunidade.

Há anos no terreno, estas equipas tinham uma lista das pessoas que acompanhavam com vários problemas, mas os incêndios trouxeram-lhes centenas de outras pessoas, com dificuldades diferentes, sem doença mental anterior associada. 
Gente com dificuldade em lidar com a dor, o sofrimento, em fazer o luto. 
No total, foram realizadas cinco mil consultas entre psicologia e psiquiatria, um trabalho considerado “suficiente” por dois inquéritos realizados pela comissão de acompanhamento da população afectada pelos incêndios, presidida por António Leuschner. 
“Há quem diga que há aspectos que têm sido abordados de forma superficial, não há nada de mais falso. 
Vamos dimensionar as coisas. 
As pessoas têm de ser respeitadas no seu espaço. 
Há pessoas que precisam de ajuda profissional, mas não podem ser obrigadas a tê-la. 
O processo de luto é muito individual. 
A natureza individual do luto tem de ser enfatizada”, defendeu.

De acordo com o relatório desta comissão, mais de um terço dos inquiridos (750 no total) evidenciava “sintomas de luto complicado”. 
Para a Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande (AVIPG), houve desde sempre uma confusão entre o “luto” e “trauma”, que fez com que esta associação apresentasse várias queixas ao modo como estava a ser prestado apoio psicológico e psiquiátrico na zona. 
“Se o luto começa ao fim de meses, o trauma é no próprio dia. 
Se não se trabalha o trauma rapidamente, ele pode ficar crónico e cada vez é pior. 
No luto tem de se dar tempo”, diz Nádia Piazza, a presidente da AVIPG, associação que teve a ajuda de outros profissionais em saúde mental ao longo dos meses que discordam da abordagem que foi feita pelas entidades do Serviço Nacional de Saúde. 
“Nós não somos especialistas em nada: somos vítimas. 
O que sentimos – e hoje comprova-se – é que nós somos uma comunidade de desastre, com vários níveis de trauma. 
Não era uma depressão, era um trauma. 
Foi preciso que as entidades o percebessem e foi a muito custo. 
Passou por cá uma guerra que durou uma semana”, descreve.
Este discurso prolongado de quem tem a culpa não ajuda as pessoas. É importante que se apurem responsabilidades, mas que não se fale nisso todos os dias
António Leuschner
A abordagem das equipas de saúde mental foi diferente.
Depois do rastreio inicial, que contou com a ajuda dos psicólogos dos Fuzileiros, e que permitiu cruzar listas de pessoas em risco, da ida porta a porta, começando por quem perdeu familiares, foi sendo feita uma intervenção de psicólogos e psiquiatras (se fosse necessário), conforme os níveis de prioridade.
“Em termos da comunidade, tentámos de algum modo intervir no sentido de criar mecanismos e actividades com as pessoas que pudessem ajudar a perceber a tragédia, e [ver] como se podia melhorar e evoluir nas situações de desgosto.
Criar expectativas positivas, alternativas, esperança [, como o retomar da rotina com o galo]”, diz Ana Araújo.
“Agora temos de lhe dar um contexto de normalidade nesta dimensão: não queremos ‘psiquiatrizar’ a sociedade”, acrescenta.

O que era melhor para uns não era válido para todos, uma vez que este é um processo muito individual: houve quem estivesse em luto profundo por ter perdido familiares e amigos, quem ficasse em stress pós-traumático por ter vivido os acontecimentos, quem já tivesse doenças mentais associadas, entre outros casos. 
Por isso, foi decidido pelas entidades do SNS que, depois da abordagem inicial, seria reforçado o trabalho que já era feito pelas equipas de Coimbra. 
E estas intensificaram a sua presença nos centros de saúde, alargaram as horas de “porta aberta”, em que qualquer pessoa podia pedir para ir a uma consulta, e aumentaram as visitas domiciliárias. 
Tudo com um reforço destas equipas multidisciplinares, mas que em número deixou a desejar. 
Foram sempre grupos pequenos com um ou dois psiquiatras, e um ou dois psicólogos, enfermeiros de saúde mental e assistentes sociais. 
No entanto, se o apoio psicossocial de emergência qualquer um destes técnicos pode fazer, o acompanhamento no tempo é um trabalho que implica um profissional de referência. 
Um exemplo: a enfermeira de saúde mental de Oliveira do Hospital é técnica de referência de duas centenas de doentes, quando o máximo é de oito a dez.

A resposta inicial conta

A recuperação em saúde mental tem particularidades que só o tempo foi revelando, ainda mais no caso das pessoas que sofreram com os incêndios, cada qual com uma resposta inicial diferente. 
“Aquilo que temos percebido é que as pessoas que participaram, que foram pró-activas, acabaram por lidar melhor com a situação do que os que foram mais passivos, que ficaram com mais dificuldade em processar o sofrimento”, conta a médica psiquiatra Célia Franco, coordenadora da equipa do Pinhal Interior Norte. 
A reacção inicial de ajudar o outro, de tentar recompor a vida foi a “cura” para muitas pessoas, mas escondeu o sofrimento de outras, que só mais tarde se manifestou. 
Se houve quem aceitasse logo “que estava em sofrimento”, outros só mais tarde, depois de meses a ocuparem-se com outras actividades, “acabaram por reconhecer que precisavam de ajuda”. 
E para isso ajudou, acredita Ana Araújo, a presença constante dos psicólogos e psiquiatras naqueles concelhos: “Estar aqui diminui o estigma de vir ao centro de saúde procurar ajuda em termos psicológicos e emocionais.”
José Carlos Santos: “Na televisão só passava fogos. Consigo passar ao lado sem me preocupar com isso. Agora reviver… tenho de ir falando. Mas esquecer não esqueço. Vou ficar com as marcas."

A braços com o sofrimento e com o trauma causado pelos fogos, muitas destas pessoas enfrentaram esse outro problema, o estigma. 
Se esta é ainda uma realidade em geral, quando se trata de zonas menos povoadas, esta marca é agravada. 
“Passou um ano e houve quem não tivesse recorrido à ajuda de psicólogos e psiquiatras. Aqui, é um pouco como ser louco ou ter problemas mentais. 
Acho que por isso uma grande parte ainda não fez o luto, dedicaram-se à terra [como escape]”, diz João Carvalho Viola. 
“As pessoas deviam pôr isso de parte e falar com um psicólogo ou psiquiatra. 
E, se for necessário, tomar medicação também”, diz o pintor e jardineiro da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, que recorre às consultas no centro de saúde da vila.

Mas nem todas as pessoas tomaram a iniciativa de procurar ajuda. 
“O que sentimos é que éramos nós que tínhamos de nos dirigir às entidades, passado o momento do porta a porta, de perguntar se as pessoas precisavam de apoio”, diz Nádia Piazza, que ficou preocupada com “quem precisava verdadeiramente de apoio, aquelas pessoas que estão de tal ordem fechadas em si a viver a sua dor que não procuram ajuda, elas rechaçam ajuda”. 
Depois da primeira reunião geral da associação, conta que se apercebeu que havia quem precisava de apoio e não o estava a ter. 
“Havia pessoas que iam às nossas reuniões de óculos de sol, não abriam a boca. 
Na segunda reunião tinham um colapso emocional. 
Cada vez que fazíamos uma reunião era como se fosse uma terapia de alcoólicos anónimos, alguém contava a sua história.”

Estes casos mais complicados de seguir pelos profissionais de saúde são também aqueles que mais os preocupam. 
No início, foi importante a facilitação das emoções, para que essa “expressão do sofrimento a posteriori não se transforme em doença”. 
Quem o conseguiu fazer está, nas palavras de Célia Franco, a “fazer a sua catarse”. 
“O que me preocupa são os que estão a um canto calados e que não falam com ninguém. A esses é que temos de estar atentos”, diz.
Se o luto começa ao fim de meses, o trauma é no próprio dia. Se não se trabalha o trauma rapidamente, ele pode ficar crónico e cada vez é pior. No luto tem de se dar tempo
Nádia Piazza
Para encontrar melhor estes casos escondidos nos vales e montes, esta médica contou com um parceiro inusitado: o carteiro da vila de Oliveira de Hospital, que nas suas voltas do correio e na troca de palavras à ombreira das portas ia percebendo como estavam aqueles que moram nos recantos mais isolados. 
Ao ritmo da distribuição das cartas pelas aldeias e pequenos aglomerados, ia avisando ou, em linguagem médica, ia “sinalizando” às técnicas de saúde mental do centro de saúde os casos de risco que encontrava.

Essa cumplicidade na comunidade foi um pilar importante para chegar a quem sofria em silêncio. 
“Uma comunidade que perde muitas pessoas é uma comunidade que está toda em sofrimento e é preciso uma grande interajuda. 
Há comunidades que são muito resilientes, apesar de tudo, e são capazes de se superar nesta amargura toda que se construiu”, acredita Ana Araújo. 
Nesse sentimento de comunidade foi muito importante toda a informação dos vizinhos e amigos. 
Ainda hoje, estas médicas pedem atenção aos “sinais de alarme”.

Sinais que podem manifestar-se agora. 
A passagem do ano da tragédia pode pôr a nu mais algumas situações preocupantes e por isso estas profissionais pedem que as comunidades estejam atentas a alterações profundas de comportamentos. 
João Viola é um dos elementos que ajudam nesse processo de identificação de sinais de alarme em conhecidos e é, ele próprio, um “pró-activo”.

Durante meses ocupou-se a ajudar os vizinhos, tentando afastar o trauma dando cor à aldeia de Nodeirinho, que saiu de Junho pintada a negro. 
Diz que não quis baixar os pincéis, mas durante algum tempo a vontade de pintar sucumbia ao desalento de não ver os vizinhos e amigos, de não ouvir pássaros e de não ver o verde das árvores a não ser no jardim da vila de Pedrógão de que é o obreiro. 
“Ficámos todos afectados psicologicamente. 
Uns disfarçam, outros tentam calcar essas imagens e enganar-se a si próprios. 
Nós [ele e a mulher, Dina Duarte] andámos até Setembro numa correria. 
Chegou Setembro e fui-me abaixo e comecei a ressentir-me de tudo.”























Pintar funcionou como uma terapia para João Viola

Depois da tal “correria”, houve dificuldades acrescidas em lidar com o regresso à normalidade. 
“Nestas situações há uma primeira fase de reacção aguda em que todos nós somos activados, para nos defendermos destas situações. 
Daí que as pessoas tenham a tendência de ir apagar os fogos, serem pró-activas [a ajudar os outros]”, conta Célia Franco. 
Mas depois, foi tudo mais difícil, “sobretudo porque as pessoas queriam criar rotinas e não conseguiam”, acrescenta Ana Araújo.

Esta situação é mais grave nos adultos. 
As crianças passam melhor por estes traumas. 
No início foi feita uma avaliação nas escolas pelos psicólogos e professores, que tinham indicações para sinalizar uma criança, se houvesse sinais de alarme. 
“As crianças, regra geral, têm uma capacidade de resposta a situações de stress muito boa, assim os adultos com quem vivem reajam bem. 
Respostas eventualmente menos adequadas são um sintoma da situação familiar em que as crianças vivem”, explica a psiquiatra Célia Franco.

Isso mesmo defende o pedopsiquiatra José Garrido, que numa conferência em Coimbra, em Novembro do ano passado, explicou que “a melhor maneira de ajudar a criança é ajudar o adulto que está com ela”.


Há algumas crianças que estão actualmente a ser acompanhadas por psicólogos, porque viveram situações-limite naqueles dias, ou porque sofrem com a perda de familiares. Contudo, os mais pequenos são mais resilientes a catástrofes. 
“A maior parte das crianças recupera bem das catástrofes, desde que tenha apoio de adultos. 
O que é preciso é que os adultos expliquem à criança o que está a acontecer. 
Ainda não vi nenhuma criança em que o incêndio tenha sido a causa do trauma. 
Foi sempre outra coisa paralela”, defendeu o mesmo especialista durante um encontro para debater a saúde mental das vítimas das catástrofes dos incêndios.
Ainda ontem passaram aqui uns turistas a perguntar pela estrada para verem onde morreram pessoas. Não têm vergonha
No entanto, o estudo Pinhal de Futuro ontem divulgado - uma iniciativa de rastreio e acompanhamento de saúde mental de crianças e jovens dos 6 aos 18 anos nas escolas das áreas afactadas pelos incêndios que deflagraram a 17 de Junho - revela que 7,9% das crianças e adolescentes de Pedrógão sofre de síndrome pós-traumático. 
A coordenadora do estudo, Cristina Canavarro, explica que, dos 139 jovens acompanhados, o maior grupo de casos de stress pós-traumático encontra-se do segundo ao terceiro ciclo, ou seja, dos 10 aos 14 anos. 
Estas crianças apresentam “maior dificuldade de concentração” ou “alguma sintomatologia depressiva” e “ficam com uma espécie de filme mau, que é este dos incêndios, com o medo a ele associado”.

O sol ajuda, o fogo não

A ajudar a retomar essas rotinas – que fazem parte do modelo de Avilés seguido por estas psiquiatras – esteve o longo Verão do ano passado. 
Pode parecer um contra-senso, mas as voltas da saúde mental não se coadunam com aparentes realidades. 
“Tivemos dias soalheiros, com temperatura agradável até Dezembro, o que penso que foi protector, porque as pessoas conseguiam ir organizando as coisas”, diz Célia Franco. 
“É sempre bom ter sol em termos das emoções e da saúde mental. 
Foi uma mais-valia no ano passado”, acrescenta a colega psiquiatra.

O tempo muito quente pode, no entanto, reavivar memórias e trazer ao de cima traumas que estavam debaixo do tapete. 
“A sirene, qualquer fumo, as pessoas ficam em alerta máximo. 
Isso arrasta atrás de si as emoções que tiveram há um ano. 
Se a situação evoluir num contexto de normalidade, esta vulnerabilidade começa a apaziguar-se”, diz a médica de Pedrógão. 
A colega de profissão de Oliveira do Hospital sintetiza: “Sinto que as pessoas têm medo do fogo e muitas estão a hiper-reagir a qualquer fogueirinha ou situação que implique fogo. Estão fragilizadas.”
























Nádia Piazza: “Havia pessoas que iam às reuniões de óculos de sol, não abriam a boca. Na segunda reunião tinham um colapso emocional. Cada vez que fazíamos um encontro era como se fosse uma terapia de alcoólicos anónimos, alguém contava a sua história”

A fragilidade manifesta-se de muitas maneiras – nas crianças com a desatenção às aulas ou em reacções mais bruscas, nos adultos com mudanças de atitude. 
“Nós sentimos que estamos mais desatentos, com flashes. 
Aqui há dois tipos de pessoas, as que viram e as que imaginam. 
Não se pode ver um fumo ao longe que se recorda tudo”, diz Nádia Piazza.

José Carlos Santos é um dos que viveram muito de perto os incêndios e que sobrevive com marcas na pele que não o deixam esquecer. 
É um dos cinco feridos graves de Pedrógão Grande, que esteve internado em Coimbra em coma e que passou os últimos meses do ano numa cama nos cuidados continuados na Santa Casa de Pedrógão Grande. 
Foi aí que recebeu acompanhamento psicológico mais frequente, pago pelos seguros, que o tem ajudado. 
“Na televisão só passava fogos. 
Consigo passar ao lado sem me preocupar com isso. 
Agora reviver… tenho de ir falando. 
Mas esquecer não esqueço. 
Vou ficar com as marcas. 
Falando é que vamos ultrapassando as coisas”, diz.

Esta insistência no assunto foi difícil para aquelas gentes. 
“Este discurso prolongado de quem tem a culpa não ajuda as pessoas. 
É importante que se apurem responsabilidades, mas que não se fale nisso todos os dias”, diz o professor Leuschner.

E, para piorar, aconteceu a vaga de incêndios de 15 de Outubro.

“Foi péssimo. 
As pessoas caíram de novo em si. 
O não dormir, o estar sempre alerta, o acordar de madrugada”, sintetiza Nádia Piazza.

Mais do que as palavras, foram alguns actos ou falta deles que serviam de gatilho para sentimentos mais dolorosos. 
Além dos incêndios de Outubro, a própria situação nos concelhos do incêndio de Junho arrastou-se mais do que deveria. 
Em Pedrógão Grande, por exemplo, as placas de sinalética nas estradas e aldeias ficaram queimadas durante 11 meses, foram mudadas no final de Maio. 
E mesmo antes, muito antes, logo no rescaldo daquela noite, houve muito que contribuiu para a dificuldade em ultrapassar o trauma. 
“Houve carros que estiveram aqui [Nodeirinho] um mês”; foi “uma semana inteira de funerais”.

João Viola: “Nenhum de nós sabia se o que estava a acontecer era real ou um pesadelo.”

liliana.valente@público.pt

terça-feira, 12 de junho de 2018

Quem é, afinal, o “porquinho mealheiro” de quem? /premium

Comércio Internacional
Edgar Caetano     11 Junho 2018


















Trump ataca taxas que alguns países e blocos económicos, como a União Europeia, cobram aos produtos norte-americanos. 
E diz que os EUA vão deixar de ser "o porquinho mealheiro" do Mundo.

Donald Trump fez campanha a criticar os antecessores por terem levado o défice comercial dos EUA para níveis que o presidente dos EUA considera “inaceitáveis”. 
Com esse défice comercial a dilatar-se ainda mais, já neste mandato, o presidente dos EUA tem apostado neste tema para mobilizar a base de eleitores e não ser acusado de falhar nos principais objetivos da sua governação.

A decisão de Trump de não assinar a declaração conjunta do G7, por entre quezílias em torno do tema do comércio e das taxas aduaneiras, colocou este tema ainda mais na ordem do dia. 
Mas fazem sentido as críticas de Trump? 
O presidente dos EUA tem um fundo de razão ou a sua análise é descabida? 
Afinal de contas, quem é que é o “porquinho mealheiro” de quem?

1 - As taxas aduaneiras nos outros países são ou não mais elevadas do que as dos EUA?

Após a cimeira do G7, em Charlevoix, no Canadá, Donald Trump defendeu que os seus principais parceiros comerciais cobram taxas aduaneiras mais pesadas do que a sua nação. “Vejamos o Canadá — onde pagamos imensas taxas — os Estados Unidos pagam imensas taxas sobre os latícinios. Por exemplo, 270%”, disse o Presidente dos EUA.

Trump usou o exemplo mais gritante. Todavia, é verdade que as taxas aduaneiras norte-americanas são mais baixas do que as cobradas pelos restantes membros do G7, à exceção do Japão.

A Organização Mundial de Comércio (OMC) calcula que as taxas aduaneiras praticadas pelos EUA foram, em média, de 2,4% em 2015, enquanto a União Europeia, que inclui a Alemanha, o Reino Unido e Itália, aplicou taxas efetivas médias de 3% nesse ano. O Canadá, cujo primeiro-ministro, Justin Trudeau, foi apelidado por Trump de “fraco” e “desonesto”, tinha taxas aduaneiras de 3,1% em 2015. No Japão, as autoridades aduaneiras aplicavam taxas médias — efetivas — de 2,1%.


2 - 817 mil milhões de dólares. Que número é este do qual Trump faz bandeira?

Desde a campanha eleitoral que Donald Trump faz, frequentemente, referência a um número que, na sua ótica, serve para provar ao eleitorado que os EUA estão a ser “roubados” no comércio internacional. De tão enorme, esse número impressiona qualquer um — mesmo alguém que não faz a mínima ideia do que acontece no comércio externo: 800 mil milhões de dólares.

Esse número — na verdade 807,5 mil milhões de dólares em 2017 — diz respeito ao défice da balança comercial de bens entre os EUA e o resto do mundo. Ao destacar esse valor, o presidente dos EUA não está a incluir o superávit (do ponto de vista dos EUA) nos serviços: aí os EUA exportam mais 255 mil milhões do que importa. Ou seja, ponderando os dois elementos sem dar primazia a um em detrimento do outro, o défice comercial dos EUA com o mundo — de bens e serviços — é de 552 mil milhões de dólares.

Vale a pena não esquecer os dados sobre os serviços porque, como se postula no relatório económico divulgado pela Casa Branca ainda há poucas semanas, “a economia norte-americana está a afastar-se da produção manufatureira e a dirigir-se para a prestação de serviços”.

No mandato de Trump, e apesar do conteúdo das mensagens que passa publicamente, o défice comercial continua a dilatar-se (saltou de 502 para 552 mil milhões entre 2016 e 2017, muito por culpa do comércio de bens). Nesse mesmo relatório, publicado já sob a liderança de Trump, pode ler-se que “concentrar apenas no comércio de bens ignora a vantagem comparativa dos EUA nos serviços”. E aí, em serviços de elevado valor acrescentado como a finança, a engenharia, a educação e as novas tecnologias, os EUA têm um superávit a nível global.


3 - Trump tem razão quando acusa a UE de subsidiar setor automóvel, em prejuízo dos EUA?

Todos os blocos económicos protegem os seus setores produtivos com subsidiação e com outras medidas de estímulo. Um dos exemplos que Trump mais gosta de usar é a indústria automóvel, onde ameaçou com uma taxa de 25% contra as importações de carros. De facto, a própria Comissão Europeia reconhece que “devido à importante criação de emprego e outros efeitos positivos de investimentos por parte do setor automóvel, os Estados-membros têm disponibilizado quantias elevadas em ajudas ao investimento no setor”.




















Essas medidas de subsidiação foram especialmente robustas durante o auge da crise económica (mais de 1,8 mil milhões entre 2007 e 2014, só para este setor). Mas os EUA também o fazem: o exemplo mais paradigmático de todos é a nacionalização da “gigante” General Motors no final da década passada. Outro exemplo: o investimento na Chrysler, quanto também essa empresa entrou em dificuldades. Que subsidiação maior existe do que uma nacionalização pós-bancarrota?

O mais paradoxal do discurso de Trump, contudo, é que as interligações da indústria e do comércio mundial são, hoje, tão complexas que levam a que, por exemplo, o maior exportador em todo o país é uma fábrica da alemã BMW na localidade de Spartanburg, na Carolina do Sul.

“Mas, para Trump, isto são factos que não importam ou que ele não toma o tempo necessário para perceber — nunca sei muito bem qual é que é a explicação, em cada momento”, comentou, recentemente, o congressista luso-descendente Jim Costa, em entrevista ao Observador.


4 - Faz sentido dizer que a UE se protege contra as importações vindas dos EUA?

Não são de agora as críticas de alguns membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a Europa e as suas alegadas práticas dissuasoras da importação e, portanto, protecionistas. Em 2011, por exemplo, a UE foi criticada por envolver demasiada burocracia e padrões de qualidade, designadamente na área agro-alimentar, o que na prática seria uma violação das regras da OMC.

Em antecipação a esta cimeira, e já a adivinhar um confronto com os EUA, a Comissão Europeia preparou um conjunto de dados que procuram rebater a ideia de que as exportações norte-americanas (para a UE) podem estar a ser penalizadas por medidas que vão além das subsidiações ou das taxas aduaneiras.

Nesse factbox, a UE sublinha que por exemplo na carne de vaca os 50 estados podem exportar para os países da UE — ao passo que só França, Irlanda, Holanda e Lituânia podem exportar carne de vaca para os EUA. Ovos só a Holanda pode exportar para os EUA e carne de aves nenhum país da UE está autorizado a exportar este produto para os EUA.

Voltando ao tema dos automóveis, a UE lembra que todos os anos são produzidos nos EUA 2,4 milhões de carros europeus, com destaque para a tal fábrica na Carolina do Sul. Só o grupo BMW dá emprego a 70 mil pessoas nos EUA.

Mas como é que as taxas aduaneiras são aplicadas? As regras preveem que seja aplicada uma tarifa de 10% nas importações de carros dos EUA para a UE, que compara com 2,5% aplicados em sentido contrário. Mas essas são taxas regulamentares — na realidade, essas taxas quase nunca são pagas na totalidade, desde logo devido à organização da produção em que peças automóveis vão para os EUA para serem montadas. Em 2017, diz a UE, apenas mil milhões de euros em exportações de carros dos EUA para a UE pagaram a taxa máxima — num universo de seis mil milhões.

Os números da OMC referentes às barreiras ao comércio não apoiam as declarações de Trump. Os EUA têm 5.256 medidas não tarifárias em vigor, incluindo subsídios à exportação e restrições às importações, segundo a base de dados da OMC, enquanto a União Europeia lista 2.075, o Canadá 2.002 e o Japão 1.519.

Só em subsídios à exportação, a administração Trump mantém apoios às indústrias das carnes — vaca, porco e aves —, ovos, óleos vegetais, manteiga, queijo, arroz e trigo.

Há muito tempo presente nas declarações e tweets de Trump, a guerra comercial a sério começou quando a administração norte-americana aplicou, a 1 de junho, taxas aduaneiras de 25% por cento nas importações de aço e de 10% no alumínio. Uma decisão que atinge a União Europeia, o Canadá e o México. Bruxelas anunciou uma retaliação, previsivelmente a partir de julho, sobre produtos norte-americanos como o bourbon, as calças de ganga, o sumo de laranja e as motorizadas.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

"Estamos preparados para um novo investimento"

ENTREVISTA
Presidente da Boldati  João de Mello
02 de Junho de 2018
“Temos alertado para os elevados custos de contexto”
TEXTOS Anabela Campos e João Silvestre FOTO António Pedro Ferreira




























A Bondalti, nome escolhido pelo grupo Mello para a antiga CUF — Químicos Industriais, voltou a entrar num ciclo de crescimento, mas Portugal não será o destino prioritário. Os elevados custos da energia — eletricidade e gás natural — são um dos argumentos para a internacionalização e para que a Bondalti esteja já a investir fora do país, conta João de Mello, presidente do conselho de administração. A fiscalidade é outra das barreiras. Os PALOP estão entre os destinos de internacionalização em estudo.
JOÃO DE MELLO
É um dos filhos de José de Mello e está juntamente com os irmãos na comissão-executiva do grupo.Tem sob a sua liderança o negócio centenário da área química, cujo ativo mais valioso é o polo de Estarreja. A CUF — Químicos Industriais, hoje Bondalti, é um dos grandes fornecedores das maiores multinacionais do sector. É o maior produtor não integrado de anilina na Europa, e o segundo maior produtor ibérico de cloro e derivados. Em Estarreja, o grupo tem cerca de 400 trabalhadores. A inovação está nas prioridades de João de Mello — a Bondalti tem 26% dos trabalhadores na área da investigação, desenvolvimento e tecnologia. Em Portugal tem também um centro de produtos nanoestruturados em Coimbra, a Innovano, dois centros logísticos, em Aveiro e no Lavradio. Em Espanha tem um centro produtivo na Galiza e está a investir na Cantábria.

A CUF — Companhia União Fabril é uma marca histórica e fortíssima. Imaginamos que mudá-la não terá sido uma decisão fácil. É uma mudança de marca ou é algo mais profundo?
Resolvemos mudar após uma reflexão estratégica ao longo de um ano, e que passa por uma maior internacionalização, maior ambição e objetivos de liderança. Achámos que era bom aproveitar para alterar o nome. Optámos por Bondalti.

Este projeto mais ambicioso de internacionalização passa por novos mercados?
A Bondalti tem o seu core business no polo químico de Estarreja, onde desenvolvemos dois produtos principais: a anilina e o cloro e seus derivados. Acordámos, em 2007, fazer um investimento, em parceria com a Dow Chemical, para dobrar a capacidade de Estarreja. Arrancámos em 2009 com um investimento de €250 milhões, dos quais €125 milhões feito por nós.

E hoje são um grande exportador.
Diretamente exportamos €130 milhões. Mas grande parte do que fazemos em Estarreja é vendido à Dow Chemical — nosso parceiro há 20 anos — que, por sua vez, transforma e exporta. Diria que 80% do que é feito em Estarreja é direta e indiretamente para exportação.

Estarreja é o vosso principal polo...
É o alicerce sobre o qual queremos desenvolver o resto. Estivemos alguns anos a digerir o investimento, depois, com a rentabilidade, começámos a amortizar dívida para estarmos preparados para um novo ciclo de investimento. Estamos nesse momento.

Serão montantes dessa dimensão?
Não chegam per se ao montante daquele investimento feito de uma vez só, mas eu diria que num período de seis anos até o poderá ultrapassar. A anilina é usada sobretudo no fabrico do MDI, utilizado em variadíssimas aplicações. É isso, por exemplo, que a Dow produz e que tem como aplicações, por exemplo, tabliers e bancos de automóveis ou isolamentos térmicos ou acústicos. Somos responsáveis por 3% a 5% da capacidade mundial e fornecemos os grandes players — BASF, Covestro (ex-Bayer), Dow Chemical ou a Usman, por exemplo. São este tipo de parceiros/clientes que podemos vir a desafiar para investir.

Já avançaram com investimentos?
Na área do cloro e derivados estamos a fazer um investimento de €55 milhões em Espanha, na Cantábria, em Torre de La Vega. Queremos ser o primeiro player ibérico na produção de cloro e derivados.

Os PALOP estão no mapa?
Os PALOP no caso da Bondalti estão permanentemente no mapa. Olharemos para estes países como um mercado com potencial de investimento, nomeadamente na área de produção de cloro e derivados.

É um ciclo de crescimento que se passará, portanto, fora de Portugal…
Estes investimentos são muito intensivos em capital mas também em consumo de energia, elétrica e gás natural. Temos alertado as autoridades portuguesas para os elevados custos de contexto. Por isso, neste período o investimento em Estarreja está estabilizado. Não digo que não possa haver um reforço de investimento em Portugal de alguma monta depois disto, e mais na fase final dos seis anos, mas estará dependente da evolução dos custos de contexto: a energia elétrica, o gás natural e os fatores fiscais.

A energia é a vossa grande dor de cabeça? A EDP...
Não é a EDP, hoje em dia existe um mercado livre de energia. Mas temos custos regulados, o que torna elevado o diferencial para outras geografias. Tem havido um esforço do Governo e das entidades reguladoras para os diminuir. Mas ainda estamos muito longe do centro da Europa e até de Espanha.

Então não há muito mais a fazer?
Os preços têm vindo a baixar mas não ao ponto de diminuir o diferencial. Deve haver sempre preocupação nessa matéria, nomeadamente da ERSE. É, por exemplo, preciso ter mais interligações no gás e eletricidade.

E seria a REN a responsável?
Não... As interligações têm sido difíceis por causa dos Pirenéus em Espanha. Há aparentemente um acordo entre os Governos português, espanhol e francês. Era para haver em junho uma cimeira entre Macron, Rajoy e Costa, em Lisboa, que aparentemente não irá acontecer.

Há falta de pessoas qualificadas?
Em Portugal temos mão de obra bastante qualificada. Infelizmente existe é pouca gente disponível, porque em alguns sectores estamos quase a atingir o pleno emprego. Para cargos muito técnicos e especializados não conseguimos encontrar pessoas.

É uma questão de salário?
Não. Na indústria química não se paga mal.

E a fiscalidade?
A fiscalidade é um dos entraves ao investimento. Portugal é talvez o terceiro país mais caro no IRC. Devia olhar-se para esta matéria. Para não falar também da Segurança Social e do IRS que penalizam muito as pessoas. Infelizmente, o primeiro-ministro já deu indicações de que não irá baixar os impostos. É um erro crasso. Devia haver uma vontade férrea de diminuir impostos para as empresas e para as pessoas. Ajustando o Estado à dimensão desse objetivo. Nas empresas, temos de nos adaptar à dimensão do nosso mercado. O Estado deve ser regulador e não mais do que isso. A Europa devia pôr um limite aos impostos, porque se não qualquer dia somos escravos dos países. Devia haver uma lei europeia ou estar na constituição a impossibilidade de cobrar em IRS mais de 30% e em IRC mais de 15%.

É preciso mudar a lei laboral?
Mudar as leis do trabalho é mau. Para nós, na área química, o impacto não será muito relevante. Para o país, mudar leis estabelecidas, conhecidas e a que as pessoas estão habituadas não é bom. Mas não diria que é fraturante.

Não falou na Justiça. Preocupa-o?
Para as empresas que se portam bem, a Justiça não é um problema.

E as cobranças ou os litígios.
Nós não temos esse problema. O problema da Justiça são os casos de corrupção.

Com os políticos?
Não só políticos. No futebol ou alguns empresários. Demora muito tempo e cria uma imagem degradante para o país.

Como olha para um país em que, nos últimos anos, várias das suas grandes empresas deixaram de ser controladas por capital nacional?
Após o 25 de abril, e depois nas privatizações, grande parte dos grandes empresários ficou descapitalizado e renasceram com crédito. Portugal talvez não tivesse condições para manter alguns centros de decisão. Num mundo global, o capital não tem fronteiras.

Sente que isso tem consequências negativas para o desenvolvimento do país?
Admito que seja mais uma questão de estarmos pouco habituados a isso. Os reguladores devem estar atentos para que o capital não possa fazer tudo o que quer das empresas.

Há países grandes na Europa, como a Alemanha ou a França, muito pouco interessados em que a China invista em sectores estratégicos.
Há que destrinçar o que é capital do Estado chinês. Quando é esse capital a entrar em sectores-chave da economia, tem muito que ver com geopolítica. Percebo essa preocupação por parte dos Governos europeus. Mas como regular isso, não sei.
“Acabar com grupos centenários, por interesses pessoais, magoa” 
João de Mello sublinha que o grupo José de Mello investiu €1000 milhões em Portugal em cinco anos. Diz que só não estão agarrados a negócios a que não conseguem acrescentar valor. E lamenta o colapso da PT e do BES por interesses pessoais e “mesquinhos”.

Quais são as principais linhas estratégicas do grupo José de Mello?
O grupo tem três áreas principais de negócios: a Brisa, a José de Mello Saúde e a Bondalti, de que já falamos (ver texto ao lado). O objetivo na Brisa é reforçar a atividade em Portugal. Hoje a Brisa está muito no negócio da mobilidade e irá reforçar essa estratégia. Queremos também reforçar a capacidade de liderança na saúde em Portugal. Temos aliás vários hospitais em construção.

Para isso é preciso grande músculo financeiro...
O grupo investiu €1000 milhões na economia portuguesa nos últimos anos. Estamos a falar nos últimos cinco anos, entre o final de 2012 e o final de 2017. E durante esse período diminuímos a dívida em €2,5 mil milhões.

O grupo esteve um pouco asfixiado com dívida há uns anos.
Quem não esteve? A crise económica apanhou o mundo desprevenido. Os grupos económicos que estavam num período de grande expansão tiveram de retrair-se e adaptar-se à realidade. Foi por esse processo que nós também passámos e com muito sucesso.

Foram grandes investidores na banca, na energia. Agora já não estão.
Não estamos agarrados aos negócios. Quando percebemos que deixámos de extrair de um negócio tanto quanto outros podem fazer, vendemos.

Sente que a concorrência na saúde ficou mais agressiva com a entrada dos chineses da Fosun na Luz Saúde?
O que nós gostamos é de concorrência agressiva. Quanto mais agressiva melhor. Obriga-nos a dar o melhor que temos.

O facto de a Fosun ter simultaneamente a maior seguradora — a Fidelidade — e a Luz Saude dá-lhe uma vantagem comercial?
Eventualmente. Mas a Fidelidade não é a única seguradora em Portugal.

Não sente que há concorrência desleal?
Não. A concorrência é aguerrida, mas, como já disse, a concorrência é salutar.

É possível que o grupo entre em novas áreas de negócio?
Criámos no grupo um programa a que chamamos grow virado para as startup. O país tem um enorme apetência na área das startups e nos queremos incubar startups nas nossas empresas. Mas áreas de negócio novas não estamos a pensar nisso, para já.

Já estão em algumas empresas?
Na saúde e na Brisa já temos empresas incubadas. Ainda não investimos diretamente em nenhuma delas.

Acha que a dez anos o grupo vai estar mais internacional? É essa a ambição?
Dez anos no mundo em que vivemos é quase futurologia. Diria que mais internacionalizado certamente, nem que seja pela Bondalti. Na área da saúde e das concessões, diria que estará muito focado no país mas não descurando oportunidades de crescimento.

E o Brasil? Correu mal para muitas empresas portuguesas.
Tivemos um caso de sucesso muito bom com a Brisa. Tinha uma participada chamada CCR, que já vendemos. Hoje temos temos uma sociedade numa participada da Brisa — a BCR — onde três grupos brasileiros tem 30% do capital. Temos ligações ao Brasil mas não temos capital investido lá. Não está no horizonte próximo voltar a investir no Brasil.

Como explica a dificuldade dos negócios portugueses no Brasil?
O Brasil em si, pela dimensão, é uma dificuldade. É preciso ter cuidado com a internacionalização: afetar as pessoas certas, ter os parceiros certos, ter um grande conhecimento do mercado.

Surpreendeu-o o que aconteceu ao país nos últimos anos? O colapso da PT, o que aconteceu no BES…
Fiquei triste, fiquei muito triste. Vendo que tudo isso foi feito por interesses, aparentemente, segundo a leitura que faço dos jornais, mesquinhos e pessoais. Acabar com grandes grupos e grupos centenários, por interesses pessoais, magoa-me enquanto empresário.

Criou-se uma imagem negativa à volta dos grandes grupos familiares.
Não tenho dúvidas que sim.

Também há ex-políticos no vosso grupo, embora poucos.
Contratamos por meritocracia. Desde que seja transparente, ser político ou não, não faz diferença.

‘Geringonça’: “Bateu as minhas expectativas”
Desconfiou da solução política nascida em 2015 mas reconhece como positivos os resultados obtidos. Avisa, porém, que agora é hora de provar o que vale

Quando se fala na solução da ‘geringonça’, que levou António Costa ao poder com o apoio do PCP, PEV e BE, João de Mello não hesita em elogiá-la pela forma habilidosa como foi encontrada, embora reconheça teve muitas dúvidas sobre o seu sucesso. 
“Quando António Costa teve esta ideia, brilhante diria mesmo, ninguém acreditou que chegaria tão longe e com os resultados que teve”, afirma o presidente da Bondalti. 
João de Mello não tem dúvidas sobre o desempenho económico durante estes anos de consulado de Costa. 
Os números, diz, estão à vista: “Não posso fazer uma avaliação negativa pela ação resultante na economia até agora. 
O país tem estado a crescer, tem amortizado dívida, as taxas de juro da dívida portuguesa e o défice têm estado a níveis historicamente baixos.” 
Se recusasse reconhecer os resultados, sublinha, seria com “o Dom Quixote a debater-me com os moinhos”. 
E admite mesmo: “A ‘geringonça’ bateu as minhas expectativas.”

Isto não significa, no entanto, que os problemas estejam ultrapassados, e que o Governo não tenha importantes desafios pela frente. 
Pelo contrário. 
É que, avisa, já há alguns sinais de que “as coisas estão a mudar um bocadinho e a derrapar”. 
“A economia está a desacelerar.” 
E “as taxas de juro estão a subir”, frisa. 
O gestor referia-se em particular à turbulência nos mercados no início da semana por causa da crise política em Itália, que levou à subida nos juros da dívida na zona euro.

Para João de Mello “a dívida não está a níveis em que possamos relaxar” e é, por isso, que agora é o momento em que o Governo tem que “mostrar que é capaz de passar do crescimento económico de 1,8% para voltar aos 2,8% ou 3%”. 
Porque “precisamos de crescer 3% para baixar dívida com sustentabilidade”. 
Em ano de eleições, apertar o controlo das contas públicas pode ser difícil.

Não é por acaso que o também administrador-executivo do grupo José de Mello insiste que “está na altura de provar” do que o Governo é realmente capaz na frente da política económica. 
É que “o jogo vai ficar mais difícil. 
O petróleo está a aumentar, as taxas de juro a subir, a economia a decrescer, os parceiros estão em maior dificuldade e Itália vive em ambiente de incerteza”. 
João de Mello admite dar o benefício da dúvida mas promete estar “atento”.

Os juros irão voltar a subir, até porque o Banco Central Europeu (BCE) tem agendado o fim do programa de compra de dívida para setembro, e todas as previsões apontam para um abrandamento do PIB português nos próximos anos. 
Este benefício da dúvida não quer dizer que, “não haja coisas da ‘geringonça’ de que não goste, coisas mais pessoais e da área social”. 
Mas disso não quis falar. 
E há também a questão dos impostos. 
João de Mello considera demasiado elevada a fiscalidade em Portugal, e defende que é fundamental que os impostos baixem em Portugal não só para atrair investimento, mas também para manter o que já existe.