segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Trabalhadores da CGD em greve a 24 de Agosto

BANCA
Lusa
2 de Agosto de 2018, 20:42 
























Denúncia do Acordo de Empresa por parte da gestão do banco público, que tem neste momento 7.700 trabalhadores, é a justificação para o Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos convocar paralisação

O Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos (STEC), convocou hoje uma greve para o dia 24 no banco público contra a denúncia do Acordo de Empresa (AE) apresentada pela administração.

A denúncia do acordo empresa "constitui uma verdadeira declaração de guerra aos trabalhadores e ao STEC", sublinha o sindicato em comunicado à imprensa.

"Depois de protelar sucessivamente as negociações de revisão da tabela salarial (em vigor desde 2010), a Caixa, manifestando má fé negocial, apresentou uma proposta arrasadora" onde pretende, segundo o STEC, eliminar a carreira profissional, as anuidades, o prémio de antiguidade e ainda liberalizar os horários, aumentar a polivalência de funções e dificultar o acesso ao crédito à habitação.

"No momento em que a Caixa anuncia 194 milhões de euros de lucros no primeiro semestre, 'premeia' os trabalhadores com esta proposta de AE", acrescenta o sindicato.

O STEC denuncia ainda as "pressões" para que os trabalhadores adiram ao plano de reformas antecipadas e ao plano de rescisões amigáveis bem como o "assédio crescente nos locais de trabalho, pela via da ameaça, da humilhação, do desrespeito pessoal e profissional".

O vice-presidente do STEC, Pedro Messias, disse à Lusa que espera uma "forte adesão" à greve, uma vez que o protesto abrange todos os trabalhadores do banco público, sejam ou não sindicalizados, não abrangendo porém as empresas do grupo.

Segundo o dirigente sindical, a Caixa tem neste momento cerca de 7.700 trabalhadores.

CGD diz que denunciou Acordo Empresa para evitar "desvantagem concorrencial"

BANCA
Lusa
6 de Agosto de 2018, 21:01
Admnistração do banco público é liderada por Paulo Macedo

"Há, pois, que fazer um esforço de diálogo, no sentido de aproximar o AE da CGD ao da restante banca, evitando assim uma situação de desvantagem concorrencial", defende equipa de gestão liderada por Paulo Macedo

A administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) justificou a denúncia do Acordo de Empresa (AE) com a necessidade de aproximar as condições laborais do banco público às da restante banca, evitando assim uma "situação de desvantagem concorrencial".

Numa comunicação interna aos trabalhadores a que a Lusa teve hoje acesso, a administração do banco liderado por Paulo Macedo começa por sublinhar que no sector bancário houve "uma significativa evolução nas condições contratuais" desde Agosto de 2016 com a publicação de novos acordos colectivos "mais flexíveis e adequados à realidade".

"Num mercado fortemente concorrencial, e considerando as características dos Acordos de Empresa em vigor na CGD, torna-se vital e urgente rever as suas condições, aproximando-as das que vigoram na generalidade do sector", defende a administração do banco público.

No texto publicado na 'intranet' do banco, a CGD recorda que vigoram três AE na instituição, encontrando-se todos "em situação que permitem desencadear um processo de alteração".

A administração da CGD explica que os AE do banco remontam a 2003, mas têm raízes no acordo colectivo do sector bancário da década de 90, "pelo que necessitam de alterações profundas".

"A melhor forma de promover as alterações que se impõem no actual AE é através da figura jurídica da denúncia", acrescenta a CGD, lembrando que existe um prazo limite para se alcançar um acordo.

Além disso, a administração sublinha que "a CGD tem um conjunto de características diferentes da banca, tais como anuidades, níveis mínimos de algumas categorias, promoções por antiguidade para alguns níveis e outras" e que também os acordos colectivos do sector "apresentam especificidades não existentes no AE da CGD".

"Há, pois, que fazer um esforço de diálogo, no sentido de aproximar o AE da CGD ao da restante banca, evitando assim uma situação de desvantagem concorrencial", afirma a administração do banco.

A denúncia do AE e a proposta de novo acordo foi apresentada aos sindicatos no dia 25 de Julho.

"Esta denúncia não tem, previsivelmente, efeitos até 2020 que não sejam o do início de um processo negocial com todos os sindicatos, continuando a aplicar-se os atuais acordos até entrada em vigor de nova convenção, que deverá estar concluída, no limite, no primeiro trimestre de 2020", explica ainda a administração de Paulo Macedo, segundo a qual a tabela salarial continuará a ser negociada autonomamente, à semelhança dos restantes bancos.

A denúncia do AE apresentada pela administração levou o Sindicato dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos (STEC) a convocar uma greve para o dia 24.

Para o sindicato, a denúncia do acordo empresa "constitui uma verdadeira declaração de guerra aos trabalhadores e ao STEC".

Por sua vez, a Federação do Sector Financeiro (Febase) considerou hoje não ser "sensato ou coerente" recorrer nesta altura a uma greve na CGD, optando antes por negociar "de boa-fé" com a administração do banco público o novo Acordo Empresa.

Porém, a Febase lembra que "todos os trabalhadores, sindicalizados ou não, que estão cobertos pelo pré-aviso de greve".

Caixa dá prémio aos trabalhadores em plena guerra laboral

BANCA
Pedro Ferreira Esteves
24 de Agosto de 2018, 6:30 






















A administração liderada por Paulo Macedo denunciou o Acordo de Empresa, abrindo a porta à greve desta sexta-feira. 
Em Setembro começam as negociações com os sindicatos, que arrancarão já com o ambiente suavizado pelo pagamento de prémios extraordinários e de progressões.

O banco público vai partilhar com os trabalhadores os lucros que alcançou em 2017 e já no primeiro semestre de 2018. 
A equipa de Paulo Macedo pretende pagar um prémio a quem for avaliado positivamente e tiver cumprido os objectivos. 
Além deste bónus, todos os trabalhadores que progridam este ano por mérito receberão em simultâneo a respectiva contrapartida. 
Um bónus que chega em Setembro, mês em que vão arrancar as negociações para mudar o Acordo de Empresa (AE), cuja denúncia pela gestão desencadeou a greve desta sexta-feira.

Segundo apurou o PÚBLICO, o prémio que será pago no próximo mês deverá oscilar entre um mínimo de 500 euros até um máximo de 3000 euros e, foi justificado perante as chefias do banco, com a figura da “partilha” de lucros. 
A Caixa regressou em 2017 aos lucros anuais (de 52 milhões de euros), tendo reforçado essa recuperação já no primeiro semestre deste ano (194 milhões). 
O valor do prémio está indexado à avaliação e dependente do cumprimento dos objectivos de equipa, podendo ainda variar consoante o salário base de cada trabalhador.

Já as progressões anuais por mérito relativas a 2018, que continuam por se reflectir nas remunerações dos trabalhadores visados, deverão avançar também em Setembro. 
E serão pagas com retroactivos a Janeiro, como está previsto, apesar de numa primeira fase ter sido anunciado aos sindicatos que só recuariam até Agosto, segundo apurou o PÚBLICO.

Questionada sobre estas duas iniciativas – que acontecem numa altura em que a administração já entregou aos sindicatos uma proposta para rever o Acordo de Empresa do banco – fonte oficial da Caixa explicou que “a Comissão Executiva deliberou atribuir aos colaboradores do grupo em Portugal um prémio de desempenho que reconheça aqueles colaboradores que se destacaram pelas suas competências, empenho e contributo para os resultados”. 
Adicionalmente, sublinha que o “prémio terá um valor fixo determinado em função da avaliação de desempenho e assiduidade em 2017. 
Os colaboradores premiados com o Prémio Excelência 2017 terão uma majoração de 50% neste prémio”.

Já no que diz respeito às promoções por mérito “são adicionais aos prémios de desempenho e só serão pagas em Setembro” depois de já ter terminado o processo de avaliação. 
Por outro lado, e “para que não sejam discriminados os trabalhadores dos restantes níveis não previstos no actual Acordo de Empresa, a Comissão Executiva irá, à semelhança do ocorrido em 2017, atribuir promoções por mérito também aos trabalhadores dos restantes níveis que cumpram os critérios de avaliação”.

Guerra e paz laboral
A administração liderada por Paulo Macedo quer um novo Acordo de Empresa da Caixa que se aproxime mais do que está em vigor no resto da banca, através do Acordo Colectivo de Trabalho do sector. 
Mas os trabalhadores não querem perder direitos e a distância entre as partes está balizada pelas progressões por antiguidade e pela anuidade, duas rubricas exclusivas do banco público. 
Pelo meio está a revisão da tabela salarial, que embora não esteja abrangida pelo AE pode ser a chave para desbloquear a negociação.

A greve desta sexta-feira foi convocada pelos Sindicatos dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos (STEC), estrutura independente e a mais representativa do banco, que colocou a fasquia alta sobre os efeitos da denúncia do AE pela gestão: “uma verdadeira declaração de guerra aos trabalhadores (o Sintaf - Sindicato dos Trabalhadores da Atividade Financeira, menos representativo, também lidera a greve).

A fasquia para a Caixa Geral de Depósitos (CGD) é diametralmente oposta: “a denúncia não é uma declaração de guerra”, sublinhou ao PÚBLICO fonte oficial do banco. 
A denúncia é apenas o recurso a um instrumento jurídico que procura abrir a porta a uma revisão do AE, cuja proposta elaborada pela administração já foi entregue aos sindicatos. Para além do STEC, os sindicatos ligados à UGT (agrupados na Febase - Federação do Sector Financeiro) já pediram o adiamento do prazo para responderem às ideias da administração, enquanto que o Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB)? já entregou a sua proposta a Paulo Macedo. 
E pretendem, em Setembro (o tal mês em que receberão o prémio e as progressões), sentar-se à mesa das negociações, tendo como referência alguns dos acordos que assinaram noutros bancos (Montepio ou BCP, mas também no Banco de Portugal). 
Uma diferença de postura face ao STEC, que reflecte o facto de já terem assinado noutros bancos a perda de alguns direitos que a Caixa pretende agora eliminar. 
O próprio banco assume: “A proposta que está em cima da mesa é muito semelhante ao que foi negociado na restante banca, pelo que há condições para isto convergir num clima de paz social”, assinalou a mesma fonte oficial.

Progressões e anuidade
Entre todos, o ponto de maior resistência entre as partes são as progressões automáticas por antiguidade. 
A gestão quer eliminá-las totalmente. 
No AE em vigor – que foi assinado em 2016 – já foi introduzida uma referência ao mérito, permitindo que os anos só contassem para progredir entre os 18 níveis da carreira de um trabalhador da Caixa nos casos em que a avaliação é positiva. 
Mas, ainda assim, existe a obrigatoriedade de progredir entre níveis 4 e 9, com mínimos de progressão de 16% dos trabalhadores elegíveis.

Para a Caixa, “não queremos uma obrigatoriedade automática, queremos mérito, mais flexibilidade e menos enviesamento nas promoções por mérito, que actualmente são obrigatórias para alguns níveis”. 
E na aproximação ao Acordo Colectivo do sector, a proposta é eliminar o facto antiguidade e levar todos os trabalhadores a progredir por mérito, com um mínimo de 10% do universo dos quase 8000 trabalhadores do banco. 
E com base na avaliação das hierarquias, validada sempre pela comissão executiva.

Outra das questões é a anuidade, que é paga na Caixa em cima das diuturnidades, a cada cinco anos e que representa um valor médio de 400 euros anuais. 
Para a gestão, trata-se de uma excepção no panorama do sector bancário, que já não se justifica. 
Para os sindicatos, o valor é residual no bolo geral dos custos salariais da empresa, pelo que interpretam o fim das anuidades como um ataque desnecessário aos direitos dos trabalhadores.

Apesar destes pontos de tensão, ambas as partes mostram-se disponíveis para fazer cedências. 
“Estamos a abrir um período negocial em que pomos tudo em cima da mesa”, diz a Caixa. “Partimos para a negociação com tudo em aberto para discutir”, frisa Paulo Alexandre, dirigente da Febase ao PÚBLICO. 
Já Pedro Messias, do STEC, destaca que apesar da greve - que justifica com os avanços e recuos da gestão durante os últimos meses – “temos noção de que é uma negociação. 
Mas tem de ser para os dois lados”.

A proposta de AE da gestão prevê ainda outras questões que geram alguma resistência por parte dos trabalhadores, entre as quais o fim de uma cláusula que fixa os serviços sociais como direito no AE (embora estejam previsto na lei orgânica do banco como obrigatórios) ou a maior flexibilização na mobilidade interna, ou até a criação de limites ao crédito concedido aos funcionários. 
Mas a separar as partes está, acima de tudo, a diferente percepção do nível remuneratório em vigor na Caixa

Aumentos salariais
Como pano de fundo para a revisão do AE estão as negociações sobre os aumentos salariais. 
Depois de um tenso processo que obrigou mesmo a um procedimento de conciliação junto do Ministério do Trabalho, a proposta da administração de Paulo Macedo fixou-se num aumento de 0,35%, depois de recusar várias investidas dos sindicatos (de 3% com mínimo de 40 euros ou 2,5% com mínimo de 30 euros). 
Hoje, em cima da mesa, está uma proposta dos sindicatos de 2% com mínimo de 50 euros. Longe dos 0,35% que fonte sindical classificou de “ridículo” ao PÚBLICO, referindo os aumentos de pelo menos 1% negociados noutros bancos. 

Em comunicado, o presidente do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB), Paulo Marcos, sublinhou esta quinta-feira que “os trabalhadores da CGD não beneficiaram dos aumentos das tabelas salariais em 2011, 2016 e 2017, ao invés do que sucedeu nos restantes bancos a operar em Portugal”. 
E propõe aumentos de 3,96%.

O aumento salarial não está no Acordo de Empresa, mas segundo a gestão, é condicionado por ele. 
“Quando se soma diuturnidades, anuidades, progressões automáticas por antiguidade, progressões obrigatórias por mérito em alguns níveis, chega-se a uma progressão de remunerações que supera 1% ao ano, só com o AE a correr, sem tabela salarial”, descreve fonte oficial, acrescentando ainda que o bolo remuneratório em vigor na Caixa é 19% acima do sector.  

Para os sindicatos, este número é discutível, sobretudo porque, dizem, os trabalhadores da CGD descontam mais para a Caixa Geral de Aposentações que os funcionários do resto da banca (11% contra 3%, na maior parte dos casos). 
Ainda assim, a tabela salarial, admitem as duas partes, pode desbloquear as negociações do AE. 
“A questão salarial é importante, não é fundamental. 
Vamos tentar aproximar posições, mas temos de ser compensados por outras questões, o problema não se esgota nos salários”, sublinha Pedro Messias, do STEC.

Em linha com este pensamento, a mesma fonte da Caixa explica que “globalmente, a existência de condições superiores à média do sector, mantém-se neste AE. 
Este AE não está pensado para fazer um nivelamento abrupto, a Caixa vai ter que conseguir atrair talento, renovar quadros, tem de fazer a digitalização” e para isso as condições remuneratórias continuam a ser determinantes.

Os pontos quentes da negociação
As negociações para o novo Acordo de Empresa da Caixa arrancam num momento em que corre o plano de reestruturação definido com as autoridades europeias. O objectivo de reduzir custos com pessoal está fixado em 1,25% em 2018 e 1,5% até 2020, quando acaba o plano. Nesse sentido, estão a ser eliminados cerca de 500 postos de trabalho ao ano, até um limite de 2000, através de reformas antecipadas (a partir dos 55 anos, sem penalização a partir dos 60 anos) e rescisões voluntárias. O novo AE está previsto para entrar em vigor no primeiro trimestre de 2020.
ProgressõesÉ o grande tema da negociação do Acordo de Empresa da Caixa. E tem várias componentes cuja conjugação está a manter as duas partes bem afastadas. O actual AE prevê progressões automáticas por antiguidade, mas desde que o trabalhador seja avaliado positivamente. A Caixa tem 18 escalões, quando um trabalhador permanece, por exemplo, alguns anos num escalão, passa automaticamente para o seguinte. Os sindicatos recusam perder este direito. A gestão quer promover todos por mérito, sem as amarras da antiguidade e dos níveis, mediante avaliação das chefias.
MobilidadeO novo AE prevê algumas medidas de flexibilidade como a possibilidade de alargar as áreas elegíveis para os funcionários mudarem de posto de trabalho ou a perda de preferência na ocupação de vagas deixadas em aberto pelo programa de saídas voluntárias em curso. Os sindicatos querem restringir esta flexibilidade.
AnuidadeA Caixa paga diuturnidades e, a cada cinco anos, uma anuidade média de 400 euros anuais. A gestão considera-a uma excepção no sector. Para os sindicatos, o valor é residual, pelo que é considera apenas um ataque gratuito aos trabalhadores. Adicionalmente, a Caixa paga um prémio final de carreira que pretende, agora, eliminar no novo Acordo de Empresa.
SaúdeOs serviços sociais da Caixa são únicos no sector e no panorama da saúde em Portugal. A proposta de Acordo de Empresa elimina uma cláusula que fixa a responsabilidade da Caixa pelos serviços sociais. A gestão alega que esse direito está previsto na lei orgânica e nunca será eliminado. Os sindicatos desconfiam e dizem que há interpretações jurídicas que apontam para um enfraquecimento desta obrigatoriedade na prestação dos serviços de saúde, que existem além do SAMS a que todos os bancários têm direito
Crédito à habitaçãoO novo Acordo de Empresa impõe limites ao crédito à habitação concedido a trabalhadores da Caixa, tanto em montante como em contratos.E apertam os critérios de risco. Para os sindicatos, é uma regra que não se justifica, dado que não se conhecem casos de sinistralidade grave entre o pessoal do banco.
Notícia actualizada às 12h00 com a entrega da proposta do SNQTB sobre o Acordo de Empresa

Bruxelas e Governo validaram prémios na Caixa

BANCA
Pedro Ferreira Esteves
29 de Agosto de 2018, 7:00 






















Plano Estratégico 2020 abriu a porta à decisão de distribuir prémios aos trabalhadores do banco público. Para os sindicatos, iniciativa da administração de Paulo Macedo vai criar divisões.

A decisão da administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de distribuir prémios de desempenho em Setembro aos trabalhadores foi discutida com as autoridades nacionais e europeias, no âmbito do programa de recapitalização do banco. 
E recebeu luz verde, ao abrigo do princípio de que a Caixa deverá operar no mercado em igualdade de circunstâncias com os seus concorrentes privados. 
Os sindicatos desvalorizam a atribuição de prémios, preferindo focar as suas atenções na tensa negociação que se avizinha sobre o novo Acordo de Empresa.

“A atribuição de bónus aos trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos foi discutida entre o Governo e a Comissão Europeia, encontrando-se prevista no Plano Estratégico da CGD”, esclareceu ao PÚBLICO fonte oficial do Ministério das Finanças, sobre a decisão de Paulo Macedo de distribuir prémios de desempenho, na sequência do regresso da instituição a resultados positivos. 
Adicionalmente, a mesma fonte sublinhou que “cumpre à administração da CGD a implementação concreta desta medida”.

Em causa está o pagamento já em Setembro de prémios que podem variar entre 500 e 3000 euros, conforme a avaliação das chefias e o cumprimento de objectivos comerciais, de assiduidade e outros. 
Isto em vésperas de uma renegociação salarial que continua a manter as duas partes – administração e sindicatos – afastadas e no arranque das primeiras conversas sobre o próximo Acordo de Empresa do banco, denunciado por Paulo Macedo há um mês.

O plano de recapitalização fechado pelo Governo com a Comissão Europeia, a 10 de Março do ano passado, definiu as balizas da gestão na sequência da injecção de 3,9 mil milhões de euros de dinheiros públicos no banco, tendo por base o pressuposto de que a ajuda do Estado seria feita em condições equivalentes à de um parceiro privado. 
Uma forma de contornar as limitações impostas pelas regras apertadas da Comissão às ajudas públicas dos Estados-membros a empresas europeias. 
Como contrapartida, o Governo português reclamou que a Caixa pudesse utilizar todas as ferramentas de gestão disponíveis aos seus concorrentes privados.

No documento aprovado pela Comissão, o Governo assume que “Portugal considera que a implementação do Plano Industrial da CGD baseia-se no pressuposto que a CGD está autorizada a operar no mercado como qualquer outro banco privado, concorrendo com as mesmas regras de mercado embora mantendo-se 100% controlada pelo Estado”. 
E, desta forma, no âmbito do Orçamento do Estado de 2017, reclama que “os trabalhadores e membros dos órgãos sociais da CGD deixem de estar abrangidos por restrições salariais ou nos prémios”, tal como estava previsto no Plano de Reestruturação em vigor desde 2013 (e também acordado com Bruxelas, no âmbito das ajudas públicas criadas durante o período de ajustamento supervisionado pela troika). 
Este pedido do Governo é, no mesmo documento, aprovado pelas autoridades europeias, que o estende ao fim dos limites aos salários da gestão.

Neste enquadramento legal do Plano Estratégico 2020 da Caixa não é feita qualquer referência ao modo em que a eliminação de amarras remuneratórias pode ser feita, nem é definido um limite para os gastos com estas rubricas, sendo certo que este tipo de medidas fica enquadrada pelos tectos de custos operacionais que o banco se comprometeu a respeitar. 
Nomeadamente, de 450 a 500 milhões de euros em 2018 e de 400 a 450 milhões em 2020. E que determinam a eliminação de perto de 2000 postos de trabalho e de mais de 150 agências durante o mesmo período.

Sindicatos desvalorizam
A distribuição de prémios aos trabalhadores em Setembro – em simultâneo com o pagamento das progressões por mérito relativas a 2018 para todo o quadro de pessoal – apanhou os sindicatos de surpresa, a poucos dias do início das negociações com vista não só à revisão salarial, mas sobretudo à construção de um novo Acordo de Empresa. 
As três estruturas sindicais mais representativas dos quase 8000 trabalhadores questionam o momento da comunicação dos prémios às chefias – em vésperas de uma greve – e desvalorizam o seu impacto na motivação dos funcionários.

“Não fomos consultados. 
A atribuição de um bónus aos trabalhadores ultrapassa os sindicatos”, começa por dizer ao PÚBLICO João Lopes, presidente do Sindicatos dos Trabalhadores das Empresas do Grupo Caixa Geral de Depósitos (STEC), que sublinha tratar-se “de um extra, mas que dá sinais contraditórios” às pessoas. 
Isto porque “a mesma administração que acha que o Acordo de Empresa tem ser radicalmente alterado, acha que há dinheiro para distribuir prémios, com critérios que ninguém entende”.

João Lopes, que lidera o sindicato que convocou a greve da última sexta-feira, dia 24 de Agosto, vai mais longe e diz que a distribuição de prémios “vai objectivamente dividir os trabalhadores e vai criar um maior descontentamento”. 
E acontece numa altura em já existe, segundo este responsável, alguma apreensão não só pelo fecho de balcões e pelas saídas voluntárias, mas também quando a proposta da gestão para o novo Acordo de Empresa elimina diversos direitos dos trabalhadores. 
João Lopes adianta, ainda assim, que a Caixa sempre partilhou os lucros quando os teve, uma situação que aliás decorre do seu enquadramento legal.

Para Paulo Marcos, do Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB), a proposta de prémios é bem-vinda e até peca por tardia, dado que os bancos concorrentes têm-no feito mesmo em anos de dificuldade. 
Mas reconhece que “não estava à espera”, pelo timing que considera “inoportuno” ainda que reconheça não ser "uma coincidência", numa referência à iminência das negociações sobre o Acordo de Empresa.

Mas Paulo Marcos dá um enquadramento mais geral aos prémios, sublinhando que são um “instrumento natural” para a Caixa cumprir as suas prioridades: “coesão nacional” e “devolver o dinheiro que o Estado injectou” no banco. 
Objectivos que, segundo o presidente do SNQTB, serão mais fáceis de atingir com “quadros motivados ou com a retenção e atracção de talentos”.

Já para Paulo Alexandre, dirigente da Febase – Federação do Sector Financeiro (estrutura que agrega vários sindicatos a nível nacional ligados à UGT), os prémios “não são indiferentes” numa altura de negociação salarial ou laboral. 
“A questão que se coloca sempre é a da avaliação do mérito, que é sempre subjectiva”, acrescenta, esperando que “não condicione as negociações” que se avizinham.

Para além do Acordo de Empresa, denunciado pela administração, em cima da mesa estão ainda propostas de revisão da tabela salarial que se encontram muito distantes. 
A administração propôs um aumento anual de 0,35%, depois de já ter chegado a 0,45% e entretanto recuado, enquanto as propostas dos sindicatos variam entre os 2% (com um mínimo de 50 euros) do STEC e os quase 4% do SNQTB.

"Fechar um balcão da Caixa é reduzir o acesso das PME ao crédito"

BANCA
Pedro Ferreira Esteves
3 de Setembro de 2018, 7:00 





















Numa altura em que se negoceiam aumentos salariais no banco público, Paulo Marcos critica o "descaramento" da administração da Caixa de propor 0,35%. 
E contrapõe com aumentos de 3,96%.

Primeira parte da entrevista a Paulo Marcos: Proposta da Caixa aos trabalhadores é “desastrada”

No início do ano fez um pedido de concertação entre sindicatos no tema dos aumentos salariais. Esse pedido não deu frutos. Porquê?
Quando há duas partes em confronto há todo o interesse em que as partes falem unificadas. Quando chegámos percebemos que ao contrário dos bancos que falavam a uma só voz na Associação Portuguesa de Bancos (APB), as diversas federações sindicais apareciam desgarradas, desligadas. 
E portanto escrevi aos meus homólogos. 
Fazia sentido trabalharmos em conjunto para maximizarmos o bem-estar dos trabalhadores. Inclusive antecipando um futuro problema na Caixa, escrevi aos meus colegas do STEC propondo uma mesa negocial única. 
Tenho esperança que havendo uma renovação geracional de dirigentes nas estruturas sindicais venham pessoas com menos histórico e pessoas com capacidade de fazer as pontes.

Chegam à mesa de negociação com a proposta mais alta… é para baixar ou está escrito em pedra? 
Não está escrito em pedra, mas diria que fazendo as contas, correspondendo ao repto da administração da Caixa que acha que os funcionários são bancários, é 3,96%. 
A discussão deve ser centrada aqui e não tanto nas anuidades. 
E não tanto na reposição, porque os trabalhadores perderam cerca de 12% do poder de compra nos últimos nove anos.

Um dos argumentos da administração é que tudo o que está no AE actual vale 1% na tabela salarial, logo à partida. 
Parece-me que esses números carecem de confirmação. 
Eu diria que em 2011 os trabalhadores da Caixa não foram actualizados, 2016 não foram actualizados, em 2017 também não. 
Na fundamentação económica que a Caixa nos enviou, apesar de a generalidade dos dados reportarem a 2010 e 2015, há um que vale a pena ressalvar, que é onde diz que a inflação de 2017 foi de 1,6%. 
Não consigo perceber o descaramento da administração da Caixa de propor 0,35%, quando muito recentemente a administração viu os seus vencimentos impulsionados para equivalente ao que são os salários dos administradores bancários. 
Temos aqui dois pesos e duas medidas

Em relação aos prémios anunciados para Setembro, a iniciativa foi recebida com alguma indiferença pelos sindicatos. Como explica isso? 
Se os prémios forem um reconhecimento de trabalho, nada a opor. 
Mas a atribuição de prémios não deve escamotear o facto de a administração da Caixa ter visto as condições remuneratórias progredirem de forma significativa e estarem a propor aos trabalhadores uma continuação da perda do poder de compra. 

Como acha que a população em geral olha para estas negociações na Caixa, onde há condições que não se verificam na generalidade dos sectores? 
Hoje é mais proveitoso, mais rentável trabalhar no turismo, nas actividades imobiliárias ou noutros sectores, do que na banca. 
Remunera mais, com menos exigências, não tem a supervisão, a responsabilidade cível e criminal associada. 
Porque quando um cliente comprou um produto que não era adequado para o seu perfil, litiga contra o banco e contra o trabalhador. 
E muitas vezes o trabalhador bancário vendeu o produto que achou que era tão bom que comprou para si, com base em informação imperfeita. 
O regulador não regulou, o auditor não viu, o revisor também não. 
Poucas profissões têm o nível e a exigência formativa, a obrigatoriedade de conhecer os clientes, a reserva e o sigilo bancário que são valores quase absolutos em Portugal, e ainda correm o risco de enfrentarem litigância cível e criminal. 
Para este nível de exigências e complexidade, basta olhar para a demissão em massa dos jovens qualificados que não querem trabalhar num sector cujos níveis de remuneração, de pressão, estão desajustados de outros sectores, portanto a resposta é não.

Como vai a Caixa eliminar mais 1000 postos de trabalho em dois anos? 
Eu não vejo nenhuma razão, nem nenhuma necessidade para que essa evolução não seja feita em paz social. 
Admito que todos os anos na Caixa cheguem à idade de reforma 250, 270 pessoas. 
Em dois anos, 500 pessoas. 
Depois é ter capacidade negocial para ter algumas reformas antecipadas e depois ter um pacote de rescisões voluntários, sem coacção para quem quer ter outras oportunidades.

Tem conhecimento de casos de coacção para acelerar saídas de pessoas? 
Desde que a lei foi criminalizada, o SNQTB foi provavelmente a entidade na sociedade civil que mais pugnou pela criminalização, que fez propostas legislativas. 
Desde que está criminalizado, as coisas estão bastante melhor.

Onde tem sentido, no país, que o fecho de balcões da Caixa está a criar mais problemas? 
O país tem um litoral até 30 quilómetros (kms) e depois outro país para o interior. 
E nesse outro país o encerramento de um balcão da Caixa não quer dizer só quatro ou cinco postos de trabalho, o que seria mau. 
Quer dizer que se reduziram de forma significativa as oportunidades de os agentes económicos com iniciativa terem acesso a crédito. 
Porque as pequenas empresas [PME] são caracterizadas pela informalidade, é muito difícil reconstruir em tempo útil relações de confiança que possibilitem que o fluxo normal de financiamento a essas empresas não seja interrompido.

As suas remunerações foram públicas há pouco tempo. O facto de as pessoas envolvidas nesta negociação saberem quanto ganha, fragiliza-o de alguma maneira? 
Absolutamente não.

Proposta da Caixa aos trabalhadores é “desastrada, descuidada e inoportuna”

BANCA
Pedro Ferreira Esteves
3 de Setembro de 2018, 7:00 





















Paulo Marcos, presidente do maior sindicato bancário do país, defende que “é chocante receber em 2018 uma fundamentação económica de 2015” sobre a proposta de Acordo de Empresa da administração de Paulo Macedo.

O Sindicato Nacional dos Quadros e Técnicos Bancários (SNQTB), liderado por Paulo Marcos, tem pouca representação na Caixa Geral de Depósitos (CGD), mas vai sentar-se à mesa das negociações sobre o Acordo de Empresa (AE) do banco público, denunciado pela administração, com a experiência de ter fechado o AE em vários bancos privados já depois do pior da crise ter passado.

Porque não fizeram greve no dia 24 de Agosto?
Porque os nossos sócios acharam, em plenário, embora concordando connosco quanto ao tempo inoportuno da denúncia, e ao modo, que devemos negociar primeiro. Achamos que a greve é a solução de último recurso.

O STEC (Sindicato de Trabalhadores das Empresas da Caixa) acha que a greve dá uma posição de força para ir à negociação mais forte?
O nosso ADN é de negociar e procurar chegar a um encontro a meio do caminho, se for o caso. A nossa força deriva da capacidade técnica de preparar os dossiês, o que é muito importante. Vale a pena dizer que a CGD fez uma denúncia e mandou-nos uma fundamentação cujos últimos dados são de 2015. Era difícil ser mais incompetente. Mandaram uma denúncia com uma fundamentação económica reportando a 2015, quando os non perfoming loans (crédito malparado ou com problemas) estavam a subir, mas podiam ter posto a fundamentação com base nos dados do mês passado, quando estão a cair.

E o que distingue a vossa contraproposta?
A Caixa procurou com este Acordo de Empresa (AE) igualar os seus trabalhadores ao Código de Trabalho, é uma posição de princípio. Mas não deixa de ser sintomático. A posição da administração da Caixa é “não somos funcionários públicos, somos bancários”. E é esse o sentido da proposta. Mas o que nos mandam vai muito para além disso. “Nós não somos funcionários públicos, não somos bancários, somos trabalhadores de uma qualquer empresa privada de um sector indiferenciado”. É uma concepção completamente errada. Se para que os trabalhadores da Caixa não tivessem progressões e aumentos vigorou o entendimento de que eram funcionários públicos, agora para a retirada de um conjunto de um acervo contratual, cláusulas com mais 80 anos, agora resolveram que eram bancários

O fim das progressões por antiguidade é uma dessas cláusulas?
A administração da Caixa quer eliminar as progressões por antiguidade. Nós achamos que devem ser mantidas para os actuais trabalhadores. Não faz sentido que, num banco com regras estáveis há 40, 50, 80 anos, com implicações nas carreiras, nas opções das pessoas, de repente as regras sejam alteradas, alterem-se as expectativas sobre as quais as pessoas fundaram as carreiras.

Mas admite que para as novas contratações já não existam progressões automáticas por antiguidade?
A meritocracia e o esforço individual são pilares das nossas crenças. Mas também convém ter em conta que o processo de progressão por mérito tem algum elemento de subjectividade e as organizações mais maduras temperam isso com o factor antiguidade.

No actual AE  de 2016, só com avaliações positivas se pode activar a progressão por antiguidade. 
A nossa contraproposta é manter para os trabalhadores actuais as promoções por antiguidade nos moldes que estão no acordo de 2016, já no pós-troika. Algo que a administração da Caixa quer eliminar. Por outro lado, existem as promoções por mérito. Isso para nós é um pilar. A administração quer acabar e nós propomos uma cláusula semelhante ao que negociámos com a Associação Portuguesa de Bancos (APB), mas com dois escalões, um até ao nível 9 e outro em diante, mais exigente.

Essa divisão nos escalões das promoções por mérito é exclusiva para a Caixa? 
A Caixa cometeu um erro base: enquanto a outra metade do sector bancário fez a denúncia do Acordo Colectivo (AC) em 2012, numa altura em que a lei o permitia e as condições de exploração estavam a degradar-se acentuadamente, a Caixa faz a denúncia quando as condições de exploração estão a recuperar. O ACT como foi assinado em 2016 para nós representa o ponto mínimo, a maré mais baixa, de uma concepção das relações de trabalho. E a partir daí vê-se que o AE do Montepio já é de Dezembro de 2016, o do BCP de 2016, o mais recente é o do Banco de Portugal, vê-se que a maré voltou a encher. Entendemos este pretexto que a Caixa nos dá como uma oportunidade de usar a Caixa como farol do sector e voltar a introduzir elementos que premeiam o esforço, a dedicação, a aquisição de competências e que devem ser valorizados. Querer usar o ponto mais baixo, para nós é irrepetível.

Faz sentido para si, que negoceia sobretudo com a banca privada, o objectivo assumido pela Caixa de aproximar o AE do resto do sector, até pelos compromissos assumidos com Bruxelas? 
Em termos teóricos não faz sentido nenhum. Conceptualmente para nós a Caixa era um instrumento de coesão nacional. O nosso modelo de um banco como a Caixa é um banco que estando presente nos municípios do interior, uma parte substancial das poupanças que capta nesses municípios aplica em investimentos e oportunidades nessas zonas periféricas. O que não faz sentido é replicar o modelo de um banco comercial, aplicando as poupanças dessas zonas em dívida de grandes empresas internacionais.

Mas a gestão da Caixa cita essa aproximação aos privados como argumento para denunciar o AE. 
Mas o pecado original não é da administração da Caixa, que acabou de chegar. A administração tem uma carta de missão, compromissos negociados com Bruxelas cujos contornos são opacos porque não são públicos, laboriosamente negociado longe do escrutínio público que na prática aproxima a Caixa de um banco privado, exige-lhe uma presença geográfica muito mais reduzida, redução de balcões, de capacidade, de pessoas, porque lhe exige rácios de eficiência típicos de quem quer estar cotado em bolsa.

Um dos argumentos da Caixa é que o novo AE mais ágil permitirá atrair mais talentos e mais jovens? 
Uma das figuras clássicas da integração de jovens na banca é a de um estágio. A Caixa elimina-a. Para nós faz sentido que continue a haver estágios. Se a vontade é atrair quadros parece-me estranho que a Caixa elimine essa possibilidade.

Mas com o actual AE, a Caixa atrai mais facilmente jovens? 
As empresas portuguesas conseguem ser atractivas para um jovem recém-licenciado, bi ou trilingue, altamente qualificado? Essa é a questão chave. Mas não me parece que a Caixa tenha problemas de atractividade relativa em Portugal.

Porque é que acha que a gestão da Caixa quer acabar com as anuidades 
Parece-me que é uma tentativa de chatear. Na banca, quando alguém muda de banco, leva know how proprietário e conhecimento de cliente. Por isso, existe um mecanismo para compensar a fidelidade das pessoas à instituição, uma vez que as empresas bancárias investem no desenvolvimento profissional dos trabalhadores. Do ponto de vista material, isto não tem expressão nenhuma para a Caixa. Para os trabalhadores, materialmente tem alguma importância. Por que raio quer a Caixa acabar com isto?

O fim da contratualização da saúde também é exemplo do que descreve 
Isso é algo mais bizarro. O estatuto de trabalhador da CGD prevê a existência de serviços sociais. Na proposta de contrato colectivo a natureza dos serviços sociais não está explícita, há vagas referências, mas carece de regulamentação. Na prática, o ACT e o AE são sítios onde se detalhava e regulamentava estes princípios gerais. Para nosso espanto, para quem se quer aproximar do sector, a proposta que nós recebemos não faz qualquer menção à assistência médico social, que é um dos pilares da carreira bancária. Nenhum banco até hoje tinha tido o atrevimento de retirar a menção da assistência médico social de um ACT. Isso para nós é profundamente bizarro e lutaremos até ao fim.

O argumento da administração é que os serviços sociais estão na lei orgânica. 
As leis orgânicas mudam-se por decisão ministerial. Os instrumentos de contratação colectiva de trabalho são matérias entre duas partes. Os trabalhadores estão muito mais salvaguardados se puderem ser partes desse contrato.

Para si, o SAMS (Serviços de Assistência Médico Social) tem de estar no AE, mas os serviços sociais não? 
O que tem de estar no AE é o que estava, que é a contratualização da assistência na saúde. E além disso tem de haver um direito de opção, que hoje não existe, entre um sistema privativo da Caixa e um sistema que não seja privativo, que os restantes bancários usufruem [SAMS]. Esta transição que a administração procura fazer entre 'funcionários públicos não, bancários sim', deve envolver a liberdade de escolha. A médio prazo, um sistema privativo, numa população com tendência ao envelhecimento, é a receita de desastre. Numa altura em que a Caixa está comprimida e com menos capacidade de ser generosa para serviços privativos e eventualmente ineficientes, faria todo o sentido que os trabalhadores tivessem liberdade de escolha.

É difícil justificar aos seus associados dos outros bancos a existência deste sistema privativo? 
Se os trabalhadores da Caixa conseguiram ter alguns benefícios, isso para nós serve como estímulo para procurar o nível geral. O que a administração da Caixa quer é retirar esses acréscimos de benefícios e pô-los muito abaixo do sector. Nós achamos que os trabalhadores da Caixa não devem ter menos direitos que os seus congéneres da banca

Não devem ter menos, mas podem ter mais direitos? 
Se nós dizemos que a Caixa deve ser um instrumento de coesão nacional e isso pode implicar balcões e trabalhadores em zonas especialmente vocacionadas para servir franjas populacionais menos letradas, há uma noção de missão que tem de ser recompensada.

Sobre esse tema, a gestão propõe mudar trabalhadores entre distritos contíguos. 
Nós achamos que o que deve estar é concelho e concelho contíguo. A partir daqui tem de ser objecto de negociação e compensação. Pode um dia ser tentador forçar a mobilidade geográfica como condição sine qua non. Não faz sentido que a Caixa seja tentada a fazer iniciativas deste género.

Quais são as vossas linhas vermelhas na negociação? 
Uma delas é a terminação da antiguidade. A Caixa não prevê contar a antiguidade que tenha vindo de outra instituição de crédito. Achamos que é uma aberração, porque todas as restantes instituições têm um mecanismo de reconhecimento mútuo de antiguidade, que é uma das formas de facilitar a mobilidade sectorial e para nós a mobilidade é um valor de valorização. A proposta da administração também não reconhece a antiguidade entre as empresas do grupo. Outra linha vermelha é a cláusula de garantia de funções, a Caixa quer garantir a actividade para qual os trabalhadores foram contratados e nós achamos que deve ser mais lato, não a actividade mas a categoria profissional. Imagine que alguém foi contratado para funções de caixa, fez a evolução e chegou a gerente. Não faz sentido é que fechando aquele balcão, a pessoa tenha de voltar a caixa, júnior ou a paquete ou a estagiário. Também queremos manter o prémio de antiguidade para os actuais trabalhadores e para as novas admissões fazer como o ACT, isto é, um prémio de final de carreira.

O que aceita da administração? 
Aceitamos que haja maior ênfase na meritocracia e nas promoções por mérito e isso possa ser a pedra nas novas carreiras e nos novos bancários.

Parece-lhe que isto é uma privatização das relações laborais? 
É uma pergunta que tem de fazer ao dr. Paulo Moita de Macedo. Parece-me que é no mínimo desastrada, descuidada e inoportuna a forma e o conteúdo do que foi feita. É no tempo errado com uma argumentação de uma fragilidade económica chocante. E que não honra a Caixa nem a memória de quem a dirigiu até agora. No mínimo é chocante receber em 2018 uma fundamentação económica de 2015.