segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Para onde olhar nos mercados na manhã do pós-referendo em Itália?

Pedro Crisóstomo
4 de Dezembro de 2016, 20:30


À incerteza política soma-se a incerteza nos mercados. Investidores já "descontaram" algum efeito negativo e ficam atentos às ondas de choque nos bancos.

Mercados europeus fecharam em baixa na sexta-feira
Agitação, indiferença ou tranquilidade? Quando os mercados abrirem na Europa na manhã desta segunda-feira, já as bolsas asiáticas terão dado um primeiro sinal sobre o que aconteceu na véspera, no referendo constitucional italiano. Um acontecimento de grande incerteza política até ao fim e cujas consequências para a Europa merecem a maior das atenções dos investidores – muito para além das fronteiras europeias.

Bolsas, as acções dos bancos, os juros da dívida pública dos países mais frágeis da zona euro, a variação da moeda única – eis onde os resultados das duas votações poderão ter um impacto mais evidente logo às primeiras horas da manhã.

Num ano em que os investidores reagiram a dois grandes acontecimentos inesperados sem o negativismo com que muitos analistas antecipavam – primeiro com o “Bexit” em Junho, depois com a eleição de Donald Trump em Novembro –, fazer prognósticos sobre o que acontecerá nesta segunda-feira, nos próximos dias e semanas é tudo menos certo. Percorramos, antes, alguns dos indicadores para onde olhar.

Acções dos bancos italianos
O acontecimento que, com maior magnitude, pode trazer maior agitação aos mercados financeiros é o resultado do referendo constitucional em Itália. Tudo por causa da situação frágil da banca italiana e do medo de que uma crise política venha a desestabilizar ainda mais o sistema financeiro.

Num cenário de vitória do “não”, seria de esperar mais nervosismo. Mas, independentemente do resultado, o foco de preocupação está sobretudo em dois bancos que se preparam para avançar com aumentos de capital – o Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo e o terceiro maior de Itália, precisa de 5000 milhões de euros; e o Unicredit, o primeiro banco do país, vai revelar o plano de reestruturação a 13 de Dezembro. A evolução das acções destes dois bancos na bolsa italiana será um dos gráficos a ter em atenção. Só na sexta-feira, os títulos do Monte dei Paschi di Siena recuaram 5,1%.

Bancos nas bolsas europeias

Se a situação particular dos bancos italianos está no centro das atenções, não menos importante será a forma como reagirá, como um todo, o sector financeiro na Europa, primeiro, e depois nos Estados Unidos. No Velho Continente, o sector bancário já liderou as perdas nas principais praças. Na sexta-feira, o índice STOXX Europe 600 Banks encerrou a perder 1,3%. A par da banca italiana, também a situação do sistema financeiro português tem sido referida pelas instituições internacionais pelas suas debilidades. E, mais uma vez, se houver ondas de choque, as acções dos bancos cotados no PSI-20 poderão ressentir-se.

Dívida italiana
Os juros da dívida italiana a dez anos têm vindo a subir com a aproximação do referendo e a diferença a alargar-se em relação à dívida alemã, referência nos mercados, tendo o spread ficado no valor mais alto desde Junho de 2015. Quanto maior a incerteza, maior é a probabilidade de subida dos juros, que nos últimos dias superaram os 2% – um valor mais alto do que as taxas espanholas.

Uma subida nos juros no mercado secundário (revenda de títulos detidos pelos investidores) pressiona o custo de financiamento do Estado e também cria mais agitação que não ajudaria à estabilização do sector bancário. Ainda assim, analistas admitem que, ao assistir-se a uma subida antes do referendo, os investidores já estejam a “descontar” em parte uma possível vitória do "não", como nota uma recente análise de mercado do BPI.

Dívida portuguesa (e de outros periféricos)

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O comportamento dos mercados financeiros será também determinante para a trajectória dos juros da dívida dos países mais frágeis da zona euro. Num cenário de maior agitação, os juros da dívida portuguesa ficariam potencialmente mais altos num momento em que as taxas têm subido e estão nos 3,6% (e a agência de notação financeira DBRS, a única considerada pelo BCE e que tem o rating português acima do nível “lixo”, está atenta).

Ouro e euro
Quando a instabilidade aumenta, é comum os investidores fugirem para activos considerados seguros, como é o caso do ouro. Mas com a expectativa de subida das taxas de juro de referência nos Estados Unidos e a subida do dólar a que se tem assistido, a cotação do ouro tem perdido força. A forma como os mercados “acordarem” na manhã desta segunda-feira será também importante para perceber se a fraqueza do euro em relação ao dólar continua.

Matteo Renzi demite-se após derrota no referendo

Sofia Lorena
4 de Dezembro de 2016, 23:27

O primeiro-ministro italiano defende que "quando se perde, não se finge que não aconteceu nada".

"Acredito na democracia. Por isso, quando se perde, não se finge que não aconteceu nada", disse Matteo Renzi, falando em directo aos italianos a partir do palácio do Governo.

"Demos aos italianos uma oportunidade de mudança. Era uma oportunidade simples e clara", defendeu, falando sobre a reforma constitucional chumbada este domingo em referendo. "Mas não conseguimos obter a confiança dos nossos compatriotas. Todas as responsabilidades são minhas. Perdi eu."

Renzi anunciara que se demitiria caso estas mudanças à Constituição - que alteravam essencialmente os poderes das duas câmaras do Parlamento, diminuindo os do Senado e reforçando os da Câmara dos Deputados, assim como o executivo - não fossem aprovadas. "O meu Governo termina hoje e eu demito-me."

"Eu perdi", repetiu o líder do Partido Democrático, de centro-esquerda, quando eram 00h30 em Itália, hora e meia depois do encerramento das urnas. "Na política italiana nunca ninguém perde. Depois de uma eleição, pode ganhar-se ou não, mas nunca ninguém assume ter perdido." Pois Renzi diz querer ser diferente, num discurso em que não fechou a porta a um regresso.

"Chegará o dia em que voltaremos a festejar uma vitória. E nesse dia, vamos recordar as lágrimas", continuou o político de 41 anos, um líder jovem num país onde os políticos costumam manter-se no activo até uma idade bastante avançada. Silvio Berlusconi, por exemplo, que acaba de anunciar o "regresso pleno" à liderança do seu partido, a Força Itália, tem 80 anos.

Quando estavam escrutinadas 51,100 das 63,100 secções de voto, o "não" tinha 59,6% (15,5 milhões de votos), enquanto o "sim" reunia 40,4% (perto de 10,5 milhões de votos).

Numa intervenção em que explicou que segunda-feira vai apresentar a sua demissão ao Presidente, Sergio Mattarella, Renzi defendeu ainda os seus menos de três anos de governação. E disse-se orgulhoso de Itália, "o país mais belo do mundo".

Criticou ainda a oposição, que fez toda campanha pelo "não". "Fazer política contra alguém é muito fácil, fazer política por qualquer coisa é mais bonito."

O chefe de Estado vai aceitar a demissão de Renzi e em seguida consultar os partidos com grupo parlamentar, onde se inclui o Movimento 5 Estrelas, o partido anti-partidos de Beppe Grillo, que já controla câmaras como as de Roma e morde os calcanhares do Partido Democrático, de Renzi, nas sondagens.

Conhece-se a vontade de Mattarella e do PD, e sabe-se que o Força Itália irá com grande probabilidade aceitar essa solução: um governo técnico para assegurar a liderança até 2018, quando está prevista a realização de legislativas. No mandato desse governo vai incluir-se o encargo de elaborar uma nova lei eleitoral - a actual, em vigor desde Julho, está prestes a ser considerada ilegal pelo Tribunal Constitucional.
Quem se segue?

Se a derrota tivesse sido menos significativa, ou a participação tivesse sido baixa (foi de 68%), Mattarella podia reconduzir Renzi. Assim, os nomes mais referidos são o do ministro das Finanças, Pier Carlo Padoan, e o do presidente do Senado, Pietro Grasso, ex-magistrado anti-corrupção. Padoan é um economista que já foi director do Fundo Monetário Internacional para a Itália.
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Recorde-se que esta solução não é inédita. Há cinco anos, Berlusconi era afastado sem eleições e substituído por Mario Monti, economista e ex-comissário europeu, à frente de um governo de tecnocratas.

Renzi, aliás, também não chegou ao poder em eleições, mas através de um voto no interior do partido, em que retirou a confiança ao então primeiro-ministro, Enrico Letta, em Fevereiro de 2014, um ano depois das últimas legislativas.

Na abertura dos mercados asiáticos, o euro caía para 1,0506 dólares, o valor mais baixo em 20 meses ou desde Março de 2015 (quando esteve nos 1,0458). Na sexta-feira, Padoan tentou acalmar os mercados garantindo que “não há risco de terramoto financeiro” e antecipando em caso de vitória do “não” “umas 48 horas de turbulência”.
 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Extrema-direita derrotada nas presidenciais austríacas

MARIA JOÃO GUIMARÃES
4 de Dezembro de 2016, 16:21

O ecologista Alexander Van der Bellen está à frente com 53,6% contra 46,4% de Norbert Hofer, da extrema-direita.

O candidato ecologista Alexander Van der Bellen venceu as presidenciais austríacas, segundo os primeiros resultados, derrotando Nobert Hofer, do Partido da Liberdade, de extrema-direita. O partido derrotado já deu os parabéns ao vencedor e responsáveis das empresas de sondagens dizem que já será impossível reverter o resultado.

Destas eleições sairá assim o primeiro Presidente de um partido ecologista na União Europeia, quando se temia que o resultado fosse o primeiro Presidente de extrema-direita num país europeu depois da II Guerra Mundial, caso vencesse Hofer. 

As presidenciais, cuja segunda volta se repetiu hoje depois de uma quase novela de irregularidades, adiamentos e finalmente repetições por problemas como atrasos na contagem de votos ou falta de cola em boletins dos votos por correspondência, foram completamente atípicas: a primeira volta terminou com o afastamento dos candidatos dos dois principais partidos, os conservadores e sociais-democratas. O Presidente anterior, o social-democrata Heinz Fischer, foi eleito com 79% dos votos em 2010. Desta vez, ambos os candidatos apareciam com cerca de 50% nas sondagens e na segunda volta, declarada nula pelo Tribunal Constitucional por pequenas irregularidades nos votos por correspondência.

Desta vez, depois da votação de Maio, passaram à segunda volta os candidatos dos partidos vistos como das franjas, a extrema-direita e os Verdes. Na verdade, a etiqueta de franja é mais difícil de colar neste momento ao Partido da Liberdade (FPÖ), que já participou no Governo em 2000-2005 sob a liderança da Jörg Haider (que morreu num acidente de automóvel em 2008, já depois de ter deixado o partido), e está à frente nas sondagens para as próximas legislativas (que não têm data marcada mas terão de se realizar antes de 2018).

Mas é definitivamente o caso dos Verdes, que nas últimas legislativas obtiveram 12,5% dos votos e ficaram em quarto lugar e antes disso foram um partido de menos de 10%. 

Esta eleição, após a vitória do populista Donald Trump nos Estados Unidos e do voto dos britânicos para sair da União Europeia, deixou muitos na Europa a temer as consequências da vitória de um candidato de um partido anti-sistema para um dos mais altos cargos de um país da UE. Hofer começou por propor um referendo à permanência da Áustria na União Europeia mas recuou na ideia, já Van der Bellen é um europeísta convicto.

Se Hofer vencer, isso não transforma a Áustria num país de extremistas

MARIA JOÃO GUIMARÃES
4 de Dezembro de 2016, 6:28

O director da revista austríaca Datum, Stefan Apfl, diz que o país entrará em território desconhecido se o candidato do FPÖ (partido da LIberdade, extrema-direita) vencer.
O director da revista austríaca Datum, Stefan Apfl, avisa, numa entrevista telefónica com o PÚBLICO, para o risco de se julgar o país por uma escolha, seja esta eleitoral ou de um concurso Eurovisão.

Quão forte é o poder de um Presidente na Áustria?

Há dois planos, o prático e o teórico. Na prática, o Presidente tem um papel simbólico e representantivo, como instância moral para dentro e como o mais alto embaixador para fora. No plano teórico, a Constituição dá-lhe muito mais poder do que os presidentes têm usado. O Presidente pode, a qualquer altura, demitir o Executivo. Neste contexto houve nos últimos meses, pela primeira vez, uma discussão sobre os poderes teóricos do Presidente e se estes deveriam ser reduzidos.

O que poderá acontecer com um Presidente Hofer?

A frase mais popular da campanha foi “vocês vão admirar-se com tudo o que vai ser possível”. E 2016 já foi um ano em que nos admirámos com tudo o que foi possível, do “Brexit” a Trump. Com um Presidente Hofer estaríamos em território desconhecido. Seria a primeira vez desde a II Guerra Mundial que um nacionalista de direita teria um cargo de liderança no Estado. Nem tudo o que se diz na campanha se transpõe mais tarde para a realidade, mas é de facto difícil fazer um prognóstico sobre o que poderia um Presidente Hofer fazer. Os seus apoiantes esperam uma mudança de sistema, mas não é claro como; os seus opositores temem cenários horríveis em que tudo seria possível. Creio que não é possível neste momento dar a esta pergunta uma resposta séria.

Quais as diferenças entre a situação de hoje e os anos 1990, quando o partido então liderado por Haider foi o segundo mais votado nas legislativas?

Jörg Haider chegou ao poder através de eleições, em 1999, com o FPÖ, que foi o primeiro partido de extrema-direita a obter 27% dos votos, entrando numa coligação de Governo. Isso foi na altura algo de novo. A Europa reagiu com choque, impondo sanções. Desde então, muitos outros conseguiram o mesmo de uma forma ou de outra, veja-se a Holanda ou a Polónia. Quando isto acontece pela décima vez, há uma normalização do inimaginável, nomeadamente de forças da direita anti-sistema e por vezes anti-semita a chegarem ao poder. Hofer não será o último.

Quais as razões para este fenómeno num país com uma situação económica boa, um desemprego baixo, poucos conflitos sociais?

Na Áustria há a sensação de que as coisas não estão melhores. O desemprego é baixo, mas é mais alto do que no passado. Os conflitos sociais são muito raros, mas maiores do que no passado. Algo mudou profundamente nos últimos cinco, dez anos. Havia a promessa de que a geração seguinte estaria melhor do que a anterior. Isso deixou de existir após a crise financeira [de 2008].

O que tem faltado na visão de fora sobre a Áustria?

O que define um país, uma sociedade, é muito complexo, há muitos critérios que se podem seguir. Uma eleição pode ser um, mas é muito limitado.

Se Alexander Van der Bellen ganhasse esta eleição, provavelmente dir-se-ia no estrangeiro: a Áustria tem um Presidente dos Verdes, é um país aberto ao mundo, liberal, a olhar com esperança para o futuro, mesmo se ele ganhar com apenas 51%. Se Norbert Hofer vencer com 51%, dir-se-á no estrangeiro que a Áustria é um país de extrema-direita, que quer sair do consenso europeu e tomar uma via isolacionista. Ambas não são verdade. Um exemplo: Conchita Wurst. Depois de ter vencido a Eurovisão [na Áustria, em 2014], a Áustria começou a ser vista lá fora como um país extremamente liberal, pioneiro na defesa dos direitos dos homossexuais e transgénero. Mas também isto é apenas em parte verdade: ao mesmo tempo, a Áustria é um país muito conservador e homofóbico.

Ganhe ou não a eleição, a extrema-direita já fez danos na democracia austríaca

MARIA JOÃO GUIMARÃES
4 de Dezembro de 2016, 6:03


"Racionalidade em vez de extremo", apela o cartaz de Van
der Bellen.  "Com Coração e alma pela Áustria", diz o do
seu rival Hofer 
Hofer pode vencer a presidência e o FPÖ vai à frente nas sondagens para as legislativas. 

O que acontecer neste país de bem-estar e sem problemas sociais relevantes, terá consequências em toda a Europa, avisa o escritor Robert Menasse.

O candidato do partido de extrema-direita, Norbert Hofer, disse que se vencesse as eleições as pessoas seriam surpreendidas com as coisas que serão possíveis na sua presidência. O comentário não passou despercebido num país em que o poder do Presidente existe no papel, mas onde todos têm abdicado de o usar.

Na Áustria, o Presidente pode demitir o Governo e dissolver o Parlamento, forçando eleições legislativas. Este será o seu mais importante poder (há outros, como poder vetar ministros ou governar por decretos de emergência num período até quatro semanas) e tem sido referido na campanha para as presidenciais, cuja segunda volta se repete este domingo.

Se Hofer for eleito, e decidir usar essas prerrogativas logo a seguir a ser eleito, a Áustria poderá não só ter um Presidente de extrema-direita, como um chefe de Governo também. O Partido da Liberdade (FPÖ) é neste momento o partido à frente nas sondagens para as legislativas que têm de ser realizadas antes do final de 2018, com mais de 30% das intenções de voto, seguido dos dois clássicos grandes partidos austríacos (os conservadores do ÖVP/Partido do Povo e os sociais-democratas do SPÖ), cada um na casa dos 20%.

O chanceler social-democrata Werner Faymann demitiu-se em Maio, na sequência da derrota do SPÖ na primeira volta das presidenciais, mas ambas as formações na grande coligação de Governo recusaram uma antecipação das eleições. Haveria razões para agora a defender.

Esta votação presidencial é o culminar de vários inéditos: na primeira volta, em Abril, os candidatos dos dois grandes partidos austríacos foram afastados, deixando em confronto na segunda volta o candidato do Partido da Liberdade (FPÖ) Norbert Hofer (45 anos), e o candidato independente apoiado pelos Verdes, Alexander Van der Bellen (72 anos); um representante de um partido que andou quase sempre abaixo dos 10% de votos, e outro que se apresenta como um partido anti-sistema (mas que já participou no Governo em 2000-2005).

Na segunda volta, em Maio, Van der Bellen venceu Hofer por uma pequena margem, mas o derrotado desafiou legalmente o resultado. Apesar das irregularidades serem pequenas e apenas nos votos por correspondência (por exemplo, o início da contagem, em alguns locais, foi antes ou depois do previsto), o Tribunal Constitucional decidiu anular os resultados e repetir as eleições. As sondagens dão agora um empate técnico entre os dois candidatos.

O escritor de esquerda Robert Menasse afirmou que o FPÖ conseguiu “destruir a democracia” com o seu desafio ao resultado, levando as autoridades, por não quererem deixar qualquer sombra de dúvida sobre o processo, a mandar repetir uma eleição por irregularidades que não tiveram relevância para o resultado. Quando muitos se questionam sobre o grau de ameaça à democracia caso o partido "anti-sistema" vença, Menasse diz que o dano já foi feito. “Na verdade, o FPÖ não suportou perder”, declarou o escritor.

No diário liberal Der Standard, o colunista Hans Raucher assegura que “se o FPÖ tomar o poder, a Áustria não será reconhecível”. O ex-Presidente da Áustria Heinz Fischer (social-democrata, a quem sucederá o vencedor), avisava em entrevista ao francês Le Monde que “a democracia não é indestrutível”. Mas Menasse acrescenta que as consequências “não se sentirão só na pequena República da Áustria, mas em toda a Europa”.

O papel dos refugiados

A subida da extrema-direita na Áustria, país de bem-estar e sem problemas sociais relevantes, tem sido ligada à crise dos refugiados. Este foi um factor, não pela sua mera existência, mas pelo modo como o Governo reagiu. O professor de política da Universidade de Princeton (EUA), Jan-Werner Müller, explica com dois exemplos. O chanceler social-democrata Werner Faymann, que chegou a ser o maior aliado da sua homóloga alemã Angela Merkel na ideia de receber refugiados, deu uma reviravolta total e acabou a fechar fronteiras. O resultado foi que perdeu popularidade e demitiu-se. Nas eleições para a câmara de Viena, o autarca, outro social-democrata, Michael Häupl, manteve a sua posição fortemente pró-refugiados e, apesar de ser já pouco popular, e de as sondagens darem a vitória à extrema-direita, venceu as eleições locais de Outubro do ano passado contra todas as expectativas.

A “crise dos refugiados” tem sido no máximo um catalisador, argumenta o especialista em extrema-direita Cas Mudde, lembrando que a subida para primeiro lugar do FPÖ nas sondagens aconteceu em 2014, “muito antes de os refugiados serem vistos como uma ‘crise’ na Europa”.

Mudde fala do “comportamento oportunista e incompetente” dos dois grandes partidos, primeiro na reviravolta do Governo na questão dos refugiados, segundo por não terem apoiado oficialmente o candidato ecologista contra Hofer. 

A extrema-direita, que começou a ganhar expressão quando liderada pelo populista e exuberante Jörg Haider (que morreu em 2008, três anos depois de ter deixado o FPÖ e fundado um novo partido), aproveitou o domínio dos dois partidos para se apresentar como uma alternativa. O facto de os conservadores e sociais-democratas praticamente terem dividido país entre os dois, dominando o Governo em grandes coligações ou usando as grandes maiorias parlamentares para aprovar leis que poderiam ir contra a Constituição, deixando grande parte da definição de políticas públicas a cargo da negociação de parceiros sociais e mantendo o Parlamento como uma câmara de confirmação de propostas legislativas e não da sua elaboração, criou espaço para que surgisse alguém a capitalizar a ideia de ser uma oposição real. Junte-se a isto os mais convenientes dos bodes expiatórios – Bruxelas, estrangeiros – para permitir sucesso.

Sobrevivente do Holocausto entra na campanha

Mas isto não explica como podem ser aceites ideias tão próximas das que vigoraram durante o período nazi, embora o flirt com o anti-semitismo que vigorava no tempo de Haider tenha diminuído – o FPÖ aproximou-se de Israel e tornou-se sobretudo anti-sistema e anti-islão.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Bruxelas está "em contacto" com Lisboa sobre CGD

BANCA & FINANÇAS
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt
17 de Novembro de 2016 às 08:00
A Comissão Europeia não se quer comprometer com respostas sobre a Caixa Geral de Depósitos. Bruxelas admite, contudo, que está em contacto com as autoridades nacionais mas não responde se há atrasos na capitalização.

"Estamos em contacto com as autoridades portuguesas". 
É assim que o gabinete de imprensa da Comissão Europeia respondeu esta quarta-feira, 16 de Novembro, a questões do Negócios sobre a Caixa Geral de Depósitos.

Foi a Direcção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia que aceitou a capitalização do banco público, num total de 5.160 milhões de euros, em Agosto passado.

No entanto, Bruxelas não quis dizer se considerava que o processo, que será feito em várias fases e com dinheiros públicos mas também com injecção de privados na compra de obrigações, está atrasado.

Da mesma forma, o executivo comunitário também não comentou eventuais preocupações em relação à actual situação da administração do banco, referindo apenas o contacto que mantém com Portugal. 

Neste momento, continua em dúvida a continuidade de parte ou de toda a equipa de administração liderada por António Domingues devido à polémica em torno da não entrega da declaração de rendimentos no Tribunal Constitucional.

Ao Negócios, a comissão de trabalhadores da Caixa já disse que a prioridade não é a discussão dos salários da administração mas sim a capitalização. 

O primeiro-ministro António Costa também já afirmou que, seja qual for a administração, o que interessa é capitalizar o banco: 
"A estabilidade da CGD é assegurada pelo plano de capitalização, que foi apresentado, aprovado pela Comissão Europeia e que tem condições de ser executado quer pelo Estado, quer pelo mercado".

Marcelo sobre CGD: "Agora é esperar a execução. É tão óbvio e tão simples como verão"

BANCA & FINANÇAS
Sara Antunes saraantunes@negocios.pt
18 de Novembro de 2016 às 12:21
O Presidente da República rejeitou fazer mais declarações sobre a Caixa Geral de Depósitos (CGD), sublinhando que agora é "esperar pela execução" do que já foi decidido. "É tão óbvio e tão simples como verão", salientou.
Marcelo Rebelo de Sousa recusou fazer mais declarações sobre o caso das declarações de rendimentos da administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD), considerando que as decisões que tinham de ser tomadas já o foram e agora é uma questão de tempo.

"Não tenho nada a dizer. 
O que era para ser decidido já foi. 
Agora é esperar a execução", afirmou aos jornalistas, numa declaração que foi transmitida pela RTP3.

"É só esperar a execução", sublinhou, acrescentando: "É tão óbvio e tão simples como verão."

As declarações do Presidente da República foram feitas numa altura em que os administradores da CGD ainda não apresentaram as suas declarações de rendimentos no Tribunal Constitucional e no dia em que o ministro das Finanças, Mário Centeno, anunciou no Parlamento que a recapitalização da Caixa só será feita em 2017.

Na quinta-feira à noite, António Lobo Xavier tinha já admitido esta possibilidade, considerando que a forma como o Governo está a conduzir este processo leva a questionar se está efectivamente com pressa para o fazer, precisamente para que o impacto da recapitalização do banco estatal não ocorra este ano.