sexta-feira, 17 de agosto de 2018

“Para metade do povo Erdogan é um profeta, para a outra metade é um filho da mãe”. Como os turcos estão a viver a crise da moeda /premium

TURQUIA
Mariana Béu    17 Agosto 2018










A lira turca tem desvalorizado para níveis históricos e as pessoas já sentem os efeitos. 
Há o medo do futuro mas também o medo de falar do presente. 
Reportagem em Istambul, a maior cidade da Turquia.

“A vida é muito bonita para estar agarrada ao telemóvel”, atira Kareem, um turco de barba farta e olhos escuros, rasgados, instalado à porta da sua loja de jóias, a Robi Diamond, no número 4 do Grand Bazaar — o principal pulmão comercial de Istambul. 
Ainda atordoada pela abordagem, lá lhe explico que sou jornalista, que viajei para a Turquia a propósito do jogo do Benfica com o Fenerbahçe e que estava, na realidade, a tirar notas para uma reportagem. 
O sorriso, aquele sorriso que nunca desmaia mas que também não é postiço, abriu-se ainda mais no rosto de Kareem. 
“Ah, é jornalista! 
Gosto muito de jornalistas! Mas porque é que vocês não contam a verdade?“.

Devolvo-lhe a provocação. 
“Muitas vezes, porque as pessoas não nos contam a verdade”. 
Estavam ainda frescas na minha memória as conversas que acabara de ter com outros quatro turcos como Kareem, a propósito do momento delicado que vive a Turquia — em plena guerra diplomática com os Estados Unidos. 
A moeda do país, a lira turca, tem estado a desvalorizar para níveis históricos nos últimos dias: 15% face ao dólar na passada sexta-feira — na sequência do anúncio de Donald Trump de que iria duplicar as taxas alfandegárias sobre a importação de aço e alumínio da Turquia —, mais 8% na segunda seguinte, num total de 30% só no último mês.

Voltando às conversas com os turcos e às provocações de Kareem: muitas vezes, a vontade de “contar a verdade” esbarra no seu encobrimento por parte de quem a vive. 
E neste caso não foi exceção. 
Os turcos entrevistados pelo Observador foram unânimes em reconhecer o medo que sentem perante o momento do país, mas na hora H — a hora de colar a história aos seus responsáveis, a hora, por exemplo, de opinar sobre a presidência de Recep Tayyip Erdogan —, as palavras dão lugar a sorrisos nervosos, a despedidas apressadas, a um desejo secreto de que se compreenda nas entrelinhas o que querem dizer, mas que sentem não poder.

É o caso de Toni Arslan, dono da Aslan Jewellery, no número 34 do Grand Bazaar. 
As bandeiras brasileiras na montra não enganam: Toni é meio turco, meio brasileiro. 
Nasceu no país sul-americano, mas mudou-se há 40 anos, ainda criança, para Istambul, quando os pais resolveram regressar à terra natal. 
Qualifica de “inacreditável” a desvalorização da moeda nos últimos tempos e assegura que os turcos “estão muito preocupados com o futuro”.
























Toni Arslan, dono do número 34 do Grand Bazaar, garante que os turcos estão muito preocupados com o futuro.

O negócio, diz, já sofreu efeitos: “O ouro é negociado em dólares, então para mim é a mesma coisa. 
Mas quando transformo o preço em liras, fica muito caro, por isso não consigo vender a turcos. 
Nas duas últimas semanas o movimento caiu muito entre os turcos”, explica o comerciante que, quando se põe no papel de consumidor, também sente dificuldades. 
“Os preços ainda não dispararam, mas já começaram a subir, sobretudo a gasolina, o gás e a eletricidade”. 
É chegada a hora de fazer a pergunta incómoda: de quem é a culpa disto? 
“De quem é a culpa?”, confirma Toni, procurando atrasar a resposta alguns segundos, para medir bem as palavras. 
Não se atreve: “Não dá para responder… pensa tu e escreve”, diz com um sorriso nervoso e um encolher de ombros que é quase um pedido de desculpa.

Algumas portas ao lado, Huseyin, repete o mesmo método, mas com uma nuance: na hora do aperto, empurra a batata quente para o amigo Mesut — “que percebe muito de política“. Antes disso, ainda reconhece estar “com medo do futuro”, assegura que o presidente Erdogan não tem estado bem no conflito diplomático com os Estados Unidos, mas que Trump também não e ainda esclarece que a popularidade do presidente está muito dividida: de um lado os mais radicais, que o apoiam devotamente, do outro aqueles que lhe atribuem a culpa pela situação do país.

Mas não toma partido. 
À medida que vou fazendo perguntas, o desconforto torna-se evidente e vai afrouxando o sorriso de Huseyin. 
É altura de chamar Mesut, que está do outro lado da rua principal do Grand Bazaar — onde trabalha desde os 11 anos no negócio de família, a loja de doces turcos Ramazan Canbaz. Lá vem ele, de ar gingão, vestido de polo amarelo e calças de ganga, como se de um ocidental se tratasse.

As perguntas esbarram em mais uma muralha. 
Desta vez, a saída é o galanteio — apurado ao longo dos anos de experiência num país em que a arte de vender é encarada como um exercício constante de charme (que cai, quase sempre, no piropo fácil). 
Mesut é (ainda) mais contido. 
Não responde a rigorosamente nada. 
“Tem sentido o aumento dos preços?”, pergunto-lhe. 
“Não vou falar de política. 
É um assunto que me deixa muito chateado. 
Prefiro ver o seu sorriso”. 
Mais uma tentativa. 
“Mas porquê? 
Tem medo?”. 
“Medo? 
Claro que não! 
Só tenho medo de me apaixonar por si”.

“Estamos em choque. Ninguém sabe o que há-de fazer”
Resolvo desistir e dou de caras com o guia turístico Ahmed (nome fictício, já vai perceber porquê). 
Desta vez, a estratégia é diferente. 
Ahmed fala e muito, mas na altura de comentar mais a fundo os problemas — e de falar, por exemplo, nos investimentos megalómanos do presidente Erdogan — pede que não escreva o seu nome verdadeiro na reportagem. 
“Senão vou preso”, diz, tentando embrulhar a apreensão num sorriso.

Ahmed garante que os turcos estão “em choque”. 
“Ninguém sabe o que há-de fazer. 
Os preços ainda não subiram muito, mas vão subir. 
Sobretudo as mercadorias importadas, que podem aumentar 50%”, sentencia. 
“As pessoas têm menos dinheiro e quem o tem também não compra, porque fica mais prudente. 
Não sabemos o que vai acontecer no dia seguinte”.

Diagnóstico feito, está na altura de esmiuçar a origem do problema. 
E é exatamente aqui que Ahmed pede para que o seu nome não seja divulgado. 
As palavras querem sair, mas o guia turístico joga à defesa: quer assegurar-se de que não há consequências. 
“Estupidamente” — diz –, “a Turquia preferiu crescer com o dinheiro emprestado, porque [no tempo da crise internacional] o crédito tinha um juro baixo”, explica. 
O reverso da medalha é que “esse dinheiro foi usado para betão”. 
“Não se investiu para melhorar as fábricas, para a produção de nada — por exemplo de alta tecnologia. 
Fizemos pontes, passagens subterrâneas, mas não trabalhámos para a nossa independência como país”.

Está claro para Ahmed que a grave crise vem do presidente Erdogan e da utilização que deu aos fundos públicos. 
“É precisa uma mudança?”, pergunto. 
“Com certeza, com certeza”, confirma. 
Mas não como aquela que foi cozinhada na madrugada de 15 de julho de 2016, quando militares do exército turco tentaram um golpe de estado — que acabou fracassado, com o presidente aclamado pelo povo. 
“O golpe militar foi um teatro. 
Foi tudo feito de madrugada, os militares prenderam os políticos às cinco da manhã, o presidente estava de férias fora da cidade, às 9 da manhã bloquearam a passagem da ponte intercontinental… 
Não é assim que se faz”.

O guia turístico garante — como já dissera Huseyin — que as opiniões entre os turcos estão divididas a respeito do presidente. 
“Para metade do povo ele é um profeta, para a outra metade é um filho da mãe. 
Não há meio termo”, assegura. 
É como se o país se dividisse entre os fanáticos religiosos que apoiam o seu líder máximo e aqueles que assistem, com alguma massa crítica, às manobras de reforço do poder levadas a cabo pelo presidente turco, sobretudo no referendo de 16 de abril de 2017, que transformou uma república parlamentar num sistema presidencialista. 
Entre outras mudanças, os deputados deixaram de ter poder de escrutínio e interpelação, o cargo de primeiro-ministro foi abolido, passando o poder a concentrar-se integralmente no presidente, que pode agora, até, nomear juízes do Supremo Tribunal de Justiça do país, quebrando o princípio da separação de poderes.

“Agora tudo depende do presidente“, sintetiza Ahmed. 
“Ele criou um sistema presidencial que nem é bem presidencial, é mais uma monarquia. Basta ele dizer que uma coisa vai ser proibida, que no dia seguinte já é proibida, não é preciso parlamento, não é preciso nada. 
Pagamos um salário muito alto aos deputados, mas eles não têm força. 
Se o presidente diz que vai dividir a Turquia em quatro, ele consegue”, critica. 
“Ninguém o tira do poder, vai ficar lá até morrer…”.

“O turismo pode ser uma saída, mas não podemos usar o dinheiro para coisas estúpidas”























A desvalorização da moeda atrai muitos estrangeiros à Turquia: nos primeiros seis meses do ano, o turismo cresceu 30%. 

Um dos efeitos da desvalorização da lira turca face a outras moedas mais fortes é o aumento do turismo no país. 
Tudo fica mais barato para quem vem de fora. 
É como se, por magia, o dinheiro esticasse e nele coubessem muito mais produtos. 
Ahmed sabe-o melhor do que ninguém. 
“Este ano o turismo tem crescido muito, está tudo muito barato para os outros países. 
Em 2016, o turismo morreu por causa dos atentados terroristas [foram 14 no país, em apenas um ano], em 2017 houve uma recuperação e este ano está muito melhor“, garante o guia.

A perceção de Ahmed bate certo com os números apresentados pelo Ministério da Cultura e do Turismo turco, que avança que, na primeira metade de 2018, houve mais 30% de turistas em relação ao ano anterior. 
Trocado por miúdos, “16 milhões de estrangeiros visitaram o nosso país nos primeiros seis meses do ano”, confirmou aos jornalistas, em junho, o ministro da pasta, Mehmet Ersoy.

Ahmed é comedido. 
“O turismo pode ser uma saída para o país, mas não podemos utilizar o dinheiro para coisas estúpidas, para construir uma grande mesquita ou fazer projetos sem sentido”, opina. 
A pergunta sai disparada deste lado: “Em que é que se deve investir mais?”. 
O guia pega na questão pela base. 
“É preciso investir na educação dos jovens. 
Erdogan insiste para que haja uma educação religiosa, mas não há no mundo um país desenvolvido, como os EUA ou a Suíça, com uma educação religiosa“, remata.

Uma cidade-mundo que mais parece um turbilhão
Contrastes. 
Istambul é uma cidade de contrastes. 
Primeiro, de culturas: há mulheres de burqa, de quem apenas conhecemos os olhos, ao lado de outras, de saia curta e salto alto, exuberantes. 
De cheiros, entre o adocicado das especiarias e o amargo do milho assado que é vendido em carrinhos ambulantes de riscas vermelhas e brancas, um em cada esquina. 
Também de paisagens: os monumentos bizantinos, com as suas imponentes torres pontiagudas e cúpulas arrendondadas estão a escassos metros de avenidas que podiam estar em qualquer metrópole europeia. 

Depois há, claro, o contraste próprio de uma cidade — a única no mundo — que se distribui por dois continentes, o europeu e o asiático. 
Atravessamos o Bósforo pela ponte mais recente, inaugurada há apenas dois anos pelo presidente Erdogan na sua missão assumida de construir uma Turquia moderna. 
É a maior ponte suspensa do mundo, custou 798 milhões de euros e tem uma arquitetura que a um português faz, de imediato, lembrar a lisboeta ponte Vasco da Gama.

Do outro lado, do lado onde a Ásia nasce em Istambul, é como se estivéssemos noutra cidade. 
Noutro mundo. 
Logo à saída da ponte, o casario amontoa-se na encosta, tijolo com tijolo. 
Os prédios têm uma cor gasta. 
Alguns não têm cor de todo. 
São edifícios de dormitório, amorfos, incaracterísticos. 
Mais à frente, há torres espelhadas de dezenas de andares, ao melhor estilo de Hong Kong, que desenham uma paisagem caótica e monocromática. 
Quase ninguém fala outra língua que não turco. 
Não há uma única placa em inglês. 
É a intuição, mais nada, que nos diz que onde está escrito “giriş” é onde devemos entrar num lugar e onde se lê “çikis” é onde devemos sair. 
As mulheres de burca são agora a maioria. 
Os rostos são mais fechados, não há o mesmo charme, a mesma simpatia.

Istambul é uma cidade-mundo, que por vezes parece perdida na sua própria identidade, indecisa entre o cosmopolitismo de uma grande metrópole e a tradição imposta pelo islamismo. 
Como acontece na Mesquita Azul, um dos cartões de visita da cidade. 
Cá fora, há uma fila de torneiras de mármore para se lavar os pés antes da oração. 
As regras para a entrada são rígidas: todos têm de se descalçar (e transportar os sapatos em sacos de plástico distribuídos para o efeito), as mulheres têm de ter a cabeça coberta e as pernas não podem estar à mostra.

Pelo caráter sagrado do lugar e pelo preceito com que se faz a entrada, acreditamos ser ali que desliga o botão do mundo agitado que corre lá fora. 
Puro engano. 
A amálgama de vozes, de línguas, de pessoas que percorrem o chão de alcatifa quase desvirtua o lugar. 
Quase, porque atrás de onde estamos é possível ter um vislumbre das silhuetas curvadas em oração — os homens à frente, na área principal, as mulheres atrás. 
Juntos nunca: “Não é discriminação”, apressa-se a explicar o guia que acompanha a visita. “Deus diz que o homem é um ser muito fraco e não pode ser sujeito a tentações. 
Se uma mulher muito bonita se baixa em frente a um homem, ele pode começar a pensar noutras coisas…”.

Não há forma de se desligar a cidade — Istambul é um turbilhão. 
O trânsito é caótico. 
Não há cá civismos; é o salve-se quem puder
O acidente parece assombrar-se a cada momento, enquanto os carros se esgueiram por espaços impossíveis e desdobram duas faixas de rodagem em três ou quatro. 
Vendedores de água, lenços e até flores espreitam a oportunidade entre o caos e fazem negócio na berma, por entre os carros.

Em cada esquina uma surpresa: ora um homem grita palavras em turco à porta de uma loja, de cartaz vermelho em punho, apelando a quem passa que entre, ora um músico batuca na sua tabla (instrumento de percussão muito usado no oriente) procurando atrair as moedas de um grupo de turistas de máquinas em riste para segurar o momento. 
Junto ao mar, um grupo de homens alheio ao burburinho de carros que lhe passa a escassos metros, refastela-se em cima de pedras escuras, tomando demorados banhos de sol — uns em toalhas, outros em estruturas mais complexas, que se assemelham a tendas.

Quando acreditamos que o ritmo vai, definitivamente, abrandar, eis que somos mais uma vez surpreendidos. 
Às cinco da manhã acontece a primeira oração do dia e a antecedê-la há o chamamento — ou ezan, em turco —, um cântico que mais parece um choro, demorado e doído, amplificado por colunas instaladas no exterior das mesquitas. 
A cidade é mesmo assim, vibrante, caótica, sedutora. 
É por isso que quando Kareem, o turco de barba farta e olhos escuros, rasgados, que nos aborda no Grand Bazaar, pergunta como que por ingenuidade se “podemos ser amigos ou se acho que a Turquia é inimiga”, a resposta só pode ser uma: “É claro que podemos ser amigos”.

O Observador viajou para Istambul a convite da Betclic.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

E agora Erdogan? Até quando pode resistir uma Turquia sem aliados e com que custos /premium

TURQUIA
Nuno André Martins, Nuno Vinha e João de Almeida Dias   13 Agosto 2018
















Com a lira turca a afundar diariamente e uma parte importante da dívida a vencer, Erdogan pode ter de pedir ajuda em breve. 
Numa altura em que os aliados escasseiam, até recorrer ao FMI será difícil.

Quando se candidatou a presidente, Reçep Tayyip Erdogan prometeu uma ‘Nova Turquia’, mais democrática e a caminhar para a entrada na União Europeia. 
Quatro anos depois, com a crescente dívida turca na sua maior parte em dólares e uma moeda que já perdeu quase metade do seu valor desde o início do ano, a economia turca pode ter apenas alguns meses até ter de pedir ajuda. 
Mas Erdogan alienou os aliados que o poderiam salvar.

O Palácio Branco em Ancara só foi inaugurado em 2015, mas já é um símbolo da Turquia. Um edifício imponente com 1.100 quartos, 30 vezes maior que a Casa Branca e quatro vezes maior que o Palácio de Versalhes. 
Para Erdogan, o palácio é um símbolo da ‘Nova Turquia’, da posição que o país deve ter no mundo.

Mas também é um símbolo da economia turca. 
O palácio custou o dobro do previsto, cerca de 600 milhões de dólares, para um presidente que, na altura da sua eleição, era suposto ser essencialmente um mestre-de-cerimónias. Depois de sucessivas mudanças na Constituição, Reçep Tayyip Erdogan conseguiu que o regime turco passasse a ser presidencial, chamou a si o poder executivo, o poder de nomear ministros, juízes e até o governador do banco central.

Com a Constituição aprovada no referendo de 2017 e posta em prática desde as eleições de junho deste ano, Erdoğan e os partidos que o sustentam — o AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) do qual fez parte, e o MHP (Partido da Ação Nacionalista) — passaram a ter nas mãos a quase totalidade dos três pilares do poder: o legislativo, o judiciário e o executivo. 
A oposição, a braços com penas de prisão arbitrárias e uma imprensa cada vez mais hostil, tem hoje um papel meramente decorativo na vida política turca.

Depois de mais de uma década de um modelo económico ancorado na construção, no consumo e na acumulação de défices externos, não só o modelo começou a dar de si, mas também a acumulação de poder de um presidente cada vez mais autocrático — que pode manter-se no poder até depois de 2030, outra das mudanças que conseguiu fazer na Constituição – começaram a deixar os investidores nervosos.

As divergências com a União Europeia, especialmente na questão dos refugiados, fizeram da entrada no bloco uma miragem. 
O conflito com os Estados Unidos por causa da extradição do clérigo turco radicado nos Estados Unidos, Fethullah Gülen, que Erdogan acusa de ser o cérebro por detrás da tentativa de golpe de Estado de 2016 agravou a perceção de que a Turquia estava cada vez mais sozinha. 
No final da semana passada, o nervosismo virou pânico, especialmente depois de Donald Trump ter anunciado que iria duplicar as taxas sobre a importação de alumínio e aço da Turquia.
















A moeda turca desvalorizou 15% num só dia face ao dólar, caindo para o valor mais baixo de sempre, os juros da dívida turca a 10 anos ultrapassaram os 20% (para colocar dívida a dois anos, o Estado turco aceitou pagar uma taxa de juro de quase 25% esta segunda-feira). 
As bolsas europeias e o euro foram arrastados com a instabilidade turca e também fecharam a perder. 
Só o dólar ficou mais forte
Mas os problemas não começaram aí.













Fonte: Bloomberg. Os juros exigidos pelos investidores para comprarem dívida turca a 10 anos aumentaram significativamente desde março.

Um problema a marinar
“Uma crise demora sempre mais tempo a acontecer do que se pensa, mas quando acontece é sempre mais rápido do que se pensa. 
Quando se olha para as bases da economia turca, já se sabe há muito que o modelo económico da Turquia é insustentável. 
É um país que tem défices externos muito grandes e que estão a aumentar numa altura em que as taxas de juro, em particular dos EUA, estão a subir. 
É um país com um défice orçamental crescente, que tem divida externa muito grande e a maior parte é em dólares. 
O que mudou agora foi a situação política, em particular a relação com os Estados Unidos”, explicou ao Observador Jacob Funk Kirkegaard, senior fellow do Peterson Institute for Internatioal Economics.

O especialista diz que, na sua opinião, o que mudou radicalmente a situação foram as palavras de Donald Trump na semana passada, na sequência das quais a lira turca quase duplicou as perdas que vinha a sofrer até então. 
“O que aconteceu na semana passada, a gota d’água, foi Donald Trump ter dito no Twitter que iria duplicar as taxas sobre o alumínio e o aço, e que a relação com a Turquia é má”, disse.

Os problemas com os Estados Unidos vinham de trás. 
Depois da tentativa de golpe de Estado, a Turquia tem vindo a exigir a deportação do clérigo turco para a Turquia, para ser julgado pela sua alegada participação na tentativa de destituir Erdogan. 
Mas os Estados Unidos também prenderam um banqueiro turco, que Erdogan tem tentado libertar. 
Para a troca, num gesto que faz lembrar a Guerra Fria, 
Erdogan tem norte-americanos detidos na Turquia, acusados de terem participado no golpe de Estado.



















O pastor norte-americano Andrew Brunson após sair da prisão na Turquia e a caminho da prisão domiciliária

Andrew Brunson, um pastor norte-americano de 50 anos oriundo da Carolina do Norte, encontra-se atualmente sob prisão domiciliária e é acusado de ter ligações a dois grupos que a Turquia considera terroristas, o partido dos trabalhadores do Curdistão – mais conhecido como PKK – e o movimento liderado por clérigo turco radicado nos Estados Unidos, Fethullah Gulen. 
Outra questão que tem deixado os dois países de costas voltadas é o apoio dado às milícias curdas, que têm sido as forças mais eficazes a combater o Estado Islâmico no terreno, mas que Erdogan vê como uma ameaça à unidade territorial turca.

A relação da Turquia com os EUA tem estado ainda mais tensa devido à decisão de Erdogan de comprar mísseis terra-ar S-400 à Rússia. 
Os S-400 são mísseis com uma missão semelhante aos Patriot norte-americanos (em coordenação com as estações de radar conseguem intercetar mísseis em aproximação ou aviões com tecnologia furtiva, que têm mais facilidade em escapar às baterias de mísseis anti-aéreos convencionais).

No final de dezembro, e apesar dos vários avisos da NATO, Ancara assinou com Moscovo um acordo de fornecimento de várias baterias de S-400 por um montante estimado em cerca de 2,5 mil milhões de dólares. 
Os responsáveis da NATO salientaram que os mísseis russos seriam (e são) incompatíveis com os sistemas eletrónicos do resto da Aliança. 
Os americanos ameaçaram cortar a cooperação militar com a Turquia caso Ancara insistisse em comprar o sistema de defesa russo, enquanto outros aliados sugeriram uma solução de meio termo, colocando em cima da mesa a compra de sistemas franceses ou britânicos.

O Secretário de Estado adjunto norte-americano para os Assuntos Europeus e da Eurásia, Weiss Mitchell, declarou à imprensa em maio que “a aquisição de S-400 iria afetar inevitavelmente as perspetivas futuras de cooperação militar e industrial da Turquia com os Estados Unidos, incluindo os F-35”. 
E o problema principal é este: os EUA não querem um país como a Turquia a operar mísseis terra-ar russos e caças de última geração americanos F-35 Joint Strike Fighter, por causa dos dados relativos a alta tecnologia que os turcos podem passar a Moscovo.



















Um míssil a ser disparado a partir do sistema terra-ar S-400 de origem russa

No final de maio, a Turquia anunciou mesmo que a compra dos S-400 ia avançar, ainda que a entrega das primeiras baterias não seja para já. 
Em resposta, os Estados Unidos atrasaram a entrega dos primeiros caças F-35 de um contrato de mais de 100 aparelhos comprados pela Força Aérea turca, apesar de a Turquia ter investido cerca de 175 milhões de dólares no programa.

Mas os problemas da economia turca já vinham de longe. 
Durante a crise financeira, os maiores bancos centrais do mundo coordenaram-se para baixar as taxas e criaram um ambiente mais favorável ao crédito, na esperança de estancar a crise nos EUA e na Europa. 
A Turquia aproveitou a conjuntura de crédito mais barato para se endividar, mas o investimento foi essencialmente em construção, incentivando o consumo, não só com a venda de casas, mas também na construção de centros comerciais.

As empresas turcas pediram empréstimos na sua maior parte em dólares (mas também em euros) e muitos bancos internacionais criaram unidades na Turquia. 
A forma que a economia turca encontrou para crescer de forma robusta durante esses anos, é precisamente a razão das maiores dores de cabeça para os responsáveis turcos e para o nervosismo dos investidores.

Desde o início do ano, a lira turca já desvalorizou quase 47% face ao dólar, o que faz com a mais de metade da dívida externa turca que é denominada em dólares tenha praticamente duplicado.














Fonte: Bloomberg. Só esta segunda-feira a lira turca desvalorizou mais de 8% face ao dólar. Na sexta-feira já havia desvalorizado mais de 15%.

“A maior parte [da dívida externa] é detida por, ou emprestada a empresas turcas.  
Menos ao governo e menos aos bancos turcos. 
Nada disto é novo”, diz o especialista. 
A questão mais urgente, além do peso cada vez maior destas dívidas, é que a maior parte desta dívida é de curto prazo. 
“Por isso, Erdogan não terá muito tempo, apenas alguns meses”.

Quem sofre?
Para além da própria Turquia, a Europa parece estar na linha da frente, mas não pelas relações comerciais que tem com Ancara. 
A Alemanha é um dos maiores parceiros comerciais da Turquia, mas o valor das trocas comerciais com os turcos é apenas uma fração das exportações totais alemãs.

Outra questão que coloca mais problemas é a exposição de alguns bancos à Turquia, em particular às empresas turcas, já que a dívida pública turca é relativamente baixa relativamente ao tamanho da economia turca.

Isto é especialmente verdade no caso espanhol, onde bancos como o BBVA têm extensas operações na Turquia. 
De acordo com o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla em inglês), a exposição dos bancos espanhóis à Turquia ascendia aos 82,3 mil milhões de dólares. 
A maior parte desta exposição é a empresas turcas, mais de 59 mil milhões de dólares, mas os bancos espanhóis também detêm cerca de 19,3 mil milhões de dólares de dívida pública turca.

No entanto, se se adicionarem a estes o valor das garantias concedidas por bancos espanhóis a entidades turcas e os compromissos já assumidos para dar créditos, a exposição dos bancos espanhóis seria superior a 100 mil milhões de dólares.

Os bancos franceses surgem logo a seguir, com uma exposição total que ronda os 38,4 mil milhões de dólares, dos quais 24,2 mil milhões são também a empresas, e os bancos alemães em terceiro, com uma exposição de cerca de 17,2 mil milhões de dólares, mas com mais dinheiro em bancos do que em dívida pública.

Com dinheiro emprestado em dólares a empresas turcas, e o prazo de pagamento desta dívida a aproximar-se, os primeiros afetados fora da Turquia podem mesmo ser estes bancos e em alguns casos os valores são significativos
Por exemplo, o valor da exposição dos bancos espanhóis à Turquia é superior ao dinheiro que o governo espanhol pediu ao FMI e à Europa para resgatar os seus bancos durante a crise financeira.

Ainda assim, Jacob Kirkegaard não acredita que este possa, à primeira vista, ser um problema de maior para o euro. 
“Economicamente, não diria que é”. 
Mas há outras questões além dessa.

Sem amigos e sem opções
Com a moeda numa espiral descendente, as opções para estancar uma crise cambial são limitadas. 
O banco central pode gastar as suas reservas de moeda estrangeira — dólares e euros —para comprar liras e tentar estancar a desvalorização. 
Também pode aumentar as taxas de juro a que empresta aos bancos para tentar controlar a inflação e incutir um maior controlo na hora de pedir emprestado. 
Mas neste caso, nem todas as opções estão em cima da mesa.



















Berat Albayrak (à esquerda), ministro das Finanças da Turquia e genro do presidente da Turquia, Reçep Tayyip Erdogan (à direita).

Depois de na sexta-feira e no fim-de-semana Erdogan ter pedido aos turcos para trocarem os seus dólares e euros por liras, o banco central decidiu reduzir o valor das reservas em moeda estrangeira que os bancos turcos tinham de ter depositados junto do banco central como garantia, o que deverá permitir a injeção no sistema de cerca de 10 mil milhões de liras turcas, seis mil milhões de dólares e cerca de 3 mil milhões de dólares em ouro.

Mas a medida não chegou para acalmar os investidores e a lira continuou a cair, em parte porque os investidores sabem que o banco central não tem reservas de moeda estrangeira suficiente para estancar a hemorragia na lira turca e porque a medida mais esperada para combater a inflação que chegou a perto dos 16% em julho, muito superior ao estimado, era de um aumento das taxas de juro, medida essa que não chegou.













Fonte: Bloomberg. A inflação atingiu os 15,85% em julho deste ano, muito acima do valor esperado para a totalidade do ano.

“Se o banco central fosse realmente independente, estaria a aumentar as taxas de juro muito mais, para 50%, o que fosse preciso”, adianta o especialista. 
A perceção em torno da independência do banco central é outra das questões que têm deixado os investidores nervosos. 
Erdogan não só chamou a si o poder de nomear o governador, como nomeou o seu genro como ministro das Finanças, e tem dito sucessivamente que é um “inimigo das taxas de juro altas”. 
Neste enquadramento, a não subida das taxas de juro cria mais nervosismo

A (não) opção FMI
Em última análise, a Turquia poderia sempre recorrer ao Fundo Monetário Internacional, pedindo um resgate para estancar a crise. 
A gestão de crises cambiais é uma das especialidades, e razões de existência, do Fundo, mas há vários problemas até chegar a esse ponto.

O primeiro deles é que a Turquia tem sido um cliente regular do Fundo e as experiências passadas não correram assim tão bem. 
O próprio Erdogan, enquanto primeiro-ministro, minimizou o papel do Fundo na última intervenção que este fez na economia turca, ainda durante a década de 2000.

Outro problema seriam as condições que o FMI exigiria à Turquia para emprestar dinheiro, numa altura em que ainda está envolvido em vários resgates pesados e complicados, como é o caso grego.




















O presidente da Turquia com a diretora-geral do FMI, Christine Largarde.

“Se pedirem ajuda ao FMI, na minha opinião, as condições que o Fundo iria impor seriam muito duras. 
A Turquia é um cliente repetido, o FMI tem vários programas e têm de ser imparciais, como podemos ver pelo exemplo da Grécia o programa seria duro. 
[Os técnicos do FMI] quereriam desmantelar o modelo económico que Erdogan tem usado e isso seria politicamente muito dificilmente para Erdogan. 
Acho que iria resistir”, diz Jacob Kirkegaard.

Mas antes de chegar às condições há um problema maior: o FMI aprovar o empréstimo.

Todos os empréstimos do FMI têm de ser aprovados pelos seus membros e entre os membros com mais votos estão os Estados Unidos e a Europa, dois blocos onde a Turquia não tem muitos amigos nesta altura.

“A Turquia sempre foi vista como um país estratégico e porque é um membro da NATO, esperar-se-ia que recebesse apoio político dos EUA, ou até apoio financeiro, ou apoio político no FMI caso pedisse um resgate. 
Mas Donald Trump já demonstrou que não quer saber muito da NATO, por isso a Turquia não vai ter apoio político por aí. 
O que é claro agora é que Erdogan não tem amigos, na verdade. 
Certamente não em Washington, e os europeus também não gostam muito dele”, acrescenta.

E novos aliados? 
Nem por isso, é a opinião deste especialista que trabalhou para as Nações Unidas no Iraque ou porque o custo seria demasiado elevado ou porque o presidente turco alienou a maior parte dos países que lhe poderiam dar a mão.

“É difícil dizer quanto custaria resgatar a Turquia, mas no caso da Argentina, cuja economia é 75% da economia turca e tem muitos problemas semelhantes, foram necessários 50 mil milhões de dólares. 
No caso da Turquia o resgate teria de ser maior. 
Não é dinheiro que a União Europeia tenha à mão. 
Putin adoraria ajudar Erdogan para dividir a NATO, mas não tem o dinheiro. 
No Médio Oriente também não tem muitos amigos porque apoiou o Qatar na disputa com a Arábia Saudita. 
A China também não teria interesse porque economicamente não tem muita exposição à Turquia e porque Erdogan criticou publicamente o regime chinês pelo seu tratamento à minoria uigure”, explicou.

Na opinião de Jacob Kirkegaard, Erdogan até pode aproveitar, como tem feito, os acontecimentos para demonizar os EUA e culpar as sanções decididas por Trump de todos os males, o que “ajudaria durante uns meses, mas não muda o facto que as empresas turcas têm imensos empréstimos em dólares”.

“[Erdogan] vai ter de encontrar uma forma de dar uma volta de 180 graus. 
Não acredito que tenha mais opções no médio prazo”, acrescentou.

Refugiados, a última cartada
Com um total de 3,5 milhões de sírios a viver na Turquia por terem fugido à guerra no seu país, Erdoğan está em posição de usar o controlo do fluxo de refugiados para a Europa como forma de entrar em negociações com a Europa.

Em 2016, em pleno pico da crise dos refugiados na Europa, a Turquia assinou um protocolo com a União Europeia onde ficou acordado que Ancara estancaria a passagem de requerentes de asilo, recebendo-os dentro das suas fronteiras. 
Em troca, receberia 3 mil milhões de euros de Bruxelas.

Este ano, na cimeira do Conselho Europeu em que a entrada de requerentes de asilo foi o tema que causou maior discórdia, o acordo sublinhava que seriam precisos “esforços suplementares para aplicar plenamente a Declaração UE-Turquia” — o que, na prática, é o reconhecimento de que o acordo não teve o efeito desejado e que Ancara não o cumpriu.

Em 2018, a entrada de refugiados em nada se assemelha com os números que, desde 2014, deram contornos à maior crise de refugiados a chegar à Europa desde a Segunda Guerra Mundial. 
De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, a entrada pela Grécia, por via da Turquia, era a rota menos utilizada pelos requerentes de asilo para chegarem à Europa, com 16528 entrada até à data. 
Enquanto isso, chegaram 18.944 a Itália e 30.106 a Espanha.

No entanto, a situação pode alterar-se rápida e drasticamente. 
Neste momento, o grosso da guerra da Síria combate-se a Norte, nas regiões de Idlib e Afrin, junto à fronteira com a Turquia. 
O intensificar da ofensiva de Bashar al-Assad, aliado ao Irão e à Rússia na região de Idlib poderá provocar uma nova onda de refugiados em direção ao Norte. 
Se esse dia chegar, muito dependerá do destino que Erdoğan decidir dar a essas populações — acolhê-los em troca de mais dinheiro europeu ou deixá-los partir em direção aos Balcãs?

“Este será o principal problema que a Europa, e outros, terão de enfrentar. 
Parece-me cada vez mais provável que o Bashar al-Assad vai atacar a Idlib, o que criaria uma nova grande vaga de refugiados, já que é para onde os refugiados de outras partes da Turquia têm sido enviados. 
Para onde irão? 
A maior parte deve tentar ir para norte na Turquia, mas ao contrário do que acontecia em 2016, os turcos construiriam um muro na fronteira, tipo muro de Berlim. 
Se a Turquia vai ou não abrir a fronteira, é uma questão muito política. 
Não tenho dúvidas que o Erdogan vai dizer, e parcialmente vai ter razão, que a economia turca não se pode dar ao luxo de abrir as nossas fronteiras e vai usar esta situação para tentar arrancar mais dinheiro à Europa, ao ocidente. 
Os refugiados sírios vão ser peões. 
Vai haver muitas imagens na televisão às quais os políticos terão de responder”, disse o especialista.

Na sua opinião, a Rússia, que se tem vindo a aproximar da Turquia, irá aproveita a situação para criar mais uma situação de caos.

“Os russos não são estúpidos. 
Vão ajudar a Síria e Bashar al-Assad a atacar Idlib e é do interesse deles uma nova crise de refugiados, especialmente na Europa. 
Já o fizeram no passado”, sublinhou.