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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Joana Marques Vidal. Os sucessos e os falhanços da PGR /premium


JOANA MARQUES VIDAL
Pedro Rainho e Rita Dinis
20 Setembro 2018
















Falta menos de um mês para Marcelo decidir sobre a proposta de António Costa para liderar o Ministério Público e a discussão tornou-se política. 
Mas, raspando a superfície, o que foi o mandato da PGR?

Operação Marquês, Operação Fizz, Vistos Gold, PT/BES, Operação Atlântico, investigações aos “três grandes” do futebol nacional, etc., etc., etc. 
É um curriculum bem composto, o de Joana Marques Vidal. 
Sobretudo, se pensarmos que, em apenas seis anos, desde que tomou posse como Procuradora-geral da República (PGR), o Ministério Público acusou um antigo primeiro-ministro, fez cair um ministro de um Governo PSD, investigou um ministro do Governo de António Costa e levou à saída de vários dos seus secretários de Estado, gelou as relações políticas entre Portugal e Angola com um processo contra um ex-vice-presidente, afastou juízes-desembargadores das suas funções na Relação de Lisboa e muito mais. 
Os poderes abanaram como nunca tinha acontecido antes. 
Mas isso deve-se a uma espécie de one woman show, como parecem sugerir os defensores da recondução, ou esse legado de Marques Vidal é, na verdade, resultado das mudanças que o poder político introduziu na Justiça portuguesa?

O debate em torno da eventual recondução da atual PGR reduziu o tema a um choque entre a ala pro-continuidade — que cola a imagem de Marques Vidal aos resultados (ainda provisórios) do Ministério Público (PM) nestes seis anos — e a ala anti-perpetuação da figura máxima da investigação judicial. 
Por baixo dessa camada superficial está tudo o resto: o perfil da Procuradora-Geral da República, as escolhas que fez para lugares-chave na estrutura do Ministério Público e as mudanças legislativas que espalharam o combate à corrupção pelo país.

Os elogios à passagem da PGR pela liderança do MP são quase unânimes, entre os responsáveis políticos, mas também entre pares. 
Ainda assim, entre dentes, há também quem questione a “hipervalorização” de Marques Vidal e esqueça tudo o resto. 
“A PGR teve muitos méritos, mas tem-se hipervalorizado o papel dela, parece que ela é que investiga e despacha tudo”, aponta um dos procuradores ouvidos pelo Observador.

A ministra da Justiça ouviu os partidos esta quarta-feira sobre quem pensam que deve liderar o Ministério Público, com o PS a assumiu abertamente a lógica de “mandato único” e o líder do PSD a revelar que “não ficaria surpreendido” se Marques Vidal seguisse para mais seis anos de mandato. 
Agora, António Costa toma (ou anuncia) a decisão e a bola passa para o Presidente da República. 
O anúncio, garante a ministra da Justiça, está “para breve”.

1 - Amadeu Guerra: a “melhor escolha” da PGR















A decisão de nomear Amadeu Guerra não foi unânime, apesar de ter reunido um amplo consenso no Conselho Superior do Ministério Público, o órgão a quem cabe a palavra final sobre a direção do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP). 
Em fevereiro de 2013, poucos meses depois de assumir a liderança do Ministério Público, quando indicou o nome do procurador-geral-adjunto para a direção do departamento onde se investigam os processos mais complexos da Justiça portuguesa, Joana Marques Vidal recebeu três votos contra e 16 a favor. 
Mas a escolha daria frutos: “Nomear Amadeu Guerra para a liderança do Departamento Central de Investigação e Ação Penal foi a decisão mais importante que tomou”, considera um procurador da República.

Essa foi a “mola impulsionadora” para as grandes investigações, ilustra um outro procurador. Ligado a alguns dos processos mais mediáticos dos últimos anos, o magistrado explica ao Observador que as “pressões” sobre o poder judicial se vão esbatendo à medida que aumenta a distância em relação aos centros de poder. 
Virando o prisma de análise, percebe-se que, se há unidade no MP onde a pressão se exerce com mais veemência, essa unidade é o DCIAP. 
É ali que se investigam os mais poderosos, é ali a morada dos inquéritos judiciais mais complexos e que mexem com mais interesses no país (e isso não mudou com reorganização do Ministério Público, como vai perceber mais à frente).

Em março de 2013, quando recebeu das mãos de Cândida Vilar a direção daquele departamento, Amadeu Guerra — uma figura que alguns consideram injustamente secundada no atual debate sobre o combate à corrupção em Portugal — começou a arrumar a casa. 
Foi buscar caras novas, não renovou as comissões de serviço da maioria dos elementos que tinham chegado no mandato anterior e começou a acompanhar mais de perto o andamento dos processos que por ali passavam. 
Muito mais de perto.


A Operação Marquês é, aliás, paradigmática, não só porque ilustra a postura de Amadeu Guerra na gestão diária do seu departamento mas também porque também mostra a forma como, durante a sua liderança, o DCIAP se blindou contra as intervenções vindas de fora e ganhou independência — inclusivé, em relação à própria hierarquia do Ministério Público.

As últimas semanas do inquérito da Operação Marquês foram uma verdadeira maratona. 
O extensíssimo despacho de acusação (são 3908 páginas) foi escrito a mais de uma dezena de mãos para concluir a tempo e horas o documento, assinado por sete procuradores, que levaria a uma acusação contra, entre outros arguidos, o antigo primeiro-ministro José Sócrates. 
O nome de Amadeu Guerra não consta dos sete autores do documento, mas o diretor do DCIAP também terá colaborado nessa tarefa.


Antes desse momento derradeiro de um dos mais importantes processos de sempre do MP, por duas vezes o procurador tomou posições de força relativamente a Joana Marques Vidal. A primeira acontece em março de 2017, quando a PGR concede um alargamento do prazo de conclusão do interrogatório mas, pelo caminho, abre a porta ao afastamento de Rosário Teixeira da titularidade do processo, questionando a sua capacidade para liderar o caso. Amadeu resiste e mantém a confiança no procurador.

Os atrasos na conclusão do inquérito voltam a colocar Amadeu Guerra e Joana Marques Vidal em confronto. 
Ainda em março, a PGR dizia “não se justificar qualquer reponderação do prazo estabelecido” para esse objetivo, depois de já ter alargado em seis meses o calendário do DCIAP. 
Mas a decisão, que deveria sair nesse mesmo mês, só seria conhecida em outubro do ano passado. 
“Amadeu Guerra aguentou os timmings do inquérito, mas se tivesse cedido aos pedidos para concluir o despacho mais cedo teriam ficado questões muito relevantes fora do processo”, assegura um procurador com conhecimento do caso.


Agora, num momento em que se discute a saída ou continuidade de Joana Marques Vidal na liderança do MP, Amadeu Guerra é o outro protagonista a meses de terminar o mandato. 
A decisão tem de ser tomada até fevereiro do próximo ano. 
“Uma decisão poderá acarretar a outra, porque, se a PGR sai e o diretor do DCIAP também sai, isso pode fazer mossa na investigação judicial”, diz uma fonte do Ministério Público.


2 - Novo mapa judiciário: um país atrás da corrupção















Ainda assim, se a decisão de indicar o nome de Amadeu Guerra é vista como uma das decisões mais acertadas de Joana Marques Vidal, também há quem defenda que a PGR soube tirar proveito das mudanças que vieram de fora para reforçar o combate à corrupção durante o seu mandato. 
Uma dessas mudanças surgiu com o novo mapa judiciário, ainda pela mão da ministra Paula Teixeira da Cruz, em setembro de 2014.

Com essa reforma, a investigação aos crimes de colarinho branco deixaram de estar centradas no DCIAP e passaram a poder ser conduzidos nos Departamentos de Investigação e Ação Penal do s distritos do Porto, Coimbra, Lisboa e Évora. 
Além disso, mais de duas dezenas de comarcas passaram a ter núcleos de especialização onde os crimes económico-financeiros também passam a ser analisados. 
O “número de especialistas no combate ao crime economico-financeira aumentou exponencialmente”, em vez de estar centrado nos grandes centros urbanos, defende um procurador.

É no “mix” destas duas alterações que se define a maior mudança introduzida no Ministério Público desde 2012. 
Além de reforçar o DCIAP, Marques Vidal “soube reorganizar o resto da estrutura do MP no país, criando secções de especialidades de combate ao crime económico nos DIAP’s distritais”, uma mudança que, antecipa fonte do Conselho Superior da Magistratura, “vai ter resultados a curto-prazo”.


Ao alargar a investigação ao outros departamentos, a PGR aliviou a pressão (e a sobrecarga processual) que recaía sobre o DCIAP, onde acabavam por ir parar todos os processos mais sensíveis ou mais complexos e que, por isso, exigiam uma maior preparação técnica. 
“Hoje, com a complexidade da sociedade em que vivemos, já não pode haver a ideia do clínico de medicina geral” na investigação criminal, diz fonte do Conselho Superior do Ministério Público (CSMP).


3 - Marques Vidal: uma PGR em cima do MP















Há um terceiro ponto que as várias fontes ouvidas pelo Observador apontam para explicar o que mudou num Ministério Público guiado sob a batuta de Joana Marques Vidal: a proximidade entre a Procuradora-geral da República e toda a estrutura de investigação judicial.

“Seria redutor dizer que as mudanças se devem só” à atual PGR, “mas em grande medida” isso é verdade, defende a mesma fonte do CSMP. 
Rui Cardoso, antigo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, faz a mesma leitura. 
“De modo algum” seria correto apontar as mudanças no MP como obra de uma pessoa só. O contributo de Marques Vidal para os progressos da investigação judicial “foi essencial, mas os resultados são do trabalho de muitíssimas pessoas, com diferentes responsabilidades”, destaca o magistrado.

A PGR intervenção da PGR notam-se, sobretudo, no seu “empenho” e no “apoio que deu aos magistrados para sempre poderem agir com objetividade e respeito pela lei”, seguindo o princípio de que ela é igual para todos. 
Mas também “por algumas escolhas, nomeadamente para o DCIAP”, ainda que a nomeação caiba sempre ao CSMP, e “pela criação de melhores condições de trabalho”, não só no departamento onde vivem os mega-processos mas também nos departamentos distritais onde as tais mudanças no mapa judiciário, em 2014 tiveram particular impacto.

Além disso, Marques Vidal é uma presença regular junto dos órgãos locais. 
Reúne-se de quinze em quinze dias com os procuradores-gerais distritais e aproveita esses encontros com esses coordenadores para “afinar procedimentos, lançar novas iniciativas, até uniformizar procedimentos” na ação dos procuradores. 
“Está sempre a trabalhar em conjunto com uma máquina que é pesada e as orientações que quinzenalmente são dadas aos coordenadores distritais correm a hierarquia, até ao mais distantes dos procuradores”, diz o mesmo elemento do CSMP.

“Mais do que aproveitar os recursos humanos, Marques Vidal conseguiu mobilizar” a estrutura do MP a seguir um exemplo que veio de cima, destaca a mesma fonte. 
Não sendo conhecida pela sua grande capacidade técnica nem por um domínio aprofundado da legislação, Marques Vidal tem fama de “trabalhar horas e horas a fio, sem dar grandes sinais de cansaço” e pela “capacidade de levar as coisas para a frente, obrigando quem trabalha com ela a seguir o ritmo”. 
Rui Cardoso também destaca as mudanças na “organização” do MP, por exemplo com a aposta em “sistemas de análise de informação” que agilizaram a investigação, sobretudo em processos particularmente complexos e pesados.

Mas, agora, o tempo é o da política. 
Até 12 de outubro, António Costa terá de levar um nome a Marcelo Rebelo de Sousa. 
Só aí se fecha um processo que a ministra da Justiça abriu há nove meses.

Reconduzir ou não reconduzir a Procuradora-Geral da República é uma discussão que há muito ultrapassou o plano da justiça. 
Em janeiro, a ministra da Justiça abriu a porta à saída de Joana Marques Vidal quando o seu mandato de seis anos chegasse ao fim, em outubro, mas as suas declarações só serviram para abrir a porta a uma discussão política que não acalmou desde então. 
A PGR que vai ser lembrada por, pela primeira vez na história, ter aberto uma investigação a um ex-primeiro-ministro, ao maior banqueiro do país, e ao maior clube de futebol nacional não deve ser reconduzida? 
Quem quer ficar com o ónus dessa não-recondução?


A questão é essa: ninguém. 
Nem mesmo quem entende que o espírito da lei aponta para a existência de um mandato único, que foi alargado de 4 para 6 anos precisamente com vista à não-renovação — embora na Constituição isso não tenha ficado expresso. 
O artigo 220º da Constituição da República diz que “o mandato do Procurador-geral da República tem a duração de seis anos, sem prejuízo do disposto na alínea m) do artigo 133.º”, sendo que essa alínea diz que “cabe ao Presidente da República nomear e exonerar, sob proposta do Governo, o presidente do Tribunal de Contas e o Procurador-Geral da República”.

Nas audições desta quarta-feira aos partidos, a ministra da Justiça confirmou aquilo que já se vinha adivinhando nas últimas semanas com as declarações de alguns responsáveis dos principais partidos. 
Mas os encontros não foram um desperdício de tempo, desde logo porque permitiram clarificar aquilo que se ia lendo nas entrelinhas. 
A alguns milhares de quilómetros do Terreiro do Paço, em Salzburbo, Áustria, Rui Rio foi protagonista de um desses momentos de clarificação. 
Aos jornalistas, o líder do PSD disse que “não ficaria surpreendido” se a atual Procuradora-geral da República fosse reconduzida no cargo. 
Não foi muito mais longe mas já deixou perceber que a continuação de Marques Vidal não lhe provoca anticorpos.

À porta do Ministério da Justiça, Carlos César foi outra voz clarificadora. 
“O cargo de Procurador-geral da República ganha independência sendo um mandato prolongado e único” disse o líder parlamentar do PS, sublinhando que “essa orientação e essa doutrina estiveram presentes nos debates que ocorreram aquando da revisão constitucional de 1997”.

Também houve intervenções menos clarificadores. 
O PCP, por exemplo, defendeu no final da audiência com a ministra da Justiça que “é tempo de pôr termo à instabilidade criada pelo PSD e CDS em torno da nomeação da figura da procuradora para os seus objetivos partidários” e até voltou a elogiar os “passos importantes” dados no mandato da atual PGR — mas não desvendou a sua posição final sobre o nome em cima da mesa. 
O Bloco tem falado num “balanço positivo do mandato” de Marques Vidal e Assunção Cristas (CDS) já defendeu a manutenção da responsável máxima do Ministério Público.

Já esta quinta-feira, a ministra disse que estaria "para breve" o anúncio da decisão do Governo. 
“Os partidos foram ouvidos com o objectivo de colhermos a sua sensibilidade nessa matéria, não porque seja uma matéria partidária, nem deve ser partidarizada, mas porque se considerou que, sendo um assunto de interesse nacional, os devíamos ouvir e porque havia uma prática nesse sentido“, admitiu Van Dunem.

Em entrevista à TSF, em janeiro, Francisca Van Dunem pegou no exemplo do ex-procurador-geral Cunha Rodrigues, que esteve 16 anos no cargo (entre 1984 e 2000), para defender o caminho inverso, o da limitação de mandatos. 
“A Constituição prevê um mandato longo e único. 
Historicamente é a ideia subjacente ao mandato”, disse recordando que essa era “a grande questão que se colocava” na altura de Cunha Rodrigues. 
Depois disso, “o que se estabeleceu foi um mandato longo e um mandato único”, disse. 
Mas essa interpretação estava longe de ser consensual. 
Nove meses depois, quando o assunto tem mesmo de ser posto em cima da mesa, vários dirigentes políticos, da esquerda à direita, têm elogiado a atuação de Joana Marques Vidal à frente do Ministério Público e têm dado a entender que são a favor da recondução, embora digam que não querem “partidarizar” a questão.

Certo é que cabe ao Presidente da República nomear a/o PGR, sob proposta do primeiro-ministro, que já fez saber que vai ouvir os partidos com assento parlamentar antes de chegar ao Presidente da República. 
Como o Observador noticiou, a recondução é o desejo de Marcelo e a própria Joana Marques Vidal já lhe transmitiu que aceita ficar.


Mas, curiosamente, não era esse o entendimento do mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que, há 20 anos, quando era líder do PSD, esteve por detrás da revisão constitucional de 1997, que estipulou o alargamento de 4 para 6 anos do mandato do PGR. 
Nessa altura, o PS fez questão de deixar em aberto a possibilidade de renovação, enquanto o PSD afirmava simpatizar com a proposta de deixar claro na Constituição que o mandato não seria renovável: PS, CDS e PCP votaram contra a ideia de ficar inscrito na Constituição que o mandato não seria renovável, enquanto o PSD absteve-se.

Segundo recordou o semanário Sol em janeiro, na sua “História Política da Revisão Constitucional de 1997 e do Referendo à Regionalização”, Marcelo Rebelo de Sousa recorda que, naquela altura, não tinha nada contra o procurador-geral de então, Cunha Rodrigues, mas que o que o movia era o princípio de que os mandatos devem ser limitados. “Quanto à limitação do mandato do procurador-geral da República, paralela, de resto, à de todos os demais titulares de órgãos de nomeação política, ela não tinha nem tem nada de pessoal”, lê-se.

Também em 2005, quando o governo aprovava em Conselho de Ministros um limite de 12 anos consecutivos para os mandatos de primeiro-ministro, presidentes dos governos regionais, presidentes de Câmaras e de juntas de freguesia, o então professor Marcelo dizia que a medida da limitação só pecava por ser “curta”. 
“Acho que a limitação é importante, se algum defeito tem é que é curta, deviam ser oito anos e não 12” disse Marcelo Rebelo de Sousa na altura.


Em todo o caso, Marcelo, o Presidente da República, já terá feito saber que é a favor da recondução da magistrada, pelo que dificilmente o desfecho será outro. 
O que é que Joana tem, afinal, que faz com que (quase) todos — mesmo os que defendiam a limitação de mandatos — não consigam defender publicamente a sua não-recondução?


4 - Processos parados, arquivamentos e falta de pessoal: as manchas no currículo da PGR
Há, no entanto, quem questione os resultados deste Ministério Público, na versão Marques Vidal. 
E apontam-se casos concretos: o processo do “terrorista” holandês detido no aeroporto de Lisboa, que não confirmou a acusação; o caso dos submarinos, prescrito; o processo da Tecnoforma, prescrito; e o BPN, uma investigação parada.

Em julho de 2014, Gima Calunga foi detido na placa do aeroporto de Lisboa, junto ao trem de aterragem de um avião da angolana TAAG. 
Tinha uma faca consigo e estaria a preparar um ataque de inspiração terrorista, apesar de sempre ter alegado que fugia de “espíritos” quando se aproximou do avião. 
Um ano mais tarde, o Ministério Público manteve a sua tese, “um lobo solitário” a mando do Daesh e de praticar, entre outros crimes, de terrorismo internacional e de apoio a organizações terroristas.

Mas o angolano, naturalizado holandês, acabaria condenado apenas a um pena de três anos e meio de prisão efetiva por atentado à segurança de transporte aéreo, confirmada pela Relação de Lisboa (que reduziu a pena em um ano). 
O terrorismo caiu na primeira sentença.

O processo dos submarinos ficará como outro marco, pela negativa, do mandato de Marques Vidal. 
A eurodeputada Ana Gomes, que se tinha constituído como assistente, ainda tentou levar a decisão de arquivamento à Relação de Lisboa, depois de o juiz de instrução Carlos Alexandre ter arquivado o caso em 2014. 
O inquérito envolvia suspeitas sobre Paulo Portas e o ex-ministro da Defesa chegou a ser ouvido na reta final, apenas como testemunha. 
Insucesso: a Relação confirmou o arquivamento por falta de factos que validassem a reabertura, dez anos depois da assinatura do contrato com o German Submarine Consortium (GSC).

A lista de crimes do caso Tecnoforma era extensa. 
As suspeitas iam da prática de crimes de corrupção ativa, passiva, abuso de poder e participação económica em negócio a prevaricação, fraude na obtenção de subsídio e desvio de subsídio. 
O processo nasceu, sensivelmente, na reta final do mandato de Cândida Vilar, mas os factos reportavam-se aos anos de 2002 a 2004.

Havia suspeitas de que a empresa, por onde passou o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, teria beneficiado indevidamente de fundos europeus para realizar ações de formação profissional. 
O ex-ministro Miguel Relvas também surgia envolvido no caso. 
De nada valeram as suspeitas de fraude levantadas pelo Organismo Europeu de Luta Antifraude (OLAF) — o caso acabou arquivado há um ano.

O ex-ministro do PSD Dias Loureiro e o antigo presidente do BPN José de Oliveira e Costa estavam a ser investigados pelos crimes de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal qualificada. 
O nome do processo: BPN, um dos braços do polvo judicial em que o caso principal se tornou. 
O Ministério Público ainda analisou a “informação bancária relativa às operações e aos sujeitos intervenientes” mas, “não obstante as diligências realizadas, não foi possível reunir prova suficiente, suscetível de ser confirmada em julgamento, da prática dos crimes imputados a estes arguidos” e um cidadão libanês também envolvido no processo”, referia a nota do Ministério Público publicada abril do ano passado.

Em abril, uma notícia do Correio da Manhã referia que o Ministério Público se preparava para fechar a acusação da processo Monte Branco. 
Foi uma surpresa, uma vez que o processo, nas mãos do procurador Rosário Teixeira (o homem do leme na Operação Marquês), era dado como inanimado há longos meses para que os magistrados pudessem dar prioridade a outros processos. 
A acusação não surgiu e a investigação a uma rede de branqueamento de capitais — num caso que arrastaria vários nomes da praça pública para esse e outros processos, da política (José Sócrates) à banca (Ricardo Salgado) — continua a arrastar-se.

Conclusão: pondo de lado o impacto mediático que alguns dos processos judiciais dos últimos anos tiveram, os resultados podem ter ficado aquém do esperado. 
Seja porque os casos prescrevem, seja porque o Ministério Público acaba por arquivar a matéria mais sensível, seja ainda porque os principais envolvidos são ilibados. 
Os dados do Conselho de Prevenção da Corrupção referentes ao ano passado e divulgados pelo jornal Público, em maio deste ano, revelavam que das 408 comunicações de suspeitas de crimes de corrupção feitas por este organismo junto dos tribunais, 59,8% acabaram arquivadas. 
Houve, nesse período, cinco condenações e dois arguidos foram absolvidos, de acordo com o relatório de balanço que o conselho elaborou.

Nos próximos meses ou anos, há ainda duas provas de fogo para o Ministério Público: as sentenças dos Vistos Gold (aquele caso que afastou Miguel Macedo do Governo) e da Operação Fizz. 
Resolvido o incidente diplomático gerado com a investigação ao antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente, resta saber se o tribunal considera que o procurador Orlando Figueira recebeu dinheiro para arquivar processos em que o governante angolano estava envolvido: a leitura da sentença está marcada para dia 8 de outubro.

Quanto a Vicente, cabe às autoridades em Luanda decidir o que fazer, depois de ter sido extraída uma certidão do processo de Lisboa. 
O banqueiro Carlos Silva e o advogado Proença de Carvalho serão investigados em processos autónomos.

Há, ainda, um processo gigante chamado Operação Marquês. 
Para já, é preciso definir quem fica responsável pela instrução do processo: Carlos Alexandre ou Ivo Rosa, os dois super-juízes do Tribunal Central de Instrução Criminal.


Último ponto: a batalha (perdida) de Joana Marques Vidal pelo reforço do Ministério Público. A PGR não pede mais poderes, mas tem lutado ao longo dos anos por um reforço das equipas. 
Precisa, diz, de mais gente para dar resposta à carga que engole os procuradores em processos empilhados até à altura do teto. 
Marques Vidal — a 38ª mais poderosa de Portugal, para o Jornal de Negócios — reclama, mas o poder político assobia para o lado.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Socialistas defendem mandato único de procurador-geral da República

PGR
Lusa
19 de Setembro de 2018, 21:47 






















A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, começou nesta quarta-feira a ouvir os partidos sobre com representação parlamentar sobre a possibilidade de recondução da actual procuradora, Joana Marques Vidal

O líder parlamentar do PS, Carlos César, transmitiu nesta quarta-feira à ministra da Justiça que o cargo de procurador-geral da República deve corresponder a um mandato único, numa altura em que se discute a possibilidade de recondução de Joana Marques Vidal.

"Aquilo que transmitimos [à ministra da Justiça, Francisca Van Dunem] no essencial foi que o cargo de procurador-geral da República ganha independência sendo um mandato prolongado e único, que essa orientação e essa doutrina estiveram presentes nos debates que ocorreram aquando da revisão constitucional de 1997", afirmou Carlos César aos jornalistas à saída do encontro no Ministério da Justiça, em Lisboa.

O presidente do grupo parlamentar socialista acrescentou que um mandato prolongado e único "permite dar maior liberdade a quem exerce o cargo e também uma maior liberdade a quem nomeia o respectivo titular".

A ministra da Justiça começou nesta quarta-feira a ouvir os partidos com representação parlamentar sobre a recondução (ou não) da actual procuradora, Joana Marques Vidal, que está perto de terminar o seu mandato de seis anos. 
Ocupa o cargo desde 12 de Outubro de 2012.

César adiantou ainda que o entendimento do PS é que o procurador-geral da República deve ser um "magistrado do Ministério Público, preferencialmente um procurador-geral adjunto, com experiência na acção penal".

A Constituição da República Portuguesa estabelece que "o mandato do procurador-geral da República tem a duração de seis anos" e que compete ao Presidente da República "nomear e exonerar, sob proposta do Governo", o titular deste cargo.

Também nesta quarta-feira, Rui Rio, líder do PSD, assumiu que não ficaria "surpreendido" com a recondução de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República, mas considerou "precoce" revelar qual a posição do partido sobre a nomeação para o cargo.


Já o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, acusou na terça-feira passada o PSD e o CDS-PP de estarem a tentar "condicionar" o processo de nomeação do procurador-geral da República, recusando "fulanizar e partidarizar" o cargo. 

Anúncio sobre futuro procurador-geral da República está para breve

PGR
Agência Lusa 20 de Setembro de 2018  há 27 minutos


















Questionada sobre se mantém a sua posição sobre o mandato do PGR dever ser longo e único [seis anos], a ministra da Justiça considerou que, nesta altura, a sua opinião "é irrelevante".

A ministra da Justiça disse esta quinta-feira que “está para breve” a decisão do Governo sobre quem ocupará o cargo de procurador-geral da República, garantindo que “ouviu com atenção” a opinião dos partidos políticos e que “tirará ilações”.

“Os partidos foram ouvidos com o objetivo de colhermos a sua sensibilidade nessa matéria, não porque seja uma matéria partidária, nem deve ser partidarizada, mas porque se considerou que, sendo um assunto de interesse nacional, os devíamos ouvir e porque havia uma prática nesse sentido”, afirmou Francisca Van Dunem quando questionada pelos jornalistas, após o Conselho de Ministros.

A ministra da Justiça ouviu na quarta-feira os partidos com assento parlamentar sobre a nomeação do titular do cargo de procurador-geral da República, ocupado nos últimos seis anos por Joana Marques Vidal. 
Dessas conversas, Van Dunem disse que ela própria e o Governo tirarão as devidas ilações e que está para breve a decisão sobre quem ocupará o cargo.

Questionada sobre se mantém a sua posição sobre o mandato do PGR dever ser longo e único [seis anos], a ministra considerou que, nesta altura, a sua opinião “é irrelevante”.

A Constituição da República Portuguesa estabelece que “o mandato do procurador-geral da República tem a duração de seis anos” e que compete ao Presidente da República “nomear e exonerar, sob proposta do Governo”, o titular deste cargo. 
Joana Marques Vidal termina de seis anos o seu mandato a 12 de outubro.

Joana Marques Vidal já disse a Marcelo que aceita ficar. Os bastidores do processo /premium

Procuradora Geral da República
Rita Tavares    14 Setembro 2018


















Na primeira reunião com Marcelo, a PGR estava irredutível. 
Na segunda já tinha mudado de posição. 
O Presidente tem um enorme poder do seu lado: o de nomear. 
E Costa não quererá conflitos com Belém.

Joana Marques Vidal já informou Marcelo Rebelo de Sousa de que está disponível para continuar como procuradora-geral da República. 
Depois de, inicialmente, parecer decidida a deixar funções no final do mandato a 12 de outubro, até por considerar que o seu cargo não é renovável, e de ter informado Marcelo dessa sua intenção num primeiro encontro com o Presidente da República, a PGR terá cedido aos muitos apelos recebidos, incluindo os do próprio chefe de Estado. 
Numa segunda reunião em Belém, que aconteceu nas últimas semanas, Marques Vidal já mostrou essa disponibilidade. 
A conversa recente entre Presidente e PGR foi completamente ao encontro dos desejos de Marcelo, que da primeira vez não só lhe terá manifestado o apreço pelo trabalho realizado, como solicitado que ponderasse continuar por um segundo mandato, independentemente dos diferentes entendimentos jurídicos que existem sobre o assunto.

A decisão pode mesmo estar a ser acertada nos pormenores finais, para ser apresentada antes do final do prazo do fim do mandato: a 12 de outubro. 
Aliás, o período de substituição pode decorrer no mês anterior à tomada de posse, ou seja, de facto podia acontecer já a partir de agora, mas as agendas de Costa e de Marcelo obrigam a esperar. 
O primeiro-ministro parte este domingo, 16, para a primeira visita oficial a Angola — e não é, neste contexto, uma visita qualquer. 
Marca o reatar das boas relações entre os dois países, depois da tensão diplomática provocada pelo processo da Operação Fizz, que acusou Manuel Vicente, antigo vice-presidente angolano, de ter corrompido um procurador português. Angola recusou notificar o ex-governante dessa acusação, por entender que Vicente goza do regime de imunidade, e o caso acabou num braço de ferro entre as procuradorias gerais dos dois países, com Joana Marques Vidal a assumir-se como o rosto de um Ministério Público que insistia no julgamento do angolano cá, resistindo aos pedidos de Luanda para que o processo fosse enviado para lá — como acabou por ser. 
Anunciar a recondução da Procuradora Geral em cima da visita recordaria um tema que o próprio Governo, pela boca do ministro dos Negócios Estrangeiros, classificou de “irritante”. Depois, quando sair de Luanda, António Costa segue diretamente para a Áustria, para um Conselho Europeu informal para discutir o tema quente das migrações.






















Por seu lado, o Presidente da República, que termina esta sexta-feira o encontro do Grupo de Arraiolos na Letónia, vai ter agenda cheia nos próximos dias, sobretudo pelo norte do país.
 Assim, os dois só se encontram em Lisboa na sexta-feira, dia 21.

E, por isso, é muito provável que a decisão só aconteça na semana seguinte. 
Até porque, há ainda que fazer um compasso de espera para que António Costa possa cumprir um formalismo com que já se comprometeu: ouvir os partidos com assento parlamentar sobre o assunto.

Como essa será a semana do regresso dos debates quinzenais, depois das férias parlamentares, o tema será incontornável. 
Se quiser esvaziar o debate desta pressão, Costa pode querer resolver o assunto nos dias imediatamente anteriores, ou seja, entre segunda e terça-feira, dias 24 ou 25.

Partidos unânimes do elogio. PS menos efusivo
Para já, só o CDS disse claramente que Joana Marques Vidal devia ser reconduzida no cargo, pela voz da líder Assunção Cristas, que desafiou mesmo Marcelo Rebelo de Sousa a ouvir os partidos sobre o assunto. 
E isto porque a líder dos democratas-cristãos sabe que a opinião dos partidos, da esquerda à direita, sobre o desempenho do cargo pela atual PGR é positiva. 
Aliás, o próprio secretário-geral do PSD José Silvano deixou mesmo escorregar a sua posição “pessoal”, em declarações na Universidade de Verão do partido, defendendo que Marques Vidal fosse reconduzida. 
Rui Rio veio a seguir colocar freio na tentação de se “partidarizar uma nomeação que deve ser tudo menos partidarizada”. 
O elogio estava feito e foi até secundado por alguns nomes que não estando na primeira linha das críticas a Rio marcaram também a sua posição, como o eurodeputado Paulo Rangel, ou a líder da JSD Margarida Balseiro Lopes. 
Nenhum confirma terem concertado as declarações, mas a verdade é que também não interessava a Rio que se pensasse que estava a entrar em contradição com o que já dissera antes sobre o Ministério Público. 
Assim, pode apenas dizer que não quer partidarizar o assunto e deixar outros falarem.

No PCP e no BE, também já estava a ser seguida a mesma linha de argumentação oficial do PSD: não falar da recondução para não contaminar o exercício do cargo com posições partidárias contra ou a favor. 
Ainda assim, os dois partidos elogiaram o exercício de mandato por Joana Marques Vidal. Jerónimo de Sousa, do PCP, reconheceu que “em muitas matérias houve avanços significativos” e o líder parlamentar do Bloco, Pedro Filipe Soares, veio também admitir que “a PGR tem tido um papel muito importante em processos muito relevantes da justiça portuguesa, em particular no combate à corrupção”.
























Não que o PS não o tenha feito, mas o afinco com que o fez foi bem menor e logo doseado com a interpretação do que diz a Constituição sobre o mandato. 
Carlos César disse logo em janeiro — quando a ministra da Justiça deixou o PS nestes maus lençóis ao defender o mandato único do PGR a título individual — que a Constituição não dizia isso. 
Mas devia dizer, segundo o líder parlamentar do PS. 
Aliás, esta semana na TSF, veio afirmar que “o mandato não pode ser eternizado”. 
Claro que deixou, tal como todos os outros partidos, a sua “apreciação positiva” sobre o trabalho de Marques Vidal, mas para logo a seguir avisar que  “o exercício desse mandato deve ficar o menos condicionado possível a quaisquer cuidados no sentido da pessoa ser reconduzida ou não. 
Por isso tenho sobre esta matéria uma opção preferencial para que exista um mandato único independente de estar ou não na lei”.

António Costa blindou a sua decisão, mas no PS vai-se argumentando a toda a volta para sustentar que uma não recondução até protegeria o próximo PGR de ficar associado a uma facção que pressionou aquela leitura constitucional. 
O contrário também se aplica, isto é, quem prefere olhar para o mandato de PGR como único e mesmo assim aceita reconduzir Joana Marques Vidal fica liberto de futuras associações.

Sempre que o primeiro-ministro foi diretamente questionado sobre o assunto nos últimos tempos, contornou-o sem cerimónias: “Esta matéria não é uma matéria de luta partidária”. Mas a verdade é que o PS não faz a mesma avaliação, que os outros partidos fazem, do mandato de Joana Marques Vidal — o próprio António Costa já se mostrou publicamente descontente com a demora na investigação ao caso Tancos (bem como o próprio Marcelo ou  Rui Rio, aliás). 
No meio socialista, a ação concreta do Ministério Público nos últimos anos é colocada mais como fruto das alterações legislativas que deram maior raio de ação (acesso a informação financeira por exemplo) à investigação judicial, do que propriamente à figura que PSD e CDS escolheram para PGR.

O primeiro encontro antes das férias e o poder de Marcelo
A recondução de Joana Marques Vidal começou a ser tratada por Marcelo antes das férias presidenciais. 
Mas, no primeiro encontro entre ambos, a PGR mostrou-se irredutível. 
Para Marques Vidal, colocavam-se três problemas: em primeiro lugar, era já público que ela própria entendia que o mandato não era renovável, na interpretação que fazia da lei. 
Isso mesmo tinha deixado claro, em 2016, na intervenção que fez num encontro internacional em Varadero e que ficou registada neste vídeo, publicado pela Procuradoria Geral de Cuba. “O mandato tem uma duração única de seis anos”, disse na altura. 
Além disso, a polémica em torno da recondução deixou a magistrada “muito desconfortável”, descrevem várias fontes ao Observador. Marques Vidal não queria, em nenhuma circunstância, manter-se no cargo sem que a escolha fosse considerada consensual ou havendo qualquer margem para dúvidas sobre o mérito da decisão. 
Temia, por exemplo, poder ser usada como arma de arremesso político. 
Nessa linha, via um outro obstáculo: a futura relação com o Governo e, sobretudo, com a ministra da Justiça. 
O facto de Francisca Van Dunem ter vindo suavizar a posição que tinha assumido na entrevista que lançou a polémica, com o tal esclarecimento de que se tratava, apenas, de uma opinião pessoal, não descansava a Procuradora, que terá deixado claro que não poderia ignorar os prejuízos de uma relação distante — ou até mesmo difícil — com a titular da pasta da Justiça. 
Ainda para mais tendo em conta que, no debate parlamentar que se seguiu à entrevista da Van Dunem, no início do ano, o próprio António Costa tinha admitido que pensava da mesma forma, apesar de insistir que era prematuro falar sobre o tema. 
Sendo certo que a nomeação cabe ao Presidente da República, Marques Vidal não queria ser uma imposição na lista de nomes que cabe ao Primeiro-ministro indicar, sabendo que, a partir dali, representaria sempre um problema para Costa.
























Preocupações que terá relatado, nesse primeiro encontro, a Marcelo Rebelo de Sousa. Mas, logo aí, o Presidente ter-se-á mostrado bastante persuasivo. 
Quer pelos elogios ao trabalho desenvolvido na investigação judicial contra a corrupção aos poderes político, económico e até futebolístico em Portugal, quer pela forma como organizou o Ministério Público.

E foram essas capacidades de Joana Marques Vidal que Marcelo foi também elogiando e defendendo junto de António Costa nas reuniões semanais com o primeiro-ministro, tentando mostrar-lhe os custos políticos e sociais da saída de uma PGR defendida por todos os partidos e com uma imagem muito positiva na sociedade, como uma das poucas corajosas que enfrentou os poderes instituídos. 
Até porque isso pode… valer votos.

No segundo encontro com a Procuradora, o Presidente percebeu que algo tinha mudado. 
As muitas ‘pressões’ mediáticas e políticas para que continuasse tinham chegado à PGR por muitas vias e havia já receptividade nesse sentido. 
Faltavam as condições políticas ideais. 
E aqui Marcelo tem um poder determinante: o poder de nomear.

Pode parecer pouco significativo, mas é um grande poder. 
E tem sido muitas vezes usado. 
Apesar dos (três) nomes para o cargo de procurador-geral da República serem indicados pelo Governo (normalmente depois de falar com os outros partidos), podem todos ser vetados em Belém. 
Sucessivamente. 
É pouco habitual saber-se como se processaram as nomeações. Mas o normal é tudo ser negociado antes de forma a que o nome indicado seja aprovado de imediato. 
Se isso não acontecer e houver algum braço-de-ferro, teoricamente, o Presidente pode rejeitar todos os nomes que o Governo lhe levar. 
É por isso que tudo se discute antes. 
E que é levado muito em conta este poder presidencial. 
Com pelo menos dois ex-procuradores-gerais, a preferência do então Presidente foi determinante: Souto Moura e Pinto Monteiro.

Agora podemos estar perante uma situação semelhante. 
Costa pode indicar, mas só Marcelo pode nomear. 
E a Marcelo não interessa seguramente ser o Presidente que não reconduz a PGR que abriu uma investigação a um ex-primeiro-ministro, ao maior banqueiro do país (e seu amigo) e ao maior clube nacional. 
Mas Costa também não deve querer um conflito presidencial — com um Presidente com elevados níveis de popularidade — num último ano de legislatura onde a relação com os parceiros da geringonça vai ser tudo menos fácil.

Para já a Presidência fecha-se em copas. 
“Não há nenhuma novidade sobre este assunto, nada”, diz fonte do Palácio de Belém. Marcelo Rebelo de Sousa já deu a entender que tem a gestão deste calendário na cabeça e que não pretende desviar-se do plano. 
Por enquanto, publicamente, só tem desdramatizado. 
“Não há razão para nenhuma dramatização. 
A democracia é natural, as instituições funcionam, ainda há menos de um ano tomei uma decisão sobre a nomeação do presidente do Tribunal de Contas, vou tomar agora relativamente a chefias militares por proposta do Governo, faz parte da vida das instituições, sem dramatizações”, disse o Presidente da República. 
Mas no habitual comentário dos domingos na SIC, Marques Mendes já alertou que a não recondução de Marques Vidal ficaria colada a uma“leitura perigosa” de tentativa de condicionamento da investigação judicial.

Seja como for, Marques Vidal saiu de Belém com outro tipo de atitude. 
Se em agosto, no Ministério Público, todos apostariam na sua saída, o mesmo já não acontecia no final do mês. 
Os sinais em relação à distribuição de processos e até à arrumação do gabinete, mudaram após o segundo encontro com Marcelo. 
Que, ao contrário do que chegou a ser noticiado, sabe o Observador, não ficou assim tão indignado com a investigação a Manuel Vicente e muito menos com o tempo que leva o caso Tancos nas mãos do Ministério Público.

As estratégias políticas do PS e do PSD
Para António Costa, a recondução de Joana Marques Vidal não terá custos políticos relevantes. 
Antes pelo contrário. 
Poderá até ser uma decisão que o beneficiará eleitoralmente. 
António Costa, tal como Francisca Van Dunem, não quererão ficar associados a uma possível leitura de tentativa de controle do Ministério Público por parte do Governo que uma eventual não recondução de Marques Vidal poderia promover. 
Van Dunem, aliás, conseguiu apaziguar a tensão que existia entre o PS e as magistraturas desde o primeiro dia do Governo Sócrates. 
Foi precisamente esse apaziguamento que Costa pretendia quando a escolheu — e numa altura em que já se sabia Sócrates estava a ser investigado pelo MP.

A saída para a ministra da Justiça não é difícil. 
Supondo que o segundo mandato da PGR é anunciado antes do debate quinzenal de dia 26, se a ministra for confrontada no Parlamento com as suas anteriores posições, pode sempre dizer que afirmou desde o início que ter defendido um único mandato era uma opinião pessoal.

Aliás, no início de setembro, após um artigo de opinião do eurodeputado Paulo Rangel que defendia a nomeação de Joana Marques Vidal para mais um mandato, era precisamente isso que fontes próximas de Francisca Van Dunem enfatizavam: “Obviamente, que a ministra sabe que a Constituição não impede a recondução da procuradora-geral. 
As suas declarações de janeiro são uma interpretação pessoal, como já foi explicado na altura pela ministra e pelo primeiro-ministro”. 
Ou seja, a ministra da Justiça não rejeita(va) a recondução da actual PGR.

Acrescente-se um último ponto: quer António Costa, quer Francisca Van Dunem têm igualmente um curriculum de combate à corrupção, a área em que Joana Marques Vidal é mais elogiada, diz respeito. 
Como ministro da Justiça de António Guterres, não só indicou José Souto Moura para o cargo de procurador-geral — e em cujo mandato se iniciaram as investigações do processo Freeport ou Apito Dourado —, como apoiou e reforçou a Polícia Judiciária no combate à corrupção. 
Já Van Dunem, ela mesma procuradora-geral adjunta (agora juíza conselheira), foi diretora do DIAP de Lisboa entre 2001 e 2007, tendo a 9.ª Secção daquele departamento, que investiga em exclusivo a criminalidade económica-financeira, tido uma crescente importância sob a sua direção.






















Do lado do PSD, a última declaração de Rui Rio também lhe permite uma ‘saída limpa’, após ter chegado a fazer um balanço negativo da atuação do Ministério Público. 
“A partidarização deste tema [PGR] é um erro”, disse, acrescentando que não falará do tema “enquanto o primeiro-ministro e o Presidente da República não colocarem o problema em cima da mesa”. 
Foi a estratégia que seguiu logo nos debates com Pedro Santana Lopes, na disputa pela liderança do PSD, depois das críticas que tinha deixado no primeiro confronto. 
A partir daí, Rio justificou que o “balanço negativo” era uma “apreciação global sobre o sistema de Justiça” e não uma crítica a Marques Vidal. 
Ora, se num primeiro olhar, a distanciação pode ser vista como um ‘entregar’ de toda a iniciativa política a António Costa sem tomar parte numa decisão que é um dos assuntos políticos do momento, numa outra análise permite também a Rio não se pronunciar sobre algo que pode estar já fechado e ir assim ao encontro da vontade do Presidente da República, que não gostou nada de ver o assunto servir para fazer política partidária. 
O que não quer dizer que não tenha feito perceber o sentimento do PSD sobre o assunto. Para além dos seus críticos, já apareceram no apoio à PGR quer o secretário-geral do partido, José Silvano, quer a líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes.

Como reagirá o MP a um segundo mandato de Marques Vidal
A recondução de Joana Marques Vidal sempre foi vista com bons olhos dentro do Ministério Público, mas não propriamente num tom festivo.

Expliquemos. 
Em primeiro lugar, é opinião generalizada na classe que o procurador-geral só deve fazer um mandato de seis anos — para reforçar a independência com que exerce as suas funções e impedir eventuais alianças com o poder político para a obtenção de um segundo mandato. Tem sido essa, aliás, a opinião expressa pelo Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, liderado por António Ventinhas. 
A visão é estrutural e abstrata e nada tem a ver com Joana Marques Vidal — cujo mandato merece palavras de elogio de Ventinhas e dos procuradores contactados pelo Observador.

Por outro lado, há algo que desagrada de forma generalizada aos magistrados do MP no discurso mediático de apoio à recondução da PGR: a ideia de que o combate à corrupção só existe por causa de Joana Marques Vidal. 
“O Ministério Público é um corpo de magistrados e esse combate nasce de um esforço colectivo e de especialização que nasceu há muitos anos com Cunha Rodrigues”, diz um desses procuradores, aludindo ao procurador-geral que exerceu as funções entre 1984 e 2000.

Apesar desse desagrado — que é dirigido à comunicação social e que tem raízes na ideia, muito cara ao MP, de coletivo em detrimento do individualismo —, muitos procuradores fazem um balanço positivo da procuradora-geral e vêm com bons olhos a sua continuidade.

Joana Marques Vidal ganha muito por ter sido a sucessora de Fernando Pinto Monteiro. 
Ou seja, o seu mandato vence claramente pelo contraste. 
Se Pinto Monteiro entrou em 2006 focado em acabar com o “poder feudal” do “conde, visconde, marquesa e duque” do MP, utilizando os poderes hierárquicos de forma clara para impor a sua visão aos procuradores, Joana Marques Vidal fez precisamente o contrário.

Não foi por acaso que os conceitos da “autonomia externa” — “sem a qual não existe uma verdadeira independência do poder judicial” — e da “autonomia interna” — “reconhecendo a competência própria de cada magistrado” — ocuparam uma parte importante do seu discurso de tomada de posse no dia 12 de outubro de 2012. 
Durante os seis anos do seu mandato, Marques Vidal foi fiel a um aprofundamento da autonomia. 
Ao contrário de Pinto Monteiro, não avocou nenhum processo mediático, nem as eventuais divergências internas na magistratura chegaram à praça pública. 
Apostou, sim, em criar condições para que os magistrados das diferentes categorias hierárquicas, nomeadamente o procurador que tem o processo nas mãos, pudessem levar a cabo o seu trabalho. 
Os procuradores, nomeadamente os que dirigem os processos mais mediáticos, reconhecem que tiveram todas essas condições hierárquicas. 
Mesmo quando foram cometidos alguns exageros, como no caso da investigação ao ministro Mário Centeno pelo alegado crime de recebimento indevido de vantagem devido a bilhetes para ir ver um jogo de futebol do Benfica.





















Outro ponto decisivo em termos internos foi a forma como apostou numa organização mais clara do Ministério Público, nomeadamente no que diz respeito ao exercício de competências do Departamento Central de investigação e Ação Penal (DCIAP). 
Criado em 1999, por Cunha Rodrigues, como um órgão da Procuradoria-Geral da República, o DCIAP tem competências de coordenação a nível nacional e é aquele onde se investigam os casos mais complexos da criminalidade económico-financeira que tenham ocorrido em diferentes distritos judiciais. 
Certo é que isso nem sempre aconteceu, muito por culpa da falta de magistrados que existiu no DCIAP durante muitos anos e da concorrência clara que existia com o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa.

Marques Vidal não só terminou com essa concorrência, como nomeou uma pessoa fulcral para o sucesso do seu mandato: Amadeu Guerra. 
Olhado com desconfiança quando foi conhecido o seu nome como sucessor de Cândida Almeida, o procurador-geral adjunto, que vinha da área administrativa, pegou num departamento caótico e descredibilizado — muito por via das declarações públicas da sua diretora e das intervenções do procurador-geral Pinto Monteiro — e deu-lhe uma força que nunca tinha tido até agora.

Amadeu Guerra não só organizou o DCIAP de forma eficiente em termos administrativos e de investigação, como conseguiu atrair os melhores procuradores do DIAP de Lisboa e de outros departamentos e deu autonomia aos magistrados que têm os processos a seu cargo. Os procuradores do DCIAP reconhecem-lhe algumas das maiores qualidades de qualquer chefe: acredita no trabalho do seu subordinado e protege-o de qualquer influência externa.

Foi assim que nasceu a Operação Marquês, o Universo Espírito Santo, o caso Vistos Gold, a Operação Lex, o caso José Veiga e tantos outros casos judiciais que ajudaram a cimentar a ideia de que o mandato de Joana Marques Vidal é marcado pelo facto de que “não há privilégio nenhum pelo facto de se ser magistrado, político ou banqueiro”. 
As palavras são do ex-procurador-geral Souto Moura (2000/2006), mas resumem bem a visão que os procuradores ouvidos pelo Observador defendem para o MP.

Com Joana Marques Vidal ou sem Joana Marques Vidal
Desde que começou o debate público sobre a eventual recondução de Joana Marques Vidal, têm surgido nomes de hipotéticos substitutos, não se sabendo, pelo menos de forma oficial, se estão ou não na lista que António Costa gostaria de apresentar a Marcelo Rebelo de Sousa. 
Um deles, provavelmente o mais bem colocado caso o plano de manter Marques Vidal acabasse por não se concretizar, seria o do seu número dois. 
O vice-procurador-geral da República, Adriano Cunha, é visto como um homem muito discreto que, eventualmente, poderia continuar a linha seguida pela atual procuradora-geral. Foi escolhido por ela — e eleito, por voto secreto, pelo Conselho Superior do Ministério Público — deixando a função de procurador-geral adjunto que ocupava na altura.

O nome de Orlando Romano, antigo diretor nacional da PSP, terá sido também considerado nos bastidores do PS, avançou o jornal Sol, há três semanas, mas estará fora das escolhas de Costa, apurou o Observador, pelas ligações aos socialistas e ao próprio primeiro-ministro. 
Na eventual lista, caberia ainda o nome de João Silva Miguel, atual diretor do Centro de Estudos Judiciários, que é juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, mas fez toda a carreira como magistrado do Ministério Público.