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domingo, 30 de setembro de 2018

Efeito cambial trama construtoras

ANGOLA
Economia
Abílio Ferreira   29 de Setembro de 2018
António Costa e João Lourenço voltam a encontrar-se no fim de Novembro em Lisboa

Dívida em euros cai para menos de metade por causa da desvalorização do kwanza

No rescaldo da operação diplomática do primeiro-ministro, António Costa, em Luanda, há uma boa e uma má notícia para as empresas, em especial da fileira da construção, credoras do Estado angolano. 
A boa é que Angola reconhece a dívida e compromete-se a pagá-la. 
A má é que não assume a atualização cambial, reduzindo para menos de metade a fatura em euros. 
Na prática, é um perdão forçado que rondará os €300 milhões.

“Ainda bem que há dinheiro, é uma pena que não venha o dinheiro todo”, desabafa ao Expresso um industrial. 
Os agentes empresariais confiam que uma “pressão política adicional do Governo português ajude a acelerar o pagamento”, cujo programa deve ser apresentado por Luanda aquando da visita do Presidente João Lourenço a Lisboa, marcada para 23 e 24 de novembro. 
Nessa altura, já a Cosec terá acertado a extensão em €500 milhões de linha do Estado português para cobrir negócios com Angola e que volta a incluir uma fração destinada a liquidar dívidas atrasadas.

O reforço para €1500 milhões “terá expressão no Orçamento de 2019”. 
Como se trata de uma extensão “as regras e condições de acesso mantêm-se: apoiar as empresas portuguesas na execução de projetos contratados com Angola”, responde ao Expresso o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE).

NOVO FÔLEGO
A linha é um novo fôlego para as construtoras que ganham margem financeira para se aventurarem por novas obras públicas. 
Como diz um empreiteiro radicado em Luanda, “as dívidas dos Estados são para rolar a gerir”. 
O incómodo surge quando os pagamentos cessam e a circulação é interrompida. 
A linha reativa o circuito. 
Tal percalço não afetou os exportadores de ramos prioritários, como alimentar ou farmacêutico, que fornecem o universo estatal.

A estimativa do Governo angolano aponta para uma dívida global de 100 mil milhões de kwanzas (€290 milhões ao câmbio atual). 
Mas, o processo está ainda em fase de escrutínio e certificação, empresa a empresa. 
Só os contratos que forem validados contarão para o apuramento final. 
Todos os agentes relevam o facto de o valor ter sido anunciado na moeda angolana.

Após o ciclo depressivo 2012/2015, o número redondo que circulava no sector da construção para dimensionar a dívida acumulada era de 1000 milhões de dólares (€850 milhões). 
Mas a cifra sofreu uma redução acentuada pelo recurso do Estado a títulos de dívida pública (sem risco cambial) para saldar pagamentos. 
Desde então o kwanza perdeu 70% do valor face ao euro.

Nem a CIP — Confederação Empresarial de Portugal nem as associações sectoriais dispõem de dados atualizados. 
A AECOPS — Associação de Empresas de Construção Obras Públicas e Serviços situa a dívida entre os €400 e os €500 milhões, mas não tem um valor apurado. 
Uma parte “está em aprovação e a restante tem um valor por apurar por estar denominada em moeda local”, diz Ricardo Pedrosa Gomes, presidente da AECOPS.

Os valores indicados “pecam por defeito”, reage Reis Campos, presidente da Confederação Portuguesa da Construção e Imobiliário (CPCI). 
Mas o industrial descarta a querela dos números e prefere valorizar “o sinal positivo que decorre da intenção de pagar”. 
Qualquer solução “é sempre melhor do que nada”. 
As construtoras “reconhecem o esforço de Angola” e percebem que o problema “tem de ser resolvido de modo gradual”.

PAGA TARDE, MAS SEMPRE
Quando o tema é a dívida do Estado angolano, António Mota, o patrão da Mota-Engil repete o lema, cimentado numa carreira de 70 anos no país. “Angola paga tarde, mas paga sempre.” 
Ricardo Pedrosa Gomes subscreve. “O histórico do relacionamento confirma essa afirmação.” 
Outros industriais invocam a “cultura africana” para balizar o caso angolano, advertindo que uma estratégia coerente de internacionalização exige sempre “músculo financeiro adequado” para resistir às adversidades.

O primeiro expediente a que Angola recorreu para regularizar os atrasados foi a entrega de títulos soberanos para abater à dívida. 
A solução tornou-se um mal menor e a generalidade dos credores aceitou as obrigações do Estado que servem de cobertura a empréstimos bancários. 
Por exemplo, no acerto de contas pela requalificação da Baía de Luanda, a Mota-Engil recebeu €70 milhões em títulos de dívida. 
Em três anos, a exposição da construtora evoluiu de €28,7 milhões (2015) para €165 milhões (2017). 
A Teixeira Duarte investiu o equivalente a €40 milhões, transformando, em 2017, um terço em liquidez. 
Outras construtoras, como a Manuel Couto Alves (MCA) de Guimarães, de reduzida expressão em Portugal, rivalizam com os gigantes nacionais na obra pública angolana e acumulam igualmente um valor elevado de obrigações.

Reis Campos nota que agenda luso-angolana não se esgota no caso das dívidas e aponta o intercâmbio de trabalhadores como um dos aspetos centrais. “Nós temos formação profissional, eles têm gente disponível”, diz o industrial. 
Uma solução perfeita para resolver o défice de mão de obra que a CPCI calcula em 70 mil.

João Luís Traça, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portugal-Angola, realça que os sinais recentes “confirmam a vontade de o Governo de Luanda de resolver todos os atritos e aprofundar a cooperação com Portugal”. E os empresários portugueses não podem subestimar esta realidade: “Angola é dos raros mercados em que ser português é uma vantagem competitiva.” 

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

António Costa em Angola. Os altos e baixos de uma viagem que virou as relações Lisboa-Luanda

ANGOLA
José Pedro Mozos   18/9/2018, 22:57


















O primeiro-ministro esteve dois dias em Angola e voltou com 11 acordos de cooperação assinados e com a fé nas relações com Luanda redobrada. 
Mas nem tudo foram pontos altos.

As relações entre Angola e Portugal passaram nos últimos tempos por alguns momentos de tensão. 
A investigação da justiça portuguesa ao ex-vice-presidente e antigo homem forte do petróleo angolano, Manuel Vicente, marcou as conversas entre os dois países no fim dos quase 40 anos de José Eduardo dos Santos como chefe de Estado. 
João Lourenço tomou posse como Presidente angolano e os primeiros sinais não auguraram melhorias significativas. 
Os encontros com homólogos europeus – Espanha e França na liderança – pareciam insinuar uma troca de prioridades por parte de Luanda, relegando Portugal para um segundo plano.

No entanto, o último ano voltou a mudar o contexto e as relações bilaterais estão de novo na mó de cima. 
Em maio soube-se que Manuel Vicente ia ser julgado em Angola e não em Portugal, no âmbito da Operação Fizz. 
Este fator foi o turning point das relações entre os dois países e os quatro encontros que António Costa manteve com o sucessor Chefe de Estado de Angola no último ano serviram para solidificar a confiança entre ambos. 
A visita de dois dias de António Costa a Angola, que terminou esta terça-feira, foi o ponto final de uma viragem diplomática que pretende voltar a unir Lisboa e Luanda como capitais irmãs. 
Globalmente positiva, esta visita ficou também marcada por momentos menos positivos.

Os altos. O fim do “divórcio temporário”
A viagem foi curta e a agenda apertada. 
No entanto, os pontos positivos desta visita de António Costa a Angola podem ilustrar-se através de uma imagem: as declarações que João Lourenço e António Costa fizeram esta terça-feira para concluir a visita, lado a lado. 
Algo que há pouco mais de um ano parecia tão difícil quanto trabalhoso. 
Mas esta prova de restabelecimento de relações foi apenas o culminar de dois dias de trabalho, elogios mútuos e acordos bilaterais de cooperação estratégica assinados.

Depois de um dia passado com o ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, as manifestações de esperança e de confiança nesta visita por parte dos dois países começaram logo nos primeiros momentos. 
24 horas depois, as duas partes concretizariam esses votos de esperança e materializavam-nos em acordos e em palavras de conciliação.

Logo na manhã desta terça-feira, o Jornal de Angola, visto como a voz do regime angolano, fez questão de sublinhar a importância desta visita e de deixar claro que a má fase que as relações entre os dois países atravessaram já terminou. 
O diário apelidou de “divórcio temporário” o impasse gerado em torno do caso de Manuel Vicente. 
E declarou o seu fim.

“Isto é bom para Angola, tanto quanto para Portugal, sendo igualmente importante reter o facto de a gestão do que as autoridades lusas consideravam como ‘irritante’ ter sido feita sem o agravamento das relações bilaterais”, escreve o jornal angolano. 
“Para o passado, ficam assim situações que melhor poderão ser remetidas a historiadores, pesquisadores e estudantes”, acrescenta.

O editorial serviu ainda para antecipar aquilo que seria o segundo e último dia da visita de António Costa. 
“É oportuna a assinatura de acordos que venham incidir na inviabilização da evasão fiscal, que contribuam para o combate contra a corrupção, entre outros como deverá suceder, em princípio, com a rubrica do compromisso para evitar a dupla tributação”, vaticinou ainda o editorial.

No fim do segundo dia, já de fato e gravata e ao lado de João Lourenço, António Costa mostrava-se feliz pelos “onze acordos assinados pelos governos de Angola e Portugal”. 
O primeiro-ministro dá especial destaque ao alargamento da linha de crédito e uma convenção para evitar a dupla tributação. 
Provas de “dinamismo e vitalidade das relações entre os dois países”, lê-se na conta oficial de Twitter do primeiro-ministro.

Tanto João Lourenço como António Costa fizeram várias referências ao facto de se assistir “a uma nova fase” das relações, lembrando os sinais que os dois países deram de confiança e restabelecimento do normal funcionamento diplomático das relações bilaterais. 
E só de raspão referiram o mal-estar nas relações bilaterais devido ao caso Manuel Vicente.

Os baixos. As jeans e o elefante na sala
Quando nos pontos negativos de uma viagem diplomática se pode incluir uma polémica que envolve o dresscode a análise que se pode fazer é tendencialmente positiva. 
No entanto, e apesar de não ser um fator que cause qualquer incidente diplomático, o facto de António Costa ter chegado a Luanda com um blazer, jeans, mocassins e sem gravata não passou despercebido e chegou até a ser alvo de críticas em editoriais de jornais portugueses.

O traje informal que o primeiro-ministro utilizou na chegada, enquanto era recebido por militares angolanos, foi rapidamente associado a uma falta de respeito institucional para com Angola nas redes sociais. 
As críticas chegaram ao próprio António Costa que, através de uma fonte governamental, esclareceu ao Observador que esta não foi uma chegada com honras militares, mas sim uma “chegada informal”.

A fotografia do primeiro-ministro ao lado do ministro dos Negócios Estrangeiros angolano, Manuel Domingos Augusto, foi sobejamente partilhada mas pouco ou nada interferiu na visita de António Costa, que publicou a fotografia nas suas redes sociais, utilizando-a para reforçar a confiança na melhoria das relações diplomáticas entre os dois estados.

Um pouco mais difícil de ignorar foi um outro assunto que o primeiro-ministro, apesar das tentativas de chutar para canto, não conseguiu calar: a recondução ou não de Joana Marques Vidal na Procuradoria-Geral da República. 
Ainda para mais, a PGR foi a responsável última pelo desfecho dos procedimentos judiciais relacionados com Manuel Vicente.

Sucessivamente questionado sobre o tema, o primeiro-ministro remeteu para o fim da viagem qualquer comentário. 
No entanto, a dúvida ia crescendo e o burburinho em Portugal não cessava. 
A tentativa de não comentar assemelhava-se cada vez mais a um adiamento forçado de uma declaração que o primeiro-ministro terá, mais tarde ou mais cedo, de fazer.

O elefante na sala ia crescendo, e ia empurrando o primeiro-ministro para a porta de saída. A viagem terminou sem que António Costa falasse sobre o tema. 
A ideia do primeiro-ministro era certamente a de evitar comentar as notícias que marcaram o fim-de-semana e que davam conta de que Joana Marques Vidal já tinha mostrado disponibilidade para aceitar um novo mandato em conversa com o Presidente da República. Mas o efeito foi o contrário, e o silêncio do chefe de Governo tornou mais urgente uma reação. 
À chegada, esperam-se novidades.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

António Costa ao DN. Quanto mais Angola melhor

DIPLOMACIA
Ferreira Fernandes 16 Setembro 2018 00:01

Primeiro-ministro inicia hoje visita a Luanda. Jornal de Angola tem uma entrevista e jornal O País republica esta dada ao DN, sinal da importância da primeira deslocação a Angola de um chefe do Governo português desde 2011.

A primeira visita de um primeiro-ministro português desde 2011 e um pacote otimista para discutir a cooperação. 
A António Costa, um pragmático, agrada-lhe o pragmático João Lourenço. 
Durante o último ano, os encontros entre as mais altas autoridades portuguesas e angolanas foram intensos. 
As relações continuavam, naturalmente. 
Mas o caso Manuel Vicente inquinava. 
João Lourenço declarou quais as balizas impostas por esse "irritante" (palavra usada por Costa e replicada pelo novo MNE angolano, Manuel Augusto): haveria trabalho mas não conhaque. 
O trabalho prosseguia (além dos encontros referidos na entrevista dada por António Costa, há que relembrar a ida de Marcelo Rebelo de Sousa à tomada de posse de João Lourenço, e a vinda da primeira-dama angolana, Ana Dias Lourenço, a Belém), mas não haveria conhaque - nem ida do chefe de governo português a Luanda nem do PR angolano a Lisboa. Caso Manuel Vicente resolvido - essencialmente, o Ministério Público português reconheceu o óbvio: teve de reconhecer como idónea a Justiça angolana -, as balizas caíram. 
E, amanhã, António Costa desembarca em Luanda. 
O fio da conversa com o DN, a única entrevista que o primeiro-ministro acordou com um jornal português, andou nisto: Angola é importante para Portugal e quanto mais importante Angola for, melhor para Portugal. 
A receita é clara. 
Tanto melhor serem pragmáticos a aplicá-la.

Chega amanhã a Angola e o presidente João Lourenço vem a Portugal em novembro. No Twitter, o senhor disse que este é "um momento auspicioso". E o Presidente Marcelo classificou de "francamente boas" as atuais relações luso-angolanas. É este o ponto de situação?

No último ano tive oportunidade de me encontrar, por três vezes, com o presidente João Lourenço, e ficou sempre muito claro que as relações entre Portugal e Angola não tinham nenhum problema político. 
Eram boas do ponto de vista económico e tinham um único irritante que se prendia com uma questão judicial. 
Ultrapassada essa questão judicial, nada mais ensombrava as nossas relações.























Como explicaria aos portugueses e aos angolanos o que tem de especial um primeiro-ministro português ir a Angola em 2018?

Acho que, em praticamente um mês, o primeiro-ministro de Portugal ir a Angola e o presidente de Angola vir a Portugal demonstra aquilo que deve ser a normalidade da relação entre Portugal e Angola. 
O que é estranho é nos últimos sete anos nenhum primeiro-ministro português ter ido a Angola e, nos últimos oito anos, nenhum presidente de Angola ter vindo a Portugal. 
Eu diria que a nossa relação devia ser praticamente anual. 
Ou cá, ou lá, ou a meio caminho. 
A intensidade da nossa relação, do ponto de vista político, do ponto de vista económico, do ponto de vista de que cada um dos nossos países pode ajudar para esse grande desafio que temos neste século, que é a relação entre África e a Europa, exigia que, enfim... não nos encontrássemos todos os meses, mas pelo menos todos os anos. 
Mas temos de nos encontrar.
Angola vai ser uma das grandes potências económicas em África durante este século, o que é muito importante para o nosso país. Mais, é muito importante a influência política crescente de Angola, não só no continente como no mundo, porque isso reforça toda a presença política do espaço da CPLP
O ministro das Relações Exteriores, Manuel Domingos Augusto, abriu a primeira delegação angolana depois do apartheid na África do Sul e foi também embaixador na Zâmbia. E recentemente o presidente francês Emmanuel Macron sublinhou que Angola era decisiva na resolução da crise política crónica da República Democrática do Congo... Os dois exemplos colocam Angola numa região onde ela é uma potência. Isto dá força ou enfraquece Portugal?

Dá força sobretudo a Angola, e tudo o que dê força a Angola naturalmente puxa pelas relações económicas, em particular as relações económicas de Portugal. 
Angola vai ser uma das grandes potências económicas em África durante este século, o que é muito importante para o nosso país. 
Mais, é muito importante a influência política crescente de Angola, não só no continente como no mundo, porque isso reforça toda a presença política do espaço da CPLP no quadro global. 
Se algo é decisivo para as próximas décadas, é a relação entre estes dois continentes vizinhos, África e Europa. 
E nesta relação, Angola tem um papel fundamental porque vai ser um dos grandes motores do desenvolvimento do continente africano. 
E o facto de ela ter uma presença forte na Europa reforça a sua posição. 
Angola tem condições para não estar virada sobre si mesma, abrir-se ao mundo e ao continente. 
Todos temos uma enorme expectativa de que, com o presidente João Lourenço, Angola afirme esse papel de liderança. 
Não só na África Austral mas no conjunto do continente africano.






















Portugal vê Angola como um mercado para as suas exportações...

É também um excelente mercado de emprego, convém não esquecer. 
Temos 170 mil portugueses que residem em Angola, que foi uma das grandes portas de saída para muitos portugueses nos anos mais difíceis da crise. 
E a demonstração de como, efetivamente, este espaço da CPLP é também um espaço económico muito importante para reequilibrar os fluxos consoante as crises vão atingindo uns ou outros. 
Angola não é só um mercado de exportação. 
É um grande mercado de vivência, das nossas comunidades e, designadamente, dos muitos portugueses que vivem em Angola.
Nós com Angola vivemos muitos anos, os portugueses têm uma paixão especial por Angola. E essa paixão, muitas vezes, levou a que se confundisse aquilo que é essencial: uma relação Estado a Estado, governo a governo. Com debates, cá e lá, sobre as políticas internas de cada um dos países
A crise dos refugiados já levou a União Europeia a concluir que é necessário ajudar África a encontrar uma solução para os seus habitantes e que não produza só homens sem esperança. Isto é, o problema dos refugiados também é europeu. O senhor vai visitar um país africano que não exporta refugiados mas, pelo contrário, que os recebe. Esta questão está agendada nos encontros que vai ter?

Acho ser claro para todos que a estratégia do desenvolvimento do continente africano é decisivo para a estabilidade das relações internacionais. 
A solução não pode ser só a emigração em direção à Europa. 
Felizmente a União Europeia recentemente compreendeu que, mais do que securitizar fronteiras, importa investir no desenvolvimento do continente africano. 
Esse é o novo olhar que a Europa tem e espero que venha a aprofundá-lo. 
Gostaria muito que o grande tema da presidência portuguesa da União Europeia, em 2021, fosse precisamente as relações da Europa com África. 
Mas é preciso que aqueles que podem ser os motores do desenvolvimento do continente africano desenvolvam todo o seu potencial. 
E se há motor que tem potencial para desenvolver, é claramente Angola. 
Ela pode, quer com o investimento no continente, quer com o desenvolvimento da sua economia, quer com a atração de emigrantes, que é uma plataforma essencial, ser um dos grandes aliados da Europa neste esforço de apoiar o desenvolvimento do continente africano.

Angola foi vista durante décadas e sobretudo nas duas últimas como um lugar de negócio, inclusivamente com a intervenção de políticos portugueses de leque diverso. O socialista Jorge Coelho, o social-democrata Miguel Relvas, o centrista Paulo Portas estiveram...

Presumo que lá estejam...
Esta viagem vai abrir novas áreas nos domínios da soberania da cooperação técnico-policial e da cooperação tributária, mas a língua é sempre uma mais-valia
Sim, mas hoje há um interesse mais político, e que se estendeu às lideranças dos partidos. Estamos perante uma unanimidade que não existia. De Jerónimo de Sousa a Assunção Cristas, passando por si, António Costa, e por Rui Rio, incluindo o Presidente Marcelo, há quase uma voz única a reconhecer Angola como de importante interesse nacional português. É possível aproveitar esta unanimidade atual para resgatar para a política aquilo que era quase exclusivamente negócios?

Acho que isso é um enorme sinal de maturidade. 
Nós com Angola vivemos muitos anos, os portugueses têm uma paixão especial por Angola. E essa paixão, muitas vezes, levou a que se confundisse aquilo que é essencial: uma relação Estado a Estado, governo a governo. 
Com debates, cá e lá, sobre as políticas internas de cada um dos países. 
Nós temos de ter com Angola, como temos com todos os outros países de expressão lusófona, uma relação fundamental que é: nós somos amigos do povo, do país e do governo que está em funções em cada momento... 
Haver essa unanimidade na sociedade portuguesa é da maior importância. 
Bem sei que a independência do Brasil tem uns séculos de avanço, mas, mesmo durante a ditadura brasileira, os democratas portugueses encontraram refúgio no Brasil. 
Mesmo depois da revolução em Portugal os democratas brasileiros encontram refúgio em Portugal. 
Mas Portugal e Brasil nunca esfriaram as suas relações. 
Qualquer que seja o regime, qualquer que seja o governo, qualquer que seja a orientação política, Portugal e Brasil têm sempre uma relação de amizade. 
Esta é a relação que temos com todos os outros países de expressão lusófona, e é assim que temos de ter também relativamente a relação com Angola. 
Sempre me fez muita impressão esta ideia de que há governos com quem a relação é boa e governos com quem a relação é má. 
Não. 
As relações têm sempre problemas, mas assentes na amizade, na confiança, no respeito mútuo e na igualdade de tratamento conseguimos ir resolvendo os problemas. 
Quando não há problemas também não é preciso os governos meterem-se, porque isso os cidadãos, os agentes culturais, os agentes económicos fazem-no por si. 
A relação. 
A língua comum permite-o, o conhecimento mútuo e a afetividade ajudam.

Angola faz da língua portuguesa um dos pilares da sua identidade nacional. E não o faz por causa de Portugal, faz por ela. Consolidando a língua no seu território e expandindo-a - hoje a língua portuguesa tem cada vez mais falantes na República Democrática do Congo, na Zâmbia e na Namíbia, esse papel angolano é de todo o interesse de Portugal. Leva alguma proposta para ajudar Angola a ancorar-se ainda mais na nossa língua comum?

Nesta viagem vamos relançar a nossa cooperação estratégica. 
Vai ser todo um novo programa estratégico de cooperação, que vai assentar nas áreas tradicionais, como a saúde, como a educação - onde a língua tem um papel fundamental. Esta viagem vai abrir novas áreas - no domínio da soberania, da cooperação técnico-militar, da cooperação técnico-policial e da cooperação tributária, mas a língua é sempre uma mais-valia. 
Não é só uma mais-valia para Portugal, como disse, e bem. 
É uma mais-valia para todos e para cada um dos países lusófonos. 
Para aqueles quem a língua é no fundo um fator de unidade nacional e é sobretudo de podermos partilhar e enriquecer diariamente em conjunto uma língua que é falada em quatro continentes. 
E é uma das línguas globais e do futuro.






















A política do visto obrigatório entre os dois países varia segundo os interesses de momento de cada um deles. Quando Portugal emigra mais, quer restrições mais suaves; quando Angola recebe mais emigrantes, quer restrições mais apertadas. Não é hora de os dois países falarem dos vistos com vistas mais largas?

Nós apresentámos uma proposta, no quadro da CPLP, e que formalizámos em conjunto com Cabo Verde, para haver um acordo de livre residência entre os diferentes países da CPLP. Nós enquanto país membro da União Europeia estamos sujeitos à política comum de vistos. Mas relativamente às autorizações de residência não há política europeia e, portanto, gozamos de liberdade nessa matéria. 
E quem tem liberdade de residência está dispensado de visto. 
Nós temos agilizado muito os vistos, designadamente para quem é viajante frequente e, portanto, está no mundo dos negócios, para estudantes universitários, para agentes do poder político, por questões de saúde, etc. 
Mas está na hora de, não só na relação entre Portugal e Angola, mas no âmbito do conjunto da CPLP, de desenvolver este pilar da cidadania. 
E a melhor forma de cada um dos cidadãos dos países membros da CPLP se sentir parte de uma comunidade é poder circular entre uns e outros. 
Estes anos de experiência têm permitido eliminar muitos dos mitos. 
Quando tivemos esta crise profundíssima e vimos muitos engenheiros portugueses a ter dificuldades em ver os seus títulos reconhecidos, por exemplo, no Brasil, espero que tenhamos percebido o disparate que andámos a fazer com os dentistas brasileiros!

Aprender com os erros..

É que esta comunidade de língua é uma válvula de segurança para todos os nossos nacionais e para que as situações mais dramáticas de crise se possam atenuar em cada um dos países. 
A liberdade dos portugueses de poderem partir para Angola, para Cabo Verde, para São Tomé, para o Brasil, nas épocas de dificuldades económicas aqui. 
E a liberdade de podermos acolher, aqui, nas épocas de expansão económica, como a que estamos a viver, em que precisamos de atrair mão-de-obra, termos quadros que possam vir, de qualquer um dos países lusófonos, e aqui se instalarem em igualdade de direitos. 
É absolutamente fundamental. 
Foi com muita satisfação que vi na sessão de enceramento da última cimeira da CPLP o presidente João Lourenço, no seu discurso, apoiar a necessidade de a CPLP aprofundar este trabalho. 
E tenho esperança de que na presidência angolana da CPLP, em 2020, sejam dados passos decisivos para que se criem condições para uma circulação fluida entre nós.






















Dos seus dois dias de encontro ao mais alto nível em Luanda, o que poderemos esperar em decisões?

Vamos ter, seguramente, um avanço do novo acordo estratégico de recuperação. 
Vamos assinar acordos muito importantes para as parcerias económicas, como o acordo para evitar a dupla tributação, o que é essencial para facilitar os investimentos angolanos em Portugal e dos portugueses em Angola. 
E vamos alargar as linhas de crédito a Angola e, seguramente, também ter avanços nas questões relativas ao pagamento de dívidas, que se acumularam.

O senhor é filho de um goês, que nasceu em Moçambique, Orlando Costa, que é um filho do império português e foi um anticolonialista... António Costa, o que lhe evoca, a si, pessoalmente, ir agora a Angola? O que foi no seu imaginário, na sua vida, Angola?

Já tive oportunidade de ir por diversas vezes a Angola. 
Mas é evidente que não posso ignorar a minha própria história particular e o facto de o meu pai ter sido um militante anticolonialista, ter convivido com grande parte dos iniciadores das lutas de libertação, da Casa dos Estudantes do Império... 
De ter um primo que foi general da Frelimo, o Sérgio Vieira... 
De o presidente Agostinho Neto e de Mário Pinho Andrade terem sido amigos do meu pai... E de eu ter brincado, em miúdo, com os filhos do Lúcio Lara... 
Obviamente tudo isso é uma circunstância especial que me dá, porventura, uma facilidade de leitura daquilo que é a realidade entre os nossos países. 
E perceber bem que essa luta pela independência foi uma luta gémea pela libertação do nosso país também.

Costa anuncia 1500 milhões para linha de crédito às exportações com Angola

DIPLOMACIA
DN/Lusa     17 Setembro 2018 — 13:24
O primeiro-ministro encontrou-se esta manhã com os empresários portugueses que trabalham em Angola

O primeiro-ministro anunciou esta segunda-feira, em Luanda, que o Governo português vai aumentar a linha de crédito de apoio às exportações para Angola de 1000 para 1500 milhões de euros, medida que considerou enquadrar-se na "solidez" das relações políticas luso-angolanas.

António Costa, que cumpre o primeiro dia de visita a Angola, fez o anúncio no início de uma reunião com empresários portugueses com investimentos no mercado angolano, num discurso marcadamente económico, mas em que também falou de "emoção" e "paixão" sempre presente nas relações luso-angolanas

"Vamos aumentar a linha de crédito de apoio às exportações dos atuais 1000 para os 1500 milhões de euros. 
Esta linha de crédito ampliada a renovada é um sinal muito importante da vontade dos dois países continuarem a estreitar as suas relações económicas", declarou o primeiro-ministro.

Perante os empresários portugueses, o líder do executivo defendeu a tese sobre a necessidade de novos objetivos e, por outro lado, de os diferentes agentes no terreno "não se cingirem ao que têm feito" em termos de cooperação.
"Da parte de Portugal, creio que não há com nenhum outro país, em qualquer continente, uma relação tão intensa como temos com Angola, assente nos laços individuais que se foram estabelecendo. Como todas relações intensas marcadas pela paixão, muitas vezes essas relações são também emotivas"
"Há ainda muito para fazer no futuro. 
Com a assinatura do novo acordo estratégico para a cooperação (2018/2022) vamos além dos domínios tradicionais da saúde e da educação. 
Alargaremos a cooperação a áreas de soberania como a defesa, a colaboração técnica policial ou a administração tributária", especificou.

Para António Costa, os passos agora dados "traduzem que as relações políticas entre Portugal e Angola não só estão boas, como estão sólidas e com grande perspetiva de se poderem aprofundar ao longo dos próximos anos".

"Da parte de Portugal, creio que não há com nenhum outro país, em qualquer continente, uma relação tão intensa como temos com Angola, assente nos laços individuais que se foram estabelecendo. 
Como todas relações intensas marcadas pela paixão, muitas vezes essas relações são também emotivas. 
Mas, como sabemos, sem emoção não há uma boa relação", advogou.

Ainda neste capítulo da sua intervenção, o primeiro-ministro defendeu que, no âmbito da relação entre África e União Europeia, Portugal e Angola encontram-se em posição privilegiada.

"As relações políticas são essenciais, mas é absolutamente indispensável que o relacionamento humano, com a presença constante de quem aqui trabalha e investe, continue a construir a aprofundar as nossas relação com Angola", afirmou, numa nova mensagem dirigidas à comunidade empresarial portuguesa radicada em Luanda.

Marcelo considera que visita de Costa a Angola é "ocasião única"

DIPLOMACIA
DN/Lusa    17 Setembro 2018 — 15:17

Marcelo disse estar otimista quanto ao retomar das relações entre Portugal e Angola

O Presidente da República reconhece que houve "um compasso de espera" no relacionamento entre os dois países mas está otimista quanto ao futuro. 
E considera que este é o momento para relançar as relações bilaterais, basta que portugueses e angolanos entendam isso

O Presidente da República disse esta segunda-feira que a visita do primeiro-ministro português a Angola é uma "ocasião única" para um entendimento entre os dois países.

"Acho que esta é uma ocasião única. 
Não é por acaso que o primeiro-ministro está lá [Angola] agora e daqui a dois meses estará cá o Presidente de Angola", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa, em declarações aos jornalistas.






















António Costa, ainda em traje informal, esta manhã à chegada a Luanda foi recebido pelo ministro das Relações Exterior de Angola, Manuel Augusto

Falando em Celorico de Basto, distrito de Braga, à margem da inauguração da remodelação da escola secundária daquele concelho, o Presidente sublinhou que a deslocação de António Costa a Luanda "quer dizer que há uma vontade muito grande de estabelecer um entendimento, uma parceria estratégica, essencial para a posição portuguesa no mundo e essencial para a posição angolana no mundo".

"Este é o momento. Isso passa pela economia, finanças, problemas sociais, pelo entendimento político e passa muito pela educação. Passa muito por os portugueses e os angolanos acreditarem nisto, acreditarem nesta comunidade", reforçou.

Questionado se os últimos anos de dificuldades nas relações entre os dois países representaram um atraso, Marcelo reconheceu ter havido "um compasso de espera".

"Eu sou um otimista. Houve aqui, de facto, um compasso de espera, agora temos de recuperar, acelerando aquilo que é preciso acelerar e há muito que deve ser acelerado", defendeu.

O primeiro-ministro, António Costa, chegou esta segunda-feira a Luanda para uma visita oficial de dois dias a Angola, durante a qual procurará retomar rapidamente os níveis anteriores a 2014 nas relações económicas e normalizar os contactos bilaterais político-diplomáticos.

Esta visita oficial do primeiro-ministro a Angola acontece após um período de impasse político entre os dois países, depois de a justiça portuguesa ter constituído como arguido o antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente.

Só na sequência da decisão judicial de transferir o processo de Manuel Vicente para Luanda, em maio passado, é que as visitas de alto nível de Estado deixaram de estar suspensas por determinação do Governo angolano.

António Costa está em Luanda para "pensar o futuro"

DIPLOMACIA
Lusa   17 Setembro 2018 — 12:02

Primeiro ministro português viajou até à capital angolana para discutir acordo de dupla tributação, renovação da linha de crédito e refletir sobre o futuro dos dois países

Costa em Angola: o passado ficou no museu, o que conta é o futuro

DIPLOMACIA
DN/Lusa     17 Setembro 2018 — 12:12


O chefe do Governo português está em Luanda para relançar uma nova era nas relações bilaterais entre os dois países: o que começará com um novo acordo de cooperação estratégica e o fim da dupla tributação
O primeiro-ministro afirmou esta segunda-feira que o passado nas relações luso-angolanas ficou no museu e que os dois países se preparam para fechar um novo acordo de cooperação estratégica, num sinal de confiança em relação ao futuro.

Palavras proferidas por António Costa no primeiro ponto do programa oficial da deslocação de dois dias a Angola, depois de ter visitado o Museu Nacional de História Militar na Fortaleza de Luanda.


"Vamos assinar o Acordo de Cooperação Estratégica para os próximos anos e vamos dar um sinal de confiança para o aprofundamento das nossas relações económicas", declarou o líder do executivo nacional, num momento em que estava ladeado pelos ministros angolanos Manuel Domingos (Relações Exteriores) e Salviano Sequeira).

Perante os jornalistas, António Costa referiu que a sua visita "começou precisamente no Museu de História Militar".

"Pode significar que o passado ficou no museu e que agora compete-nos construir o futuro - é nesse futuro das relações entre Portugal e Angola que temos de estar focados. 
Esta visita é um momento muito importante, conjuga-se com a visita de Estado que o Presidente da República de Angola, João Lourenço, efetuará a Portugal em novembro", sustentou o primeiro-ministro.

Segundo António Costa, verifica-se agora, após um período de crise, com a quebra dos preços do petróleo nos mercados internacionais, que Angola "vive uma nova fase auspiciosa, procurando diversificar a sua base económica, o que é útil para os dois países".

Nas relações luso-angolanas, além do Acordo Estratégico de Cooperação (2018/2022), o primeiro-ministro destacou também a assinatura da convenção para o fim da dupla tributação nas transações entre os dois países e um novo acordo aéreo para aumentar as ligações entre os dois países.

"Serão passos importantes para construirmos o futuro", advogou.

Pagamentos em atraso
Interrogado sobre o processo de regularização de pagamentos em atraso a empresas portuguesas que investiram no mercado angolano, que envolverá no mínimo entre 400 e 500 milhões de euros, o líder do executivo referiu que "esse é um trabalho em curso".


"Tem havido sinais muito positivos do empenho de todos em ultrapassarmos situações difíceis. 
Os últimos dez anos têm sido muito turbulentos na economia mundial", observou.
António Costa e o o tenente-general angolano, Silvestre Francisco, durante a visita à Fortaleza de Luanda

Neste contexto, António Costa referiu-se ao período de assistência financeira externa a Portugal, com a troika, entre 2011 e 2014, apontando que muitas empresas nacionais "encontraram no mercado angolano uma prosperidade que não tinham no país".

"O que é muito claro, para mim, é que há entre os dois países um sistema de vasos comunicantes. Cada vez que há um problema num dos lados, a melhor forma é a solidariedade entre todos", defendeu.

Para o primeiro-ministro, a questão essencial relativa à regularização de pagamentos em atraso "passa pela existência de um bom clima de negócios que dê confiança e estabilidade, permitindo a todos recuperarem o dinheiro que têm a recuperar e ajudarem ao desenvolvimento das economias angolana e portuguesa".

"O maior desafio deste século é o das relações entre os continentes africano e europeu, onde Portugal e Angola têm especiais obrigações, mas, também, ótimas condições para darem um contributo positivo", acrescentou.