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sábado, 24 de fevereiro de 2018

As instruções do BCE para “congelar” depósitos


OPINIÃO
Ricardo Cabral
22 de Fevereiro de 2018, 6:2
Ricardo Cabral
A questão é que o BCE não pode dar tal instrução que não está enquadrada por legislação europeia.

Esta segunda-feira, o BCE “instruiu” o supervisor bancário da Letónia para impor uma moratória aos passivos de um dos maiores bancos desse país, o banco ABLV, tendo divulgado publicamente essa “instrução”.

O interessante do caso é que, pese embora a vontade do BCE expressa em várias instâncias, em possuir mais esse poder e autoridade quase sem limitações ou restrições sob o risco de perda de eficácia, a verdade é que a proposta da atribuição ao BCE de poderes de moratória em relação aos passivos de um banco (leia-se, depósitos bancários) está em discussão e ainda não foi aprovada pelas instituições europeias, nomeadamente, pelo Parlamento Europeu.  

É certo, a lei da Letónia que desconheço poderá dar tais poderes à autoridade de supervisão nacional da Letónia, ou o Governo da Letónia poderá ter aprovado uma resolução que enquadre tal moratória no entretanto. 
Porém, a questão é que o BCE não pode dar tal instrução que, como se referiu, não está enquadrada por legislação europeia.

Mas enfim, esse será um “insignificante” pormenor para Danièle Nouy, presidente do Mecanismo Único de Supervisão do BCE, a mesma responsável que num e-mail num sábado de manhã de Dezembro de 2015 “instruiu”  o Ministro das Finanças de Portugal que nem valeria a pena perder tempo a procurar outro comprador para o Banif, depreende-se, porque a decisão de “vender” o Banif ao Santander por zero euros já estava tomada pelas autoridades europeias.

Em 2015, uma corrida que quase pareceu organizada, prostrou o Banif com o Governo de Portugal a deixar a hemorragia acontecer à sua frente. 
Em 2017, uma corrida aos depósitos fez o mesmo ao Banco Popular espanhol e a crise da Catalunha deverá ter colocado dois outros grandes bancos espanhóis sob intensa pressão. Em Itália, algo similar aconteceu com três bancos italianos, em dois processos que resultaram  numa factura de 26 mil milhões de euros para o erário público italiano. 
E, em Chipre e na Grécia continuam ainda hoje em vigor as moratórias aos levantamentos de depósitos impostas há já vários anos.

Desta feita, no âmbito de uma proposta de acusação de 13 de Fevereiro, o Departamento de Tesouro dos EUA identifica o banco ABVL da Letónia como associado a lavagem de dinheiro de entidades relacionadas com o Governo da Coreia do Norte. 
Note-se que esta proposta de acusação ainda não é definitiva, estando em fase de contraditório e que o banco visado nega as acusações.

Mas a proposta de acusação do Departamento do Tesouro dos EUA, dado o “insatisfatório” regime de resolução bancária existente na Zona Euro, precipitou uma corrida aos depósitos do ABVL.

No caso vertente o BCE reage, de novo, de forma ad-hoc. 
Ao constatar a fuga de depósitos no ABVL, instruiu as autoridades da Letónia a aplicar uma moratória, que afectará os depósitos, depositantes e a confiança no sistema bancário da Letónia, tanto mais que o Governador do Banco Central da Letónia estará fragilizado com uma investigação policial sob suspeita de corrupção.

O leitor coloque-se na posição de um depositante desse banco da Letónia, que de repente se vê sem acesso aos seus depósitos porque o Departamento do Tesouro dos EUA acha que o seu banco estará a ajudar a Coreia do Norte? 
Não lhe parece arbitrário e desproporcional?

Mais um exemplo que sugere que o excesso de poderes do BCE sobre os bancos que supervisiona constitui factor de instabilidade no sistema financeiro da Zona Euro. 
Quantos bancos terão de encerrar, quantos depositantes terão de perder poupanças e quanta actividade económica terá de ser destruída antes de se alterar este estado de coisas?

Economista

Governador do Banco Central da Letónia detido por corrupção

LETÓNIA
Público
19 de Fevereiro de 2018, 12:46
























Advogados de Ilmars Rimsevics, que faz parte do conselho de governadores do BCE, dizem que detenção foi ilegal. 
Tesouro dos EUA acusa um dos principais bancos do país de lavagem de dinheiro.

O governador do Banco Central da Letónia, Ilmars Rimsevics, é suspeito de ter solicitado um suborno e, por isso, foi detido no sábado por ordem da agência nacional anti-corrupção. Nesta segunda-feira foi libertado depois de pagar fiança.

O Governo letão está reunido de emergência, para decidir se forçará a demissão de Rimsevics.

Rimsevics, que é governador do Banco Central letão desde 2001, e está também representado conselho de governadores do Banco Central Europeu (BCE), terá pedido um suborno de cem mil euros, revelou esta segunda-feira o chefe do Gabinete de Prevenção e Combate à Corrupção, Jekabs Straume, numa conferência de imprensa.

Apesar de ainda não ter sido formalmente acusado, o lugar de Rimsevics parece estar a prazo. 
Durante o fim-de-semana, o primeiro-ministro Maris Kucinskis sugeriu que a demissão seria a melhor solução , tal como o Presidente, Raimonds Vejonis.

A ministra das Finanças, Dana Reizniece-Ozola, apontou-lhe o mesmo caminho: "Dado que o governador do Banco Central é um símbolo do país, Rimsevics devia demitir-se", afirmou.

O advogado de Rimsevics diz que o seu cliente foi detido de forma "ilegal". 
O governador foi detido no sábado, depois de a polícia ter feito buscas na sua residência e no seu escritório. 
Pode ficar detido durante 48 horas - o prazo legal termina esta segunda-feira. 

A Letónia adoptou o euro em 2014 e, a partir daí, o governador do Banco Central letão passou a ter assento no conselho do BCE, composto pelos 19 governadores dos bancos centrais da eurozona. 

A detenção do governador do Banco Central acontece num momento sensível na banca letã. 
O terceiro banco mais importante do país, o ABLV, foi acusado na semana passada pelo Departamento do Tesouro dos EUA de lavagem de dinheiro, num momento em que o ABLV precisa de um resgate. 

O Governo norte-americano acusa o banco letão de viabilizar negócios entre os seus clientes e instituições norte-coreanas, alvo de sanções financeiras por parte das Nações Unidas. 
"O ABLV institucionalizou a lavagem de dinheiro como um pilar das suas práticas bancárias", concluiu a Financial Crimes Enforcement Network, que integra o Tesouro norte-americano.

Desde a acusação, a liquidez do ABLV caiu substancialmente, obrigando a uma suspensão temporária de todos os pagamentos por ordem do Banco Central Europeu. 
Mesmo com o governador detido, o Banco Central da Letónia decidiu conceder um financiamento de 97.5 milhões de euros ao ABLV, diz a Reuters, embora não tenham sido avançados pormenores sobre o acordo.

O Governo reuniu de urgência esta segunda-feira de manhã, mas as autoridades locais garantem que a detenção do governador do Banco Central não está relacionada com o caso do ABLV.

Governo aponta o dedo à Rússia pela crise que assola o país

LETÓNIA
Público
21 de Fevereiro de 2018, 11:20


























Impendem sobre o governador do Banco Central da Letónia, Ilmars Rimsevics, acusações de corrupção. Este recusou demitir-se dizendo-se "inocente"

O Governo da Letónia está a braços com uma crise financeira e de credibilidade, depois da detenção por umas horas do governador do banco central e do resgate a um dos principais bancos do país, e acredita que esta crise tem dedo russo.

Sem nunca nomear a Rússia, o ministro da Defesa, Raimonds Bergmanis, diz que está em curso uma campanha para prejudicar a Letónia, tendo como objectivo influenciar as eleições em Outubro.

"Existe uma grande probabilidade de que exista uma grande operação de informação generalizada, organizada no exterior e  que, pela sua estrutura e execução, é idêntica à que foi observada no período pré-eleitoral nos Estados Unidos", escreveu o ministro numa declaração por escrito, citado pela Bloomberg.

De acordo com a imprensa local, o Governo letão relaciona os problemas daquele país com o modus operandi da Rússia, ao recordar, por exemplo, a relação próxima entre o governador do banco central e um empresário russo - aparecem numa fotografia divulgada recentemente. 

Um deputado letão considera que a ideia da Rússia é prejudicar aquele pequeno estado europeu. 
"Eles vêem que a situação está quente e mandam mais achas para a fogueira", disse, citado pela Bloomberg.

Governador diz que é inocente

A situação agudizou-se esta semana com as suspeitas de corrupção que recaem sobre o governador do Banco Central da Letónia, Ilmars Rimsevics. 
Governador desde 2001, Rimsevics tem assento no Banco Central Europeu desde que a Letónia aderiu ao euro, em 2014.

O governador foi detido na segunda-feira sob suspeitas de ter pedido um suborno de cem mil euros e acabou por sair sob fiança, mas continua oficialmente no cargo apesar da pressão do Governo para que se demita.

"Sou inocente", afirmou numa conferência de imprensa na terça-feira. 
Rimsevics recusou demitir-se e afirmou que está a ser vítima de uma conspiração.

BCE deixa cair o terceiro maior banco da Letónia

ZONA EURO
Liliana Valente e Lusa
24 de Fevereiro de 2018, 13:50
Draghi diz que não é do interesse público resgatar banco ABLV

Regulador europeu retirou o financiamento ao banco ABLV e não defende resgate. BCE acredita que banco está a falir e que não conseguirá fazer face às suas dívidas.

O Banco Central Europeu (BCE) decidiu este sábado cortar o financiamento ao ABLV, um banco letão que tem estado no centro do debate político naquele país e que está à beira de falir. 
Num comunicado desta manhã, a instituição liderada por Mario Draghi anunciou o fim da garantia europeia, negando um "bailout" ao banco, por considerar não ser do interesse público.

"Devido à significativa deterioração da sua liquidez, o banco provavelmente não conseguirá pagar as suas dívidas ou outras responsabilidades quando chegar o prazo" em que tem de o fazer, lê-se no comunicado do BCE.

A tomada de posição do BCE surge na sequência de suspeitas que o banco serviria para operações de lavagem de dinheiro em benefício de empresas com relações com a Coreia do Norte. 
As autoridades financeiras norte-americanas acabaram por colocar o ABLV na lista negra de entidades que praticavam lavagem de dinheiro, o que provocou uma corrida aos depósitos. 
Ora, tendo em conta esta situação, o BCE acredita que o banco não tinha liquidez necessária para fazer face à procura e deixa agora cair a instituição bancária, que é a terceira maior da Letónia.

Além do corte ao financiamento, o BCE decidiu que este banco não deve ser salvo, "uma vez que não é do interesse público". 
Contudo, os depósitos até 100 mil euros estão garantidos pelo fundo de garantia europeu.

De acordo com a agência de informação financeira Bloomberg, durante uma reunião na quarta-feira, o presidente do BCE, Mario Draghi, queixou-se aos seus pares de falta de informação por parte das autoridades da Letónia, e mantém o silêncio sobre os vários escândalos que têm afetado o sistema financeiro da Letónia nas últimas semanas.

O Governo da Letónia tem estado a braços com uma crise financeira e de credibilidade, depois da detenção por umas horas do governador do banco central, suspeito de ter recebido subornos num caso não relacionado com o ABLV. 
O Executivo acredita que esta crise tem interferência russa.

liliana.valente@publico.pt