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sexta-feira, 29 de julho de 2016

Execução orçamental de junho. Brincar com coisas sérias

Execução orçamental de junho. Brincar com coisas sérias
Luís Teles Morais e Henrique Lopes Valença
                                    29 Julho 2016




















Talvez fosse melhor Governo e oposição concentrarem-se nas desilusões do investimento, do crescimento e das exportações e menos em sanções e em brincadeiras com os números do défice.


Estava tudo a pensar nas sanções
Ponto prévio: perdoar-nos-á o leitor que usemos um tom algo mais ligeiro do que o habitual, nesta última análise antes de férias. 
Mas não o tome, nem o título, como alguma alusão velada à gestão das finanças públicas, este ano. 
Achamos que não é o caso.

Mas hoje não conseguimos conter este bom(?) humor, depois da grande vitória conseguida a 27 de julho, no último fôlego do prolongamento, em mais um campeonato europeu que apaixonou o país. 
Será que foi Carlos Moedas que se descobriu Eder? 
Ou terá sido mestria tática do “mister” António Costa? 
“Não interessa, não interessa, se jogamos bem ou mal…”

De resto, é também devido à novela sancionadora que só hoje lançamos a nossa análise, pois a nossa estimativa aguardava a confirmação do respetivo valor.


No Ministério também se brinca (mas não com coisas sérias)
Vamos aos números: neste primeiro semestre, o défice das Administrações Públicas, em contabilidade pública, cifrou-se nos 2.867 milhões de euros, uma redução de 971 milhões (cerca de um quarto!) em relação ao mesmo período de 2015. 
Fantástico!

No entanto, o resultado do mês de junho foi negativo em quase 2.500 milhões de euros, já que em maio o défice se situava em apenas 395 milhões (um aumento de 633%!). 
Venha o segundo resgate! 
Ainda assim, foi bastante melhor do que em junho de 2015, em que o défice atingiu 3.000 milhões de euros. 
Então, em que é que ficamos?

Na verdade, estas variações bruscas do défice, de mês para mês, não surpreendem dadas as tendências dessincronizadas da receita e da despesa – mais ainda mais se falamos de contabilidade de caixa. 
Reforçam o que vimos dizendo (aqui) sobre como faz pouco sentido utilizar o défice mensal para tirar grandes conclusões sobre a situação orçamental, algo com que o discurso oficial tem brincado bastante nos últimos meses.


Se tem pouco tempo, passe diretamente para esta secção
A análise destes dados não se pode ficar por comparações homólogas: a boa execução mede-se em relação às previsões do Orçamento do Estado (OE). 
Isto, que é também um cruel exercício de avaliação da qualidade das (difíceis) previsões, é o que nos permite tentar perceber se as metas serão ou não atingidas.

Este mês, com os dados completos do primeiro semestre, e embalados por esta dinâmica de vitória, arriscamos pela primeira vez uma previsão para o défice no final do ano. 
Esta tem limitações significativas, próprias da metodologia aqui utilizada, mas o histórico é razoável: por exemplo, a nossa previsão com os dados de junho de 2015 acertou “na mouche”, excluindo o efeito Banif (3% segundo o Conselho de Finanças Públicas, CFP). Mas foi também sorte, certamente, por isso tome o que se segue “com uma pitada de sal”.

Parece difícil que se atinja o objetivo do Orçamento (em contabilidade pública, de 2,9% do PIB). 
Mas isso, apostamos consigo que em 2026 também acontecerá. 
Uma previsão mais interessante é esta: achamos provável que o défice se situará, no final do ano, entre os 3,4% e os 3,6% (sublinhamos: em contabilidade pública).

Isto significa [1] que o défice que interessa, em contabilidade nacional, se situaria entre os 2,7% e os 2,9% – bem acima da previsão do Governo, algo abaixo da previsão da Comissão Europeia; abaixo do limite dos défices excessivos (3%), mas acima da meta proposta ontem (2,5%) pela mesma Comissão (pois, é que entre a previsão dos serviços da Comissão e a meta proposta pela própria Comissão, vão quilómetros de corredores climatizados).

Se acertássemos no desvio que estimamos hoje, o défice ficaria em 2,8% – um decréscimo face a 2015 (ligeiro sem BANIF, substancial incluindo-o). Mas virá este gráfico a ter mais um retângulo de cor diferente? (Clique sobre o gráfico para aumentar)






























Sem surpresa, este potencial desvio na ordem dos 0,5 a 0,7 pontos percentuais baseia-se fundamentalmente na evolução fraca da receita dos principais impostos (principalmente, IVA e IRC). 
Destaca-se, também, o que começa a parecer alguma suborçamentação das despesas com o pessoal.

Dois grandes desvios num mar de pequenas boas notícias deverão fazer afundar um pouco o défice (Clique sobre o gráfico para aumentar)










Deixem lá os fantasmas da dívida não-financeira…
Tem sido propalada a ideia – pela oposição e na opinião pública – de que a “boa” execução do lado da despesa se deve, em parte importante, ao crescimento da dívida não-financeira e, mais concretamente, aos pagamentos em atraso. 
É a ideia de uma bomba-relógio “como a ostra que esconde a pérola aos viveiros” (com a devida vénia), emulando as tristes figuras de 2009/10, completamente diferentes na revisão final face ao que então aparecia na execução.

Por nós, não acreditamos em fantasmas. 
Reembolsos de IRS? 
Só têm efeitos, no máximo, entre meses do ano. 
Fundos europeus? 
A quebra parece ter correspondência na receita. 
Houve um aumento, sim, da dívida a fornecedores. 
Mas este é de dimensão relativamente pequena (tal que continua a ser inferior à registada há um ano). 
Não há razões para achar que possa haver muito a ser “maquilhado” dessa forma, nada que vá justificar uma má surpresa, das grandes, mais à frente.

A dívida a fornecedores subiu pelo segundo mês consecutivo, mas está abaixo do registado há um ano (Clique sobre o gráfico para aumentar)























Nem podia haver. 
É que no âmbito do Programa de Assistência, os pagamentos em atraso foram alvo de grande atenção por parte da “troika” – em princípio, precisamente por aquilo que tinha acontecido um ano antes da sua chegada. 
E, assim, entre as primeiras medidas no PAEF estavam as relacionadas justamente com o controlo dos mecanismos geradores de dívida não-financeira.


Essas medidas desembocaram em melhor controlo da informação, que se revela, por exemplo, nas sínteses da execução orçamental, mas também em legislação mais apertada, destacando-se aqui a Lei dos Compromissos e Pagamentos em Atraso aprovada pela Assembleia da República logo no primeiro ano do PAEF (entretanto já vigora uma nova versão).


… mas talvez seja boa ideia levar os Ghostbusters ao hospital
Há uma exceção à não-questão da dívida a fornecedores: os Hospitais EPE (Entidade Pública Empresarial). 
Não tanto (para já?) pela sua dimensão. 
Mas a retoma de uma tendência que parecia finalmente debelada sugere que os problemas institucionais e de gestão que induzem o crescimento desta dívida não foram ainda resolvidos. [2]

Retome o gráfico acima. 
Olhe-o muito fixamente, focando intensamente as linhas cheias e a tracejado ao mesmo tempo (esta parte é importante), com muita atenção. 
Ao fim de alguns segundos, em princípio, vão aparecer-lhe (pelo menos) três fantasmas!

São eles: 
i) o aumento nos últimos dois, três meses dos pagamentos em atraso deve-se quase exclusivamente aos ditos hospitais (veja-se como a subida da dívida global corresponde quase integralmente à destes); 
ii) o valor dos pagamentos em atraso dos Hospitais em junho já ultrapassou o valor mais elevado atingido durante 2015 (ao contrário do que acontece com o global); 
iii) embora o peso desta dívida seja sempre grande, em nenhum momento dos últimos dois anos esta representou uma “maioria absoluta” dos pagamentos em atraso, como acontece agora.


Assumindo (até porque a própria Direção Geral do Orçamento o refere) que será feito um esforço no sentido de regularizar estas dívidas ao longo do segundo semestre, incluímos na nossa estimativa (limite superior) um efeito adicional (o efeito Ghostbusters?) na aquisição de bens e serviços. 
Assumimos que terá lugar uma redução desta dívida até ao final do ano, até ficar com o mesmo valor que tinha em dezembro de 2015. 
De qualquer forma, a diferença acaba por ser de dimensão relativamente reduzida (pouco mais de 200 milhões de fantasmas).


Narrativas pouco cativantes
Apesar de estarem a ser muito discutidas, as cativações não influem de forma importante num exercício como este. 
Os montantes correspondentes já estão considerados quer nos dados históricos e atuais da execução, quer (embora com algumas diferenças na sua classificação) nas metas do Orçamento.

Mas mesmo num plano mais geral – e tendo em conta o histórico recente de utilização quase integral das cativações e reservas – constituem sobretudo uma ferramenta de gestão orçamental ou, talvez melhor, de resolver problemas de má gestão orçamental (algo para que a UTAO e o CFP já estarão cansados de advertir).

Funcionam mais como um instrumento que permite ao Ministério das Finanças (ME) de forma administrativa impor um maior controlo sobre a despesa, dando-lhe capacidade de, se necessário, negar aos serviços uma determinada parte dos fundos estabelecidos no Orçamento e, no mínimo, obrigá-los a justificar explicitamente a necessidade da sua utilização.

Daquilo que conseguimos apurar, os famosos “cativos” (referidos por exemplo na recente carta do Ministro à Comissão) referem-se sobretudo a uma parte da despesa em consumo intermédio (196,6 milhões de euros), que embora esteja contabilizada como tal no OE, faz parte da reserva orçamental, e como tal depende de autorização do MF para poder ser “descativada” (i.e. poder ser utilizada).

Depois existe o remanescente da reserva orçamental (257,4 milhões de euros), e ainda a dotação provisional (542,8 milhões de euros). 
Todos estes montantes estão centralizados no Ministério das Finanças e, de acordo com a informação mais recente, não têm de facto sido utilizados, embora não seja crível que tal se mantenha assim.

Outra referência que tem surgido é a “cativação” dos valores referentes à reposição salarial (447 milhões de euros). 
Mas (segundo o CFP) este valor, embora esteja centralizado no Ministério das Finanças e necessite de autorização para ser utilizado, já está contabilizado na despesa com o pessoal.


Segundo uma notícia do início deste mês, não tinha ainda sido utilizado qualquer montante desta parte. 
Mas – até considerando a evolução complicada da despesa com o pessoal – sê-lo-á certamente até ao final do ano. 
De resto, é natural que os serviços só recorram a ele quando “se acabar” a disponibilidade já existente para pagamentos ao pessoal. 
Mais uma vez, trata-se apenas de um mecanismo para facilitar o controlo da despesa por parte do MF. 
Força e coragem, são os nossos votos para quem no MF ficar responsável por tratar a enxurrada de pedidos que irá por certo cair, lá para outubro.


Receita fiscal: os grandes desiludem, os pequenos ajudam como podem
A receita fiscal do subsetor Estado aumentou 3,2% face ao primeiro semestre de 2015. Nada mau, mas tendo em conta o aumento de 5,4% previsto no Orçamento, fica bastante aquém do necessário. 
A receita dos principais impostos (sobretudo, IVA e IRC) poderá revelar-se o verdadeiro calcanhar de Aquiles da execução orçamental.

Este resultado não é surpreendente, já que a receita fiscal é um dos elementos que mais depende da evolução da atividade económica. 
E, por isso, apesar dos melhores esforços do Governo, a sua execução é bastante influenciada pelas divergências entre as previsões e a realidade depois observada.

Enquanto o Orçamento previa um crescimento real do PIB de 1,8% para 2016, os dados do primeiro trimestre do INE apontam para um crescimento homólogo de 0,9%. 
Esta dissonância entre o crescimento previsto e o observado poderá ser confirmada quando forem conhecidas as estimativas rápidas do INE para o segundo trimestre de 2016, mas é certo que ficará aquém (a Comissão, aqui mais simpática, ainda prevê 1,5%).

Mas se até aqui só o IVA e o IRC davam dores de cabeça ao Governo, face ao registado até ao mês anterior, há más novidades adicionais. 
Dizem respeito ao IRS e ao Tabaco.

No IRS, para o qual o OE já previa uma descida em 2,4% (por força da eliminação parcial da sobretaxa), o aumento dos reembolsos em junho (mais 125 milhões de euros do que em 2015) foi o suficiente para que se tenha registado uma queda homóloga de 3%. 
Nos próximos meses avaliaremos se se trata meramente de uma alteração do perfil temporal dos reembolsos, que será suavizada ao longo do tempo. 
Mas parece que se terá esfumado o desvio positivo que se antevia neste imposto.

Já o Imposto sobre o Tabaco continua a prometer arrecadar mais receita que o previsto no OE. 
Mas se antes parecia fumo de jato, começa a ver-se um ritmo mais vaporoso: até abril, a receita era o dobro do mesmo período de 2015, em maio, mais 75%, e em junho voltou a descer: agora temos mais 52,9%. 
Se o ano acabasse agora seria ótimo, mas a este ritmo começa a estar em causa se o aumento de receita previsto no Orçamento, de 22%, será atingido.

Importa lembrar que este abrandamento se deve à já famosa “baixa introdução no consumo do início do ano” – os comerciantes esgotaram, primeiro, o tabaco adquirido ainda com a estampilha correspondente à taxação antiga, e portanto é natural que tenha havido algum front-loading destas receitas. 
Só a partir daqui perceberemos se a eventual redução do consumo anula, ou não, o adicional de receita obtido graças ao agravamento da taxação. 
Já aqui tínhamos alertado para os perigos do tabaco…

Nos restantes impostos, com ligeiras oscilações, as notícias, ora boas ora más, mantêm-se. No IRC, a principal desilusão do último mês, as previsões continuam negativas, embora tenha havido alguma recuperação durante o mês de junho. 
Como já tínhamos referido, a receita de IRC é fortemente descontínua ao longo do ano. 
O mês de maio é sempre o mais importante (mais de 25% da receita anual) por isso já dificilmente se reverterá a tendência. 
Mas o mês de julho, também importante (representa 15-17% da receita anual), será o mais indicado para se confirmar esta tendência negativa.

No IVA, o maior dos impostos, não se registam grandes alterações face ao observado no mês anterior, tornando mais sólida a previsão de um desvio negativo na ordem dos 760 milhões de euros nesta rubrica, se considerarmos os potenciais efeitos da descida do IVA da restauração (isso sim, foi brincar com coisas sérias) que se começarão a sentir este mês.

Já no ISP as notícias são boas. 
A brincar, a brincar, levámos a sério este exercício. 
Apesar de uma reformulação contabilística que acrescenta bastante complexidade [3] à análise da execução deste imposto – que se traduz numa evolução muito irregular, como se pode ver no gráfico – atirámo-nos a mares muito traiçoeiros e conseguimos chegar a uma estimativa razoável. 
A boa evolução do ISP deverá traduzir-se numa receita acima do previsto no Orçamento em de cerca de 250 milhões de euros.

O Imposto do Selo e a receita de taxas e multas também prometem ser uma ajuda modesta, mas importante, no fim do ano. 
Mas – lá está – apesar dos melhores esforços dos “pequenos”, os “grandes” é que estão a dar cabo disto. 
Tudo somado, prevemos nesta fase – e nesta frase que será decerto escolhida para lead – que a receita fiscal ficará mais de mil milhões de euros abaixo da meta.


A contabilização de impostos indiretos SFA nos primeiros três meses foi feita à custa da receita de ISP, devido ao atraso na reformulação contabilística introduzida pelo Orçamento (Clique sobre o gráfico para aumentar)














A sustentabilidade da Segurança Social está garantida?
Nem por isso, mas apesar de tudo este ano está a dar uma boa ajuda à execução orçamental.

Na Segurança Social e na Caixa Geral de Aposentações (CGA) não se observam grandes variações em relação àquilo que têm sido os últimos meses. 
Do lado da despesa, é expectável que se registem poupanças face ao orçamentado nas principais rubricas da Segurança Social, sobretudo nas prestações de desemprego (158 milhões de euros) e na ação social (154 milhões de euros). 
Só as pensões da CGA deverão registar um ligeiro desvio negativo (40 milhões de euros).

Do lado da receita, as contribuições para a Segurança Social apresentam um aumento homólogo (+4,7%) ainda abaixo do previsto no OE (+5,7%), e assim poderão ficar aquém da meta em cerca de 165 milhões. 
A principal alteração verificou-se na melhoria das contribuições para a CGA: até maio, a variação homóloga nesta rubrica era nula, mas, graças ao crescimento mensal registado em junho (+25%), esta poderá representar uma importante ajuda no final do ano. 
A DGO atribui esta variação ao aumento das contribuições que decorre automaticamente das reposições salariais.


Coisas quase sérias
No final de tudo, uma ideia: salvo honrosas exceções, não, não ressalta da execução orçamental que o Governo ande a brincar com coisas sérias. 
Embora o faça com o spin orçamental habitual, também tem havido, como vimos, algum exagero em sentido inverso.

Neste momento, começa a desenhar-se a situação no final do ano: vamos ter um défice que quase atinge a meta da Comissão; um défice que, sem Banif, quase não desce face ao ano anterior; um défice que quase nos deixa descansados, mas parece agora quase certo que teremos algum tipo de medidas adicionais (é que a Comissão também faz contas como estas para a receita, por exemplo). 
Tudo isto numa economia que quase cresce.

Talvez, falando de coisas sérias (e aqui fica um contributo nosso), fosse melhor Governo e oposição concentrarem-se mais nisso – nas desilusões do investimento, do crescimento e das exportações – e menos em sanções e em brincadeiras com os números do défice.

Deixem isso para o público interessado, para o CFP, UTAO e, já agora, para os especialistas da DGO: que fazem muito com pouco e daqui, da nossa parte, um agradecimento sentido (e votos de boas férias).


Em evidência, a dificuldade do exercício: apesar dos desvios consideráveis, estamos a falar sempre de números marginais. A execução, as metas e a estimativa IPP: 2015 e 2016 (Clique sobre o gráfico para aumentar)
Coisas quase sérias


















[1] Neste exercício assumimos que os ajustamentos entre o défice em contabilidade pública e contabilidade nacional corresponderão exatamente ao previsto no Orçamento, “melhorando” o défice em 0,7% do PIB da primeira para a segunda. 
Os dados até maio parecem sugerir que se está no bom caminho nesse sentido (também graças a uma nova tabela incluída na síntese de execução orçamental relativa a esses ajustamentos, uma adição que registámos positivamos e agradecemos).

[2] A este propósito surge muito como atual, infelizmente, o capítulo de Pedro Pita Barros, “Despesa pública em Saúde: cortando nós górdios”, em Afirmar o futuro: políticas públicas para Portugal – volume I, Fundação Calouste Gulbenkian.

[3] A avaliação da execução orçamental dos impostos padece ainda de uma dificuldade contabilística adicional que resultou da entrada em vigor do Orçamento no dia 1 de abril. Como refere a síntese da DGO, estava prevista no OE uma reformulação contabilística que se traduziria na transferência de receita habitualmente inscrita na rubrica da receita Impostos indiretos dos Serviços e Fundos Autónomos (Impostos Indiretos SFA) para a rubrica da receita do ISP do Estado. 
Então, as dotações destas rubricas foram revistas em conformidade com esta reformulação, como é bem visível nas variações implícitas previstas no OE para os Impostos Indiretos SFA (-54,7%) e o ISP (+62,2%). 
No entanto, como o Orçamento só entrou em vigor a 1 de abril, durante os meses de janeiro a março, a DGO foi registando as receitas acumuladas nas rubricas em que era habitual serem registadas e não as reviu retroativamente com a reformulação introduzida pelo OE – aumentando virtualmente o grau de execução dos Impostos Indiretos SFA (em junho, já nos 91,9%) à custa da redução virtual do grau de execução do ISP (ainda nos 45,8%).


Esta situação, ilustrada pelos valores mensais destas rubricas (ver figura), implica que, se tudo corresse como previsto no Orçamento, a receita de ISP ficaria abaixo do orçamentado e a receita de Impostos Indiretos SFA ficaria acima do orçamentado no mesmo montante, devido à não-correção retroativa da forma de contabilização das receitas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Sanções: As 5 decisões de Bruxelas para Portugal

DÉFICE
Dinheiro Vivo/Lusa 
27.07.2016 / 14:49
Comissário Europeu, Pierre Moscovici. Fotografia: REUTERS/Francois Lenoir

A Comissão Europeia decidiu hoje aplicar sanção zero a Portugal pelo incumprimento da meta do défice em 2015, que acabou por ficar nos 4,4% do PIB. 

A Comissão Europeia decidiu hoje aplicar sanção zero a Portugal pelo incumprimento da meta do défice em 2015, que acabou por ficar nos 4,4% do PIB, acima do limite de 3% definido pelas regras europeias. 

Depois de, a 12 de julho, o Conselho de Ministros das Finanças da União Europeia (Ecofin) ter decidido que Portugal deveria mesmo ser alvo de sanções por não ter adotado “medidas eficazes” para corrigir a situação de défice excessivo em que se encontrava no prazo definido, hoje a Comissão Europeia recomenda ao Conselho o cancelamento da multa.

No entanto, na recomendação de seis páginas, o executivo comunitário traça novas metas, pede mais medidas e até recomenda que se limite o uso das taxas reduzidas do IVA, atualmente nos 6% e nos 13%. 

As duas primeiras decisões da Comissão são que Portugal encerre o défice excessivo “em 2016” e que reduza o défice público para os 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no final deste ano, uma meta que exclui eventuais impactos de apoios ao setor bancário, pedindo ainda Bruxelas que Portugal “use os ganhos inesperados para acelerar a redução do défice e da dívida”. 

O terceiro pedido feito ao Governo português é que “adote e implemente totalmente medidas de consolidação [estrutural] no montante de 0,25% do PIB em 2016”, exigindo o executivo comunitário que sejam implementados “mecanismos de controlo da despesa adicionais” na aquisição de bens e serviços feitos pelo Estado e que sejam adotadas “mais medidas de natureza estrutural para alcançar o esforço estrutural recomendado”.

Na quarta decisão que a Comissão Europeia hoje adotou e que recomendou ao Conselho, lê-se que “Portugal deve estar preparado para adotar mais medidas se os riscos aos planos orçamentais se materializarem” e que “as medidas de consolidação orçamental devem garantir uma melhoria do saldo orçamental de uma maneira que seja amiga do crescimento”. 

Finalmente, no quinto ponto, a equipa de Jean-Claude Juncker afirma que “Portugal tem de implementar estritamente a Lei de Enquadramento Orçamental e a Lei dos Compromissos”, bem como “melhorar a arrecadação de receita e o controlo da despesa”. 

Para isso, é pedido que Portugal “apresente um calendário claro e implemente medidas para limpar totalmente os pagamentos em atraso e para melhorar a eficiência do sistema de saúde, para reduzir a dependência do sistema de pensões das transferências orçamentais e para garantir poupanças orçamentais na reestruturação das empresas públicas”.

Governo: Cancelamento das sanções “é muito boa notícia” para Portugal

DÉFICE EXCESSIVO
Diogo Ferreira Nunes
27.07.2016 / 13:22
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. (Fotografia: António Cotrim/Lusa)

Ministro dos Negócios Estrangeiros garante que não houve moedas de troca nas negociações com Bruxelas"

O cancelamento das sanções “é uma muito boa notícia para Portugal, para a Europa e para o espírito europeu”. 
Esta é a primeira reação do Governo português à decisão do colégio de comissários da Comissão Europeia. 

O ministro dos Negócios Estrangeiros considera que a Comissão Europeia “soube assumir o seu papel: de guardiã dos tratados e do espírito europeu”, referiu Augusto Santos Silva em conferência de imprensa. 

Santos Silva referiu também que Portugal “apresentou argumentos sólidos” e recordou que o povo português “fez muitos sacrifícios”. 
Além disso, “valeu a pena jogar o jogo das regras europeias, apresentando os nossos argumentos”. 

O Governo, por agora, está concentrado em “favorecer recuperação da economia e do investimento, apoiar sinais muito positivos que são dados na balança comercial e nunca perder de vista o esforço de consolidação orçamental”. 

Questionado sobre uma eventual ‘moeda de troca’ nas negociações com as instituições europeias, Santos Silva garantiu: “não há moedas de troca”. 
O Governo terá, no entanto, assumido o “compromisso de Portugal na consolidação orçamental e no crescimento económico”. 

Portugal fica obrigado a reduzir o défice público deste ano de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 para 2,5% em 2016, uma meta mais fácil de atingir do que os anteriores 2,2%, anunciaram Valdis Drombovskis e Pierre Moscovici, vice-presidente da Comissão Europeia e comissário europeu, respetivamente. 

(Notícia atualizada às 13h34 com mais informação)

Bruxelas relaxa défice de Portugal de 2,2% para 2,5%

PACTO DE ESTABILIDADE
Luís Reis Ribeiro
27.07.2016 / 13:20
Mário Centeno e Pierre Moscovici. Foto: REUTERS/Rafael Marchante

Cortes permanentes deste ano mantêm-se nos 0,25% do PIB (cerca de 450 milhões de euros), mas meta do défice nominal fica mais fácil de atingir.

Portugal fica obrigado a reduzir o défice público deste ano de 4,4% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2015 para 2,5% em 2016, uma meta mais fácil de atingir do que os anteriores 2,2%. 
Além disso, a multa por violação do défice relativa ao exercício de 2015 foi “cancelada”. Ou seja, nem sequer houve sanção zero. 
Espanha beneficiou da mesma benesse. 

Na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do colégio de comissários, o responsável pelos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, disse que continua a ser exigido ao país um ajustamento estrutural (cortes permanentes) no valor equivalente a 0,25% do PIB (cerca de 450 milhões de euros) neste ano, reconhecendo que se trata de um “esforço muito significativo para ser feito em tão poucos meses”, os que faltam até ao final do ano. 

Assim, o colégio da Comissão decidiu “dar mais um ano a Portugal para reduzir o seu défice para 2,5% do PIB em 2016” em vez de 2,2%, “o que dá uma margem de segurança bastante elevada”, tendo em conta o esforço enorme que continua a ser exigido, referiu o comissário francês. 

O cancelamento das sanções terá sido uma decisão de última hora pois ontem, ao final do dia, ainda circulava a ideia de que podia haver uma multa mínima de 0,01% a 0,05% do PIB sobre os países por terem violado o Pacto de Estabilidade. 
A multa normal poderia ir até 0,2%. 

Mas relativamente ao défice de 2016, o Dinheiro Vivo avançou que havia a hipótese de relaxamento da meta anual; que isso ontem estava a ser negociado. 
De acordo com algumas fontes contactadas, o valor que circulava era 2,4% do PIB. Acabou por ser até uma décima superior. 

Moscovici acrescentou ainda que “teria sido legalmente possível multar os países, mas esta nossa decisão é politica e economicamente mais apropriada”. 
E disse mais: “Sancionar os países não iria corrigir o passado e seria contraproducente numa altura em que os povos têm dúvidas sobre a Europa.” 

Valdis Dombrovskis, o vice-presidente da Comissão para a área do euro, constatou que as multas são sobre o passado, que faria pouco sentido aplicá-las numa altura em que a recuperação ainda está frágil ou em dúvida, deixou perceber. 

“Portugal e Espanha fizeram esforços substanciais” e “muitas reformas estruturais foram adotadas e ainda vão dar frutos”, mas “ambos os países enfrentam ainda desafios sociais profundos”, “demasiadas pessoas ainda não sentem totalmente a retoma”. 
O “desemprego” é um dos problemas centrais. 
Daí as benesses hoje decididas. 

Embora agora deixe de haver recomendação de multa, o Ecofin (conselho de ministros das Finanças da União Europeia) ainda vai debater e validar (ou não) esta proposta de cancelar as multas. 

A isto acresce a decisão no sentido de congelar fundos comunitários, que assim se mantém em cima da mesa. 
Haverá primeiro um debate com o Parlamento Europeu e, lá para setembro, a Comissão Europeia pode mesmo avançar com esta proposta, que seria bastante lesiva para Portugal. 

Pelo histórico recente, espera-se que Alemanha, Holanda, Finlândia e Eslováquia se manifestem agressivamente contra um tratamento mais suave a Portugal e Espanha, que permite aos países relaxarem um pouco nas contas públicas. 
O próximo Eurogrupo está agendado para 9 de setembro; o Ecofin é no dia seguinte, 10 de setembro.

(atualizado às 14h00)

Bruxelas deve propor multa mínima mas relaxará meta do défice

PACTO DE ESTABILIDADE
Luís Reis Ribeiro
27.07.2016 / 00:01
Valdis Dombrovskis e Pierre Moscovici. Fotografia: EPA/OLIVIER HOSTEL

Meta de 2016 para o défice pode ser facilitada para aliviar “humilhação política”. Mas tudo indica que os cortes estruturais ficam os mesmos. 

A multa por violação do pacto orçamental deverá ser mínima mas, ao mesmo tempo, o governo poderá beneficiar de uma meta para o défice público deste ano mais elevada. 

De acordo com informações que ontem circulavam em Bruxelas, a menos de 24 horas da reunião de hoje do colégio de comissários, parecia ser cada vez mais certo que a multa a propor contra Portugal poderá oscilar entre 0,01% e 0,02% do Produto Interno Bruto (PIB) – entre 18 e 36 milhões de euros, em vez dos 0,1% ou 0,2% que aparecem nas regras de funcionamento dos tratados. 
Esta informação foi avançada ontem em primeira mão pelo jornal espanhol El País. 

Compensar a humilhação 

Adicionalmente, fontes ouvidas pelo Dinheiro Vivo referiram que, para compensar ou aliviar a “humilhação política” que é sancionar o país (juntamente com Espanha são os dois primeiros casos de punição da história do Pacto de Estabilidade), alguns comissários estariam a defender que Portugal tenha uma meta para o défice mais fácil este ano, correndo a ideia de que se poderia repetir a “flexibilidade” concedida ao anterior governo. 

Inicialmente, a défice de 2015 chegou a ser 2,5%, mas que depois passou a ser aceite a marca de 2,7%. 
Foi a tal que não foi cumprida, nem tão pouco a dos 3% (por causa do Banif e outras derrapagens o défice ficou afinal em 4,4%). 

Meta de 2,4% no défice 

A ideia agora seria dar mais duas décimas de tolerância a António Costa e Mário Centeno, o que colocaria o objetivo de 2016 nos 2,4% em vez dos 2,2% combinados com a Comissão e o Conselho (Ecofin). 
O Expresso online falava ontem em 2,5%. 

Nas recomendações ao país, datadas de maio, a Comissão já recomendara um défice ligeiramente mais alto, de 2,3%, mas agora há quem esteja disposto a ir mais longe, mas sem nunca abdicar dos cortes permanentes que devem ser de 0,25% neste ano e de 0,6% em 2017, pelo menos. 
Recorde-se também que nas projeções da primavera, a Comissão já projetava um défice bem superior neste ano: na altura avançou com 2,7%. 
Apesar de o governo dizer que a execução orçamental correu de forma “excelente” no primeiro semestre, a maior parte das instituições está descrente quanto à capacidade de se cumprirem os objetivos delineados. 
Em junho, o FMI projetou 3%; a OCDE 2,9%. 

Cortes permanentes ficam na mesma 

Para já, é ponto assente que a Comissão quer “uma correção sustentável do défice excessivo em 2016 por meio de uma redução do défice das administrações públicas para 2,3% do PIB em 2016, adotando para tal as medidas estruturais necessárias e fazendo uso de todos os ganhos extraordinários para reduzir o défice e a dívida”. 

E que nessa correção o saldo estrutural seja cortado em 0,25% do PIB em 2016, o mesmo que dizer que pretende ver medidas permanentes (de preferência do lado da despesa) no valor de 450 milhões de euros neste ano. 

A exigência mais do que duplica relativamente ao Orçamento de 2017, que será apresentado até meados de outubro: o corte permanente no défice deve ascender a 0,6% do PIB, pelo menos: quase 1,1 mil milhões de euros, basicamente. 

Portanto, resumindo: a multa deve ser mínima, a meta do défice será relaxada um pouco e a discussão sobre se congela ou não alguns fundos europeus deve ser adiada até setembro.

Moscovici: Portugal escapa à multa, mas congelamento de fundos em análise

DÉFICE EXCESSIVO
Ana Margarida Pinheiro
27.07.2016 / 13:04
Pierre Moscovici Foto: REUTERS/Yves Herman

Pierre Moscovici justifica que congelamento dos fundos terá de ser discutido com o Parlamento Europeu depois do verão. 

Os comissários europeus decidiram poupar Portugal e Espanha a uma multa financeira, votando o cancelamento do procedimento por défices excessivos. 
Isto significa que Bruxelas fecha os olhos ao incumprimento dos défices em 2015, não penalizando os dois países pelo desrespeito aos Tratados europeus. 

No entanto, o congelamento parcial dos fundos comunitários ainda está em cima da mesa e será “discutida em conjunto com o Parlamento Europeu”, em setembro, referiu o vice-presidente da Comissão Europeia, Pierre Moscovici. 

O congelamento parcial dos fundos de Portugal é uma outra vertente da punição pelo défice excessivo e, segundo uma carta enviada ao Parlamento Europeu, incidirá nas 16 linhas de que Portugal dispõe via União Europeia. 

Em causa estão financiamentos para a agricultura, pescas, internacionalização e emprego.