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sábado, 23 de julho de 2016

BCE quer plano alternativo ao plano de capitalização do Estado na CGD

Maria Teixeira Alves
18 Jul 2016 atualizada 23:51



















Luís Marques Mendes revelou uma carta do BCE à CGD, a 8 de Junho, em que, entre outras coisas, pede um plano alternativo à capitalização pública para o caso de esta se tornar impraticável. Por outro lado recomenda que haja apenas 15 administradores e não 19 como queria o Governo.

Foi uma revelação importante a que fez Luís Marques Mendes à SIC neste domingo.

A carta datada de 8 de Junho, que o comentador mostrou em directo, revela que o BCE se queixou por àquela data ainda não ser conhecida pelo regulador a lista de administradores que os órgãos de comunicação social já estavam a publicar. 
Portanto, mesmo depois de uma Assembleia Geral que acabou por ser adiada, o Estado ainda não tinha enviado a lista dos administradores para o BCE, que tem de avaliar a idoneidade.

O BCE vai mais longe e faz recomendações que deixa o Governo refém delas, uma vez que se trata do supervisor bancário. 
O Ministro das Finanças disse numa conferência de imprensa que haveria 19 administradores dos quais 7 executivos, ora o BCE diz que esse número é demasiado elevado, e por isso recomenda no máximo 15. 

A administração de António Domingues terá assim menos quatro administradores.

Depois o BCE contraria outra pretensão de António Domingues, a de querer acumular a função de Chairman com a de CEO.

O supervisor bancário recomenda claramente uma total separação de funções. 
Portanto, terá de haver um presidente do Conselho de Administração e um presidente executivo. 
Tal como acontece hoje em dia.

Mas não se fica por aqui. 
A instituição liderada por Mario Draghi e por Vitor Constâncio, exige que os membros do Conselho de Administração, mesmo os não executivos, tenham experiência bancária. 
Ora os nomes de Bernardo Trindade, Leonor Beleza, e Pedro Norton (citados pela imprensa) poderão estar em risco de serem excluídos da lista, caso o Estado cumpra a recomendação do BCE.

Na carta, o BCE alerta ainda para que os nomes "não suscitem conflitos de interesse de qualquer natureza", não especificando quem da lista de nomes poderá suscitar essa dúvida.

Recorde-se que o futuro presidente da CGD sai da administração do BPI. 
António Domingues, tal como o Económico revelou, ainda não será este mês que será nomeado presidente da CGD.

Mas o mais relevante da carta vem no último ponto. 
Sobre a recapitalização da CGD, numa altura em que se fala de um aumento de fundos próprios de 4 mil milhões de euros.

O BCE pede que a Caixa apresente um plano de recapitalização alternativo ao plano de capitalização público, caso este se mostre impraticável. 

"Por fim, em virtude das significativas incertezas em torno da recapitalização do banco do Estado, a CGD necessita urgentemente de desenvolver e apresentar ao BCE um plano alternativo para potenciar a sua adequação de capital para a eventualidade de a recapitalização por parte do Estado acabar por se revelar impraticável".

Ora o chefe do governo, António Costa, tem dito várias vezes que a CGD irá manter-se 100% pública após a recapitalização.

A Caixa promete tornar-se o argumento de uma braço de ferro entre o Governo e Frankfurt.

O BCE promete não ceder ao Governo de António Costa.

Marques Mendes criticou o atraso inédito na sucessão da equipe de José de Matos na CGD, e mostrou-se preocupado com a degradação da imagem da Caixa.

BCE considera adequada a cobertura por provisões que a CGD faz ao crédito

Económico
23-07-2016 14:54


















O regulador não vê necessidade de provisões adicionais de 2,8 mil milhões de euros e por isso não há suporte para um aumento de capital de 5,1 mil milhões de euros (dos quais 900 milhões resultam da conversão do empréstimo do Estado em CoCo´s em capital, no fim da maturidade).

A equipa de técnicos do Banco Central Europeu (BCE) classificou o primeiro plano de recapitalização e reestruturação da Caixa Geral de Depósitos (CGD) apresentado por António Domingues que o elaborou com a ajuda Mckinsey de irrealista, avança o Expresso na sua edição de hoje. 
O documento, a que o Expresso teve acesso, terá sido recebido pelo Ministério das Finanças no dia 30 de junho e faz uma análise crítica dos principais pontos da estratégia delineada pelo futuro presidente da CGD (com a ajuda da consultora McKinsey, tal como o Económico avançou em primeira mão).

“O plano industrial para a CGD tem sido discutido regularmente, tanto com o BCE, como com a Direcção-Geral da Concorrência Europeia (DG Comp). 
Fruto das várias interacções, o plano tem vindo a ser aperfeiçoado, incorporando os contributos dos reguladores e ajustando as críticas que vão sendo feitas”, esclareceu fonte oficial das Finanças, que explica que “Neste momento, as duas instituições reconhecem como credível o plano apresentado.” 

Desde que este relatório foi elaborado pelos técnicos do BCE já muitas negociações decorreram, diz o jornal que admite que Elisa Ferreira, administradora do Banco de Portugal (BdP), esteve esta semana em Frankfurt em contactos com o BCE para tentar chegar acordo num plano para a Caixa, que fontes próximas do Governo admitem estar quase fechado. 

Este relatório citado pelo Expresso não surpreende até porque no passado Domingo, Luís Marques Mendes citou uma carta do BCE com várias recomendações que iam precisamente ao arrepio das propostas apresentadas por António Domingues e confirmadas publicamente por Mário Centeno, Ministro das Finanças. 
A carta do BCE à CGD, datada de 8 de Junho, em que, entre outras coisas, pede um plano alternativo à capitalização pública para o caso de esta se tornar impraticável. 
Por outro lado recomenda que haja apenas 15 administradores e não 19 como queria o Governo.

O documento que o Expresso revela, é denominado “CGD preliminary analysis of the industrial plan” — e é a primeira resposta ao primeiro plano submetido ao BCE pelo “informally nominated candidate for CEO, Mr António Domingues” (candidato informalmente nomeado para presidente da comissão executiva) — foi elaborado pela Joint Supervisor Team (JST), uma equipa que junta técnicos do BCE e do BdP.

O BCE considera o aumento de capital da Caixa, proposto, de 5,1 mil milhões de euros, o que inclui a conversão dos 900 milhões de euros em CoCo´s em capital em 2017, "acima das reais necessidades do banco público". 
Isto explica também a carta do BCP a Bruxelas a alertar que, a defesa da concorrência,se faz com regras de mercado na detecção das necessidades de capital.

O BCE, segundo o jornal, questiona também, o valor de 2,8 mil milhões de euros previsto para provisões adicionais, dizendo que este não está de acordo com a realidade. 
Para chegar a essa conclusão faz uma comparação da actual situação da CGD com o resto do mercado. 
Os técnicos do BCE consideram que, em termos de crédito concedido, a cobertura por garantias que a CGD tem é razoável.

Para a reestruturação da Caixa, o plano apresentado prevê uma verba de 500 milhões, a gastar na redução de 31% da força de trabalho — o banco tinha 8410 trabalhadores no final de 2015 e está prevista a saída de 2600 pessoas. 
Este valor é considerado pelo BCE como “irrealista”, avança o jornal.

Outro ponto que merece a discordância do BCE tem, segundo o Expresso, a ver com a estimativa de custos para cobrir perdas em fundos imobiliários e em fundos de reestruturação de empresas, que seria de 600 milhões de euros. 
O BCE diz que os valores propostos foram calculados usando dados referentes ao mercado espanhol e não ao português.

O BCE não encontra no documento qualquer informação que possa ter sido prestada pela actual administração da CGD, especialmente em relação ao portfólio de crédito concedido e as suas características. 
Isto é, o plano é feito sem conhecimento intrínseco da realidade da CGD.

Tal como o Económico revelou a assessoria da McKinsey tem levantado algumas críticas, uma vez que António Domingues ainda não assumiu formalmente a presidência da Caixa, e coloca-se a questão da formalidade da contratação da consultora. 

Tal como na carta revelada por Marques Mendes, o relatório do BCE faz também apreciações sobre os 19 administradores escolhidos por António Domingues para a CGD, que teve o 'agreement' do Governo. 
Frankfurt considera o número de administradores exagerado e recomenda que sejam apenas 15 elementos. 
Defende ainda que da actual equipa de gestão deveriam transitar alguns administradores para garantir continuidade. 
O que não vai acontecer. 
E diz explicitamente que cinco dos administradores não-executivos não cumprem os requisitos de disponibilidade de tempo exigidos pelas novas orientações da política do BCE. Ou seja, por ocuparem demasiados cargos em outras empresas ou instituições não terão tempo para se dedicar à CGD, avança o jornal.

Segundo o Expresso, o BCE faz criticas à ‘equipa executiva do BPI’ que António Domingues quer levar para a Caixa. 
Ao BPI, o futuro presidente do banco público foi buscar Emídio Pinheiro, Tiago Ravara Marques e João Tudela Martins (estes dois dados em primeira-mão pelo Económico) e ainda Henrique Cabral Menezes (que vai ser CFO). 
A equipa de técnicos do BCE considera, segundo o semanário, que aos sete elementos executivos falta experiência em algumas áreas, nomeadamente na gestão de redes comerciais internacionais e controlo, entre outras.

O Ministério das Finanças e o BdP receberam no final desta semana a avaliação individual e conjunta da futura administração da Caixa, feita pela comissão liderada por Luís Laginha de Sousa. 
“Está agora em curso a avaliação formal pelo BCE. 
Para a semana haverá reuniões em Lisboa e em Frankfurt, que encaminham o processo para a fase final”, dizem as Finanças ao Expresso.

Tal como avançado pelo Económico, a nova administração não deverão conseguir ser nomeados até ao final do mês, altura em que os actuais administradores deixam de poder gerir o banco.

As cartas de demissão da actual equipa de gestão foram entregues ao Governo no dia 21 de Junho. 
De acordo com o Código das Sociedades Comerciais, as demissões produzem efeito no final do mês posterior ao da sua comunicação. 
O que significa, no caso da CGD, que a partir do dia 31 de Julho a actual administração não poderá continuar em funções.

O BCE avaliará a idoneidade com base nos relatórios de avaliação individual e de conjunto de todos os novos administradores feitos pela nova comissão de supervisão da gestão liderada por Laginha de Sousa.

Só depois de o BCE receber formalmente a lista é que pode também formalmente dar início ao processo de avaliação de cada um dos administradores, hoje chamado fit and proper.

Segundo o Expresso, se no dia 1 de Agosto, actual administração continue em funções, os actos de gestão podem ser considerados nulos, se a futura administração vier, posteriormente, a ratificá-los.

Diz o jornal que os supervisores da banca têm, em situações-limite, a faculdade de nomear administradores provisórios.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Bruxelas e Itália num impasse sobre a banca

BANCA
Cátia Simões
07.07.2016 / 12:43




















A Comissão Europeia e Itália têm visões diferentes sobre a contribuição dos obrigacionistas no financiamento à banca.

As negociações entre o governo italiano e a Comissão Europeia sobre a recapitalização da banca italiana chegaram a um impasse, uma vez que os dois têm uma interpretação diferente das regras, diz a Bloomberg. 

Em causa estão posições diferentes sobre se os credores privados devem enfrentar perdas se forem usados fundos públicos para recapitalizar os bancos. 

Depois do “Financial Times” ter noticiado que o primeiro-ministro Matteo Renzi ponderava injetar dinheiro público nos bancos, como solução de último recurso – o que já foi negado pelo Executivo italiano – a Bloomberg diz agora que o objetivo é avançar com um plano de financiamento ao setor financeiro respeitando as regras da União Bancária, que permitem esse financiamento se os bancos falharem os stress tests. 
Os resultados dos testes à banca italiana serão conhecidos no final do mês. 

Roma diz que essa solução não deve implicar custos para os obrigacionistas, visão que terá esbarrado na resistência de Bruxelas. 
As regras da União Bancária dizem que quem tiver mais de 100 mil euros tem de ser chamado a participar das necessidades de financiamento. 

A Comissão Europeia já fez saber que “há uma série de soluções que podem ser postas em prática em plena conformidade com as regras da UE respeitantes à liquidez e escassez de capital nos bancos, sem efeitos adversos sobre os investidores de retalho”. 

Nos últimos dias as atenções têm estado voltadas para o Banca do Monte dei Paschi da Siena: o BCE exigiu que o quarto maior banco italiano reduzisse o crédito malparado em 40% até 2018 numa altura em que os bancos italianos se debatem com dificuldades. 
As ações chegaram a cair 14% na segunda-feira e continuam em tendência descendente. 

Em cima da mesa estará a possibilidade do plano de recapitalização ser feito através do Atlante, fundo dotado de cinco mil milhões de euros para o crédito malparado da banca, criado em dezembro pelo executivo italiano, numa altura em que Itália é vista como o próximo grande risco da Europa e os juros da dívida dispararam.

Itália ameaça desafiar regras de Bruxelas para salvar bancos

AJUDAS DE ESTADO
Cátia Simões
04.07.2016 / 11:10




















Primeiro-ministro italiano admite injetar fundos públicos se for necessário, mas só em último caso, noticia o "Financial Times".

O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, está determinado em desafiar as regras de Bruxelas e injetar fundos públicos para salvar bancos, noticia o “Financial Times”. 
A medida só será aplicada em último caso, em situações de volatilidade financeira. 

A ameaça tem feito disparar alarmes nos reguladores europeus, que temem que uma intervenção deste género possa devastar a credibilidade da União Bancária, que acabou de implementar novas regras e enfrenta agora o seu primeiro teste, com as necessidades de capital da banca italiana a ser avaliadas nos testes de stress. 
Os resultados serão conhecidos no final deste mês. 

As novas regras definem que o dinheiro dos contribuintes só pode ser usado para recapitalizar bancos depois dos privados terem assumido as suas responsabilidades. 

As opções estão a ser discutidas entre Roma e Bruxelas, com a comissária da concorrência Margrethe Vestager a avançar com várias opções para que Itália resolva o problema com o seu setor bancário sem quebrar as regras da União Bancária. 

O país tem sofrido com a turbulência causada pelo Brexit, com os bancos a perderem um terço do seu valor em bolsa. 
As preocupações têm-se adensado devido à proximidade dos testes de stress e ao referendo constitucional marcado para outubro, onde se discutirá a reforma do Senado descrido pelo Citi como “o maior risco da paisagem política europeia além do Reino Unido”. É que Renzi prometeu renunciar ao cargo se o referendo rejeitar a reforma proposta. 

Itália tem vindo a discutir o plano de recapitalização com Bruxelas, um plano que pode chegar aos 40 mil milhões de euros para o setor bancário. 
Bruxelas terá de autorizar, tendo em conta as regras de ajuda de Estado, mas será difícil que a medida avance. 
Depois de várias formas de intervenção terem sido rejeitadas Itália pondera agora se vai agir sozinha. 

Em cima da mesa estão medidas como aumentar o fundo estatal para ajudar as empresas privadas, o Atlante, usado para apoiar o aumento de capital de dois bancos falidos, segundo o FT. 
O Atlante vai ainda lançar, dentro de dias, um fundo focado em créditos em incumprimento (NPL), focando-se primeiro no malparado de bancos como o Monte dei Paschi di Siena, o banco italiano com mais problemas. 
Está também em discussão se serão usados fundos do tesouro e fundos de pensões para recapitalizar os bancos. 

O plano de recapitalização para o malparado assemelha-se ao que tem vindo a ser defendido pelo Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, que quer criar um “banco mau” para concentrar os créditos em incumprimento dos bancos portugueses. 
Uma medida que agrada ao supervisor mas não aos bancos.

Itália pode ser o próximo grande risco da Europa

CONJUNTURA
Cátia Simões
06.07.2016 / 10:25





















Referendo sobre reforma constitucional de outubro pode trazer incerteza política, a juntar à crise bancária que o país atravessa.

Depois da crise na Grécia e do Brexit a Itália pode ser o próximo grande risco da Europa. 
O país está a enfrentar uma crise no setor bancário e prepara-se para um delicado momento político, com o referendo constitucional, marcado para outubro, que está a pressionar os juros da dívida italiana. 

Os italianos vão votar uma reforma constitucional, que prevê, entre outras medidas, limitar os poderes do Senado. 
Se for aprovada definitivamente, a reforma transformará o Senado num órgão de representação regional, sem poderes legislativos. 

Segundo a Bloomberg, se a reforma for aprovada está aberto o caminho para um período de incerteza política, validando o programa do primeiro-ministro, Matteo Renzi, e os analistas prevêem que os juros da dívida se mantenham elevados, próximos dos níveis de Espanha. 
Pelo contrário, se o referendo votar contra a reforma surgirá um novo governo de coligação, considerado mais provável que eleições. 

O referendo pode provocar vazio político, eleições antecipadas ou a nomeação de um governo tecnocrático em 2017. 
Há muitas forças políticas em Itália que estão contra a reforma constitucional, aumentando os riscos de uma crise política. 
As sondagens indicam que a maior parte dos eleitores está contra as mudanças e que a maior popularidade do partido de oposição Movimento Cinco Estrelas vem trazer mais receios de um referendo à permanência no euro. 

Enquanto prepara caminho para o referendo, o primeiro-ministro italiano também tem de lidar com a crise no setor bancário, depois do BCE ter exigido ao Banca Monte dei Peschi da Siena que reduzisse em 40% o crédito malparado. 

As agências internacionais dizem que Renzi admite avançar com uma injeção de capital na banca, como último recurso, contra as regras de Bruxelas sobre ajudas de Estado. 
A informação já foi desmentida pelo Executivo italiano mas as preocupações em torno da banca italiana adensam-se. 
Em dezembro o governo criou um fundo, o Atlante, dotado de cinco mil milhões de euros para o crédito malparado da banca. 

O país também está a ser afetado pelo Brexit, que afundou as principais praças europeias, com impacto sobretudo na banca.

Crise em Itália. Investidores fogem do risco e já cheira a 2008

Futuro da Banca
Filipe Paiva Cardoso
07.07.2016 / 00:10
Matteo Renzi primeiro-ministro italiano (Foto: REUTERS/Tony Gentile)

Banca italiana ameaça gerar nova crise financeira na Europa. Taxas de juro alemãs batem mínimos; as italianas sobem.

Com 360 mil milhões de euros em ativos tóxicos, a crise da banca italiana, agravada pelo impacto do brexit na economia europeia, está agora no centro das preocupações dos investidores. 
As ações dos bancos foram ao fundo. Lorenzo Bini, chairman do Société Générale, e Lorenzo Codogno, ex-diretor-geral do Tesouro Italiano, vieram já a público alertar que a situação acarreta o risco de catalisar uma nova crise na Europa, cujo sistema financeiro está não só fragilizado mas excessivamente interligado. 

O risco de contágio a toda a UE, desde logo ao gigante alemão Deutsche Bank, já está, aliás, a abalar o mercado de dívida pública – os juros alemães, franceses e holandeses bateram ontem níveis historicamente baixos, enquanto as taxas da dívida italiana subiram, sinal de que os investidores, face à incerteza, estão a fugir dos ativos de maior risco. “Há cada vez mais paralelismos com a crise de 2008”, explica a Bloomberg. 

“O valor de mercado dos bancos europeus tem vindo a descer desde há um ano, quando se tornaram claras as necessidades de capital”, diz João Queiroz, diretor de negociação do Banco Carregosa, ao Dinheiro Vivo. 
“Com a estagnação do crescimento, o aumento dos créditos em risco (…) e com os juros em mínimos é difícil imaginar um cenário mais adverso”, acrescenta. 
E o caso italiano só trouxe mais pressões sobre um sistema já no limite. 
“A situação da banca em Itália já tem vindo a contribuir para este cenário e os prémios de risco da banca dos países periféricos refletem esses efeitos. 
À medida que a situação se for agravando, maior será o risco da periferia.” 

Caso italiano e o elefante alemão 

Mas além da periferia, há ainda o elefante na sala, lembra o analista. 
“Hoje [ontem] as ações do Deutsche Bank voltaram a bater mínimos históricos. 
Tendo o Deutsche ativos que equivalem a 1/3 do PIB alemão, não é nada bom sinal quando o mercado lhe atribui um valor de apenas 18 mil milhões. 
É até bastante assustador.” 

Em Itália não se discute apenas o avanço de uma recapitalização para a banca, mas também o possível ignorar de regras europeias por parte do governo para forçar a recapitalização, avaliada em pelo menos 40 a 50 mil milhões. 
Matteo Renzi quer evitar as normas da União Bancária que obrigam à partilha de perdas com os privados. 
Mas ignorar estas regras será um novo golpe na credibilidade do projeto europeu e acarreta tantos riscos como o oposto. 

“Numa altura de extrema sensibilidade e instabilidade política coincidente com o brexit, o governo italiano parece estar a desafiar as regras da Comissão Europeia no que respeita a ‘deficiente’ construção da União Bancária, obrigando-a a tomar decisões que vão ter implicações determinantes para o futuro”, detalha a equipa de research do BiG, ao Dinheiro Vivo. 
Este ignorar de regras é um pau de dois bicos: “Caso Bruxelas decida quebrar as regras de resgates à banca que entraram em vigor este ano, deixando o Estado italiano participar no resgate (…), isso poderia aliviar o stress sobre os bancos, mas iria enfraquecer a credibilidade nas regras e o tecido político de Bruxelas, exacerbando o discurso anti-bancos e reforçando as forças mais radicais.” 
Mas o caso fica pior, pois não quebrar as regras pode ser tão ou mais perigoso. 

“Caso a UE não deixe quebrar (…) poderá haver consequências imprevisíveis e graves seja a nível financeiro, seja político – forçando perdas a acionistas, credores e depositantes, o que poderá gerar um evento de risco sistémico tendo em conta a magnitude do nível de recapitalização” em preparação em Itália. 
E neste impacto sistémico voltamos a encontrar o elefante alemão. 
“Este será o ‘último muro’ até aos riscos/incerteza que pairam sobre o nível de capitalização dos maiores bancos europeus – por exemplo o Deutsche Bank – , o que poderia equivaler a uma espécie de momento ‘Lehman’ para todo o sector financeiro Europeu”, concluem. 

Este pau de dois bicos é também identificado por António Duarte. 
“Seja qual for o plano de recapitalização, os esforços que vão ser feitos vão contaminar toda a indústria financeira que, no curto prazo, tem um impacto negativo”, diz o gestor da XTB, que vê no caso italiano “um conflito de interesses entre a União Bancária e o governo, em que no meio está a proteção de credores”. 

Portugal: Nacionalize-se? 

A dívida portuguesa tem passado ao lado das oscilações nos juros apesar de toda a incerteza, algo que para António Duarte se deve “ao plano de compra de ativos do BCE”, que ainda protege os títulos de variações significativas. 
Porém, também a banca portuguesa está perto do limite, ao ponto de João Queiroz considerar que a salvação já não passa pelo banco para o malparado. 

“No ponto em que se encontra a banca portuguesa, as únicas formas de capitalizar a banca pública é injetar dinheiro público ou privatizá-la. 
Para a banca privada resta a intervenção direta do Estado, com a consequente nacionalização. 
Por muito drástico que este discurso pareça, não acho que seja irrealista”, diz João Queiroz.






















Deutsche Bank. Uma situação “assustadora” de “alertas já indisfarçáveis”

BANCA
Filipe Paiva Cardoso
07.07.2016 / 14:55




















"Algo que nos deixa ainda mais preocupados é o contágio a toda a banca", alerta João Queiroz. O Deutsche é dos bancos com mais ramificações globais.

Com as ações em mínimos históricos e os custos para contratar seguros contra o risco do crédito (CDS) das obrigações do Deutsche Bank a valores mais altos que os registados em 2008, aquando do colapso do Lehman Brothers, a situação crítica do gigante alemão está cada vez mais difícil de ignorar. 

“A situação do Deutsche Bank já fez tocar muitas campainhas, os sinais de alerta já são indisfarçáveis”, diz João Queiroz, Diretor de Negociação do Banco Carregosa, em declarações ao “Dinheiro Vivo”. 
E concretiza: “As ações do DB estão em mínimos históricos, a dívida subordinada e a dívida perpétua estão a corrigir abaixo dos 100% e os CDS (seguros para fazer face ao incumprimento da dívida) estão a valores mais altos do que em setembro de 2008, o mês da falência da Lehman.”

Se no início deste ano o custo de contratar um seguro contra o risco do Deutsche rondava os 180 euros, hoje os CDS contra a dívida a cinco anos do banco alemão já estavam perto dos 480 euros. 
Se alargamos o período da análise, a subida no custo para estar protegido dos títulos é ainda mais elevada.

“Os investidores têm que pagar um preço muito elevado para poderem cobrir o risco de crédito das obrigações do DB. 
Os CDS da dívida sénior, a 5 anos, do DB vêm dos 60 (de fevereiro do ano passado) para 247 pontos de hoje. 
A 30 de setembro de 2008, os CDS para este tipo de dívida foram aos 158. 
É um sinal alarmante do risco de crédito que os investidores atribuem em DB”, detalha João Queiroz.























CDS divida subordinada a 5 anos do Deutsche Bank

Chumbo no teste de stress aumentou alarmes 

Com um governo que tem fugido às questões sobre as crescentes dificuldades e pressões sobre o Deutsche Bank, tem cabido às principais entidades financeiras mundiais tentar chamar a atenção para o risco sistémico que o colosso alemão faz pender sobre toda a economia mundial. 

O Fundo Monetário Internacional alertou a 30 de junho que o Deutsche Bank apresenta o maior risco para a estabilidade financeira mundial, na última atualização ao Financial Sector Assessment Program, documento onde pede ao governo alemão que confirme ter todas as ferramentas para lidar com uma resolução bancária. 

No mesmo dia, a Reserva Federal divulgou que as subsidiárias norte-americanas do Deutsche Bank e do Santander chumbaram no teste anual de stress daquela autoridade, devido a falhas nos planos de capital e de gestão de risco. 
E este terá sido um dos catalisadores de nova fuga de investidores do banco alemão. 
Até porque no final do mês serão conhecidos os resultados dos testes de stress na Europa.

“A verdade é que os investidores estão a desfazer-se rapidamente dos papéis do Deutsche Bank, o maior banco da Alemanha e um dos maiores da Europa. 
Os ativos do Deutsche Bank são quase metade do PIB alemão. 
Os sinais alarmantes agudizaram-se desde que o banco falhou os testes de pressão (testes de stress) dos EUA e à medida que se aproxima a data em que terá que se adequar aos novos rácios de capital, exigidos para os bancos europeus”, comenta João Queiroz ao Dinheiro Vivo. 

“Algo que nos deixa ainda mais preocupados é o poder de contágio a toda a banca europeia e não só: o DB é, dos bancos universais, aquele que mais tem relações com outras instituições de crédito”, conclui o Diretor de Negociação do Banco Carregosa. 

Ontem, o mesmo responsável do Carregosa, e em declarações ao Dinheiro Vivo sobre a situação italiana, já tinha apontado como “bastante assustador” o facto de o mercado atualmente atribuir ao Deutsche Bank uma capitalização bolsista a rondar os 17 mil milhões de euros, quando a instituição detém mais de 1,6 biliões em ativos.

Itália, Alemanha, as regras e os contágios 

Ontem, e em declarações sobre a situação da banca italiana, a equipa de research do BiG alertou para o impacto que a recapitalização dos bancos transalpinos pode ter no restante sistema financeiro, em declarações ao “Dinheiro Vivo”. 

Há, neste momento, duas opções em cima da mesa em relação à Itália e ambas acarretam riscos de dimensões difíceis de prever. 
Por um lado, Matteo Renzi pode furar as regras europeias e avançar com a recapitalização da banca sem impor perdas aos credores privados. 
Uma decisão deste género poderia aliviar o stress sobre a banca mas representaria mais um golpe à credibilidade do projeto europeu. 

“Caso Bruxelas decida quebrar as regras de resgates à banca que entraram em vigor este ano, deixando o Estado italiano participar no resgate (…), isso poderia aliviar o stress sobre os bancos, mas iria enfraquecer a credibilidade nas regras e o tecido político de Bruxelas, exacerbando o discurso anti-bancos e reforçando as forças mais radicais”, apontou o BiG. 

Mas se Bruxelas forçar a imposição de perdas nos bancos italianos a troco de recapitalização, a situação pode tornar-se igualmente perigosa: “Caso a UE não deixe quebrar (…) poderá haver consequências imprevisíveis e graves seja a nível financeiro, seja político – forçando perdas a acionistas, credores e depositantes, o que poderá gerar um evento de risco sistémico tendo em conta a magnitude do nível de recapitalização” em preparação em Itália. 
E neste impacto sistémico voltamos a encontrar o Deutsche Bank.
“Este será o ‘último muro’ até aos riscos/incerteza que pairam sobre o nível de capitalização dos maiores bancos europeus – por exemplo o Deutsche Bank – , o que poderia equivaler a uma espécie de momento ‘Lehman’ para todo o sector financeiro Europeu”, apontou a equipa de research do BiG ao Dinheiro Vivo.

Deutsche Bank e Santander falham testes de ‘stress’ norte-americanos

TESTES DE STRESS
Dinheiro Vivo/Lusa
30.06.2016 / 10:53





















Subsidiárias norte-americanas do banco alemão e do espanhol chumbaram no teste anual de stress, devido a falhas nos planos de capital e gestão

As subsidiárias norte-americanas do banco alemão Deutsche Bank e do espanhol Santander chumbaram no teste anual de stress da Reserva Federal (Fed), devido a falhas nos planos de capital e gestão de risco. 

O Santander Holdings USA falhou a avaliação do banco central americano pela terceira vez consecutiva e o Deutsche Bank Trust Corporation pelo segundo ano. 
Por outro lado, o Fed deu uma aprovação condicionada à remuneração acionista do Morgan Stanley e aprovou os planos de distribuição de capital de outras 30 instituições financeiras. 

Na semana passada, o Fed anunciou que os 33 bancos considerados sistémicos para o sistema financeiro, ou seja “demasiado grandes para falir”, tinham passado nos aspetos quantitativos do teste de ‘stress’, o que significa que considerou que tinham capital suficiente para aguentar um grande choque económico, como uma recessão grave. 

No entanto, o Fed disse hoje que detetou, nos resultados finais do teste, falhas significativas no que respeita aos aspetos “qualitativos” de retorno de capital aos acionistas propostos pelo Santander e pelo Deutsche Bank, considerando que se baseavam em pressupostos que “não eram razoáveis nem apropriados”. 

A consequência imediata desta decisão é bloquear qualquer tipo de distribuição de capital dos dois bancos. 

O Morgan Stanley pode faze-lo, mas terá de resolver as falhas identificadas num período de seis meses. 
Se não conseguir cumprir as recomendações neste prazo, o Fed pode bloquear distribuições adicionais. 

O Fed considerou que o facto de a grande maioria das instituições ter recebido aprovação mostra as vantagens dos requisitos de capital impostos pelo banco central americano desde a crise financeira de 2008.

FMI: Deutsche Bank é o maior risco mundial para a estabilidade -

DEUTSCHE BANK
Filipe Paiva Cardoso
30.06.2016 / 11:37





















FMI recomenda às autoridades alemães que examinam os planos de resolução para os bancos de forma a garantir que estes estão devidamente operacionais

O alemão Deutsche Bank é a instituição financeira que atualmente mais riscos coloca sobre a estabilidade mundial enquanto fonte potencial de choques externos, alertou o Fundo Monetário Internacional (FMI) num relatório publicado esta quarta-feira à noite. 

“Entre os bancos globais de importância sistémica [G-SIB], o Deutsche Bank aparenta ser o maior contribuinte líquido para riscos sistémicos, logo seguido do HSBC e do Credit Suisse”, refere o FMI no relatório Financial Sector Assessment Program, ontem atualizado. 

“A importância relativa do Deutsche Bank realça a importância da gestão de risco, da intensa supervisão dos G-SIB e da monitorização apertada das exposições transfronteiriças, assim como da urgência em completar os novos regimes de resolução”, aponta o FMI. 

As conclusões do FMI surgiram quase em simultâneo à divulgação por parte da Reserva Federal de que as unidades norte-americanas deste banco alemão e do espanhol Santander chumbaram nos testes de stress daquele país, tendo sido os únicos em 33 entidades a chumbar.

Mas além do Deutsche Bank, o FMI alerta para todo o sistema bancário alemão, francês, britânico e norte-americano: “Alemanha, França, Reino Unido e os EUA apresentam o maior risco de contágio dada a percentagem de perdas de capital que podem infligir em outros sistemas bancários.” 
A análise do FMI destaca que apesar dos riscos de contágio interno destes sistemas estarem controlados, estes acabam por apresentar um maior potencial para contágios externos. 

O FMI conclui recomendando às autoridades alemães que reexaminem todos os planos de resolução para os bancos de forma a garantir que estes já estão devidamente operacionalizados, incluindo a capacidade para avaliar em tempo útil os ativos eventualmente transferidos em contexto de resolução. 

Ontem, o ministro das Finanças alemão foi confrontado com os riscos crescentes sobre o Deutsche Bank, tendo evitado a pergunta ao “ameaçar” Portugal com um novo resgate na resposta sobre o banco alemão. 
Já o Deutsche Bank, contactado pelo “Wall Street Journal“, recusou fazer comentários às conclusões do FMI.

























As ligações (e como se espalhou o risco sistémico) entre as maiores instituições financeiras mundiais. Fonte: FMI