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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O que falhou e porque Monchique continuou a arder? Oito perguntas e respostas /premium

MONCHIQUE
Cátia Bruno, Rita Dinis e Rui Pedro Antunes          09 Agosto 2018
















O fogo de Monchique só foi "dominado" ao oitavo dia. 
Como se explica que uma área de risco esteja a arder durante tanto tempo? 
Falha ou inevitabilidade? 
Oito perguntas e respostas sobre o incêndio.

Trinta e nove feridos, um deles grave, 50 casas ardidas, quase 27 mil mil hectares consumidos pelas chamas em sete dias de fogo. 
Monchique ardeu, mas o Governo insiste que não houve falhas e destaca a maior vitória neste grande incêndio: não houve vítimas mortais. 
O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, enalteceu na noite de quinta-feira, dia 9, que o “incêndio está estabilizado sem perda de qualquer vida humana”. 
Também o primeiro-ministro, disse na quarta-feira que Monchique foi a “exceção que confirmou a regra do sucesso”. 
Isto embora António Costa tenha depois dito que as suas declarações — que repetiu duas vezes e num contexto que justificava os títulos feitos — foram “deturpadas e descontextualizadas”.

O Observador ouviu especialistas em incêndios, constitucionalistas, operacionais no terreno, membros da Autoridade Nacional da Proteção Civil e diversas outras entidades para responder às grandes dúvidas que saem deste incêndio: como começou? 
Que falhas existiram? 
Por que razão ardeu de forma descontrolada durante sete dias?

1 - Porque ardeu Monchique durante sete dias?
A complexidade e a intensidade do fogo de Monchique não surpreende nenhum especialista contactado pelo Observador. 
Depois dos fogos trágicos do ano passado que provocaram 116 mortes, e na sequência dos trabalhos da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) de preparação para os eventuais fogos deste ano, a serra de Monchique aparecia sempre no topo dos pontos sensíveis para 2018. 
Porquê? 
Porque tem uma elevada acumulação de combustível, porque já não ardia a sério desde 2003 e porque o tempo estimado de retorno do fogo é de 12 a 15 anos. 
Ora, de 2003 para 2018 vão 15 anos, logo, a combustão da biomassa estava precisamente no seu valor mais elevado.

Depois, porque o trabalho de gestão e limpeza do material combustível não é feito devidamente, por a grande maioria do território naquela região ser propriedade privada. 
“O pequeno proprietário só gasta dinheiro para a sua gestão diária, não pensa na gestão do combustível”, afirma Francisco Oliveira Miguel, antigo coordenador da Proteção Civil. 
Isto, aliado às condições meteorológicas, torna a serra de Monchique um cenário perfeito para um incêndio.

O que fez o fogo propagar-se tão rápido e de forma tão descontrolada é o que causa mais perplexidade, mas nem aí há uma resposta única. 
Ao Observador, Paulo Fernandes, professor do Departamento de Florestas da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD), nota que o momento-chave que fez o cenário mudar de figura aconteceu ao fim de dois dias (começou na passada sexta-feira) quando o fogo mudou de área — passou de uma vegetação mais densa para um matagal alto e mais disperso. 
“O fogo começou numa área relativamente limitada e esteve dois dias a ser gerido sem se propagar muito. 
Questiono-me como é que foi possível terem deixado o fogo sair de lá”, afirma, explicando que inicialmente o fogo ardia a uma altura “abaixo das copas das árvores”, onde a velocidade do vento é menor, e quando “entrou pelo matagal alto desenvolveu-se muito mais rapidamente”.

Tem tudo a ver com o vento. 
“Quando o fogo transita para os matos, onde a velocidade do vento é duas vezes maior, isto faz com que a velocidade de propagação do incêndio triplique”, afirma o especialista da UTAD. 
Foi o que aconteceu: o incêndio passou de uma zona pura de eucalipto para uma paisagem mais selvagem com mistura de mato e árvores dispersas: tudo vegetação que cresceu depois do grande incêndios de 2003 e que, como tal, está no seu auge de combustão.

Provavelmente não há uma resposta certa para a pergunta “porque é que deixaram o fogo sair daquela zona inicial”. 
Mas o antigo coordenador da Proteção Civil Francisco Oliveira Miguel arrisca uma explicação pragmática: uma questão de prioridades. 
É que a Proteção Civil “dá uma atenção muito maior à proteção da vida humana, primeiro, depois à proteção das infraestruturas e só depois ao ambiente”.

“Essa hierarquia de prioridades foi desviando a estratégia de combate para as urgências em vez de se concentrar numa lógica mais sustentada no tempo”, diz. 
“O que aconteceu em Monchique foi que só quando a estabilização das povoações ficou mais controlada é que se começou a pensar de outra forma e a analisar o terreno”.

2 - Os meios enviados para o local são suficientes?
Os meios foram para o local rapidamente e em força, como mostram os dados da própria Proteção Civil (cedidos ao Observador pelos gestores do site Fogos.pt). 
Pouco depois do fogo ser detetado, às 12h46 de dia 4 de agosto, já estavam no local 34 operacionais, sete veículos e dois meios aéreos. 
Uma hora depois, já eram 205 os efetivos no local, 58 meios terrestres e 9 meios aéreos. Nesse primeiro dia, às 19h27, já eram 414 os efetivos no terreno, 129 os meios terrestres e 10 os meios aéreos. 
O dia fechou ainda com mais operacionais (eram já 611 os efetivos) e meios terrestres (177), enquanto os meios aéreos não podiam voar. 
A partir de sábado houve sempre entre 700 a 1000 operacionais. 
Também houve vários meios aéreos. 
Perante estes dados, os especialistas acreditam que não foi por falta de mobilização de meios que o fogo não foi extinto mais cedo.

Segundo Francisco Oliveira Miguel, não é uma questão de insuficiência de meios mas sim de “ausência de meios especializados”. 
Já era isso, de resto, que apontava o relatório da Comissão Técnica Independente a propósito dos fogos de Pedrógão e da zona centro: “Faltam-nos bombeiros florestais”. 
E qual é o perfil e o objetivo do bombeiro florestal? 
“É aquele indivíduo que, com ferramentas manuais ou máquinas pesadas, vai para o meio do monte fazer o trabalho de antecipação e de separação da área ardida com a vegetação por arder”, explica, sublinhando que têm de ser profissionais especializados, e que esse trabalho não pode ser feito apenas por sapadores florestais. 
Segundo este antigo coordenador da Proteção Civil já há equipas das forças especiais de bombeiros em Portugal que frequentam cursos de análise de incêndios, mas é ainda assim uma formação insuficiente.

3 - Era possível evitar ou travar o fogo mais cedo?
Em teoria sim, na prática não. 
Segundo os especialistas consultados pelo Observador, existem formas de focar as atenções no combate ao incêndio florestal para evitar que este se propague floresta fora; mas as condições do país, tanto no ordenamento do território como na estrutura de combate ao fogo, tornam difícil a aplicação dessas soluções.

O antigo coordenador da proteção civil Francisco Oliveira Miguel, que esteve no terreno em Monchique a dar apoio, explica ao Observador que as operações de combate a incêndios em Portugal estão geralmente consumidas pelas prioridades de proteção da vida humana e de infraestruturas, deixando a defesa do ambiente — ou seja, da floresta — para segundo plano. 
No caso concreto de Monchique, explica, só houve espaço para pensar na terceira dimensão “a partir da noite de terça feira, quando a operação acalmou”, já que até aí o foco foi em evitar que o fogo chegasse perto das populações.

Para além disso, a capacidade das equipas no terreno nesta matéria é limitada. 
“Esta terceira prioridade exige conhecimento profundo do território, exige análise técnica do território e exige operacionais no terreno que saibam orientar. 
Isto falta em Portugal”, explica Oliveira Miguel, sublinhando que a formação desta capacidade técnica demora tempo.

Isso mesmo reforça Paulo Fernandes: “É impossível mudar de um ano para o outro um sistema que sempre funcionou assim.” 
O nosso sistema de proteção civil, da forma como está montado atualmente, é reativo, porque se concentra em salvar as pessoas e não em prevenir o incêndio. 
“É uma bola de neve. 
Quanto maior o incêndio se torna, mais aldeias precisam de evacuação”, reforça Paulo Fernandes.

A formarem-se as tais equipas técnicas que combateriam o incêndio dentro da floresta, estas poderiam ser compostas por sapadores. 
No terreno, estas equipas podem seguir algumas estratégias concretas para evitar reacendimentos, como explica Paulo Fernandes. 
“A única forma de evitar é gerir [o terreno] na forma de mosaico ou criar faixas para quebrar a continuidade do fogo”, explica ao Observador. 
Estas estratégias, diz, não foram seguidas, devido às dificuldades colocadas pelo ordenamento do território. 
“As únicas zonas onde isto é feito são no Norte do país, em territórios baldios do Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta, onde não há propriedade privada”, resume. 
“No Sul, como é propriedade privada, não se faz.”

Num sistema de combate perfeitamente planeado e oleado, dizem os especialistas, deveria existir de imediato no terreno uma destas equipas a trabalhar só na dimensão de proteção da floresta, para evitar que o fogo se propague e para prevenir os reacendimentos. 
Mas, mesmo constituindo essas equipas, tal não chega. 
“A estrutura de comando tem de ter capacidade de as absorver”, alerta o antigo coordenador da Proteção Civil.

Para Francisco Oliveira Miguel, no momento atual “não há margem” no comando de decisão para olhar para a área de combate ao fogo na floresta, com a atenção a ser consumida pelas restantes dimensões. 
Significa isso que o comando de operações deve então ser dividido por várias pessoas? Para este especialista, essa também não é a solução. 
“O que se pode fazer é treinar as nossas organizações, sobretudo a ANPC, para encontrar um formato, ativar uma série de células de antecipação, etc.” 
As propostas muitas vezes já são feitas a nível informal, explica, mas falta “capacidade de as validar e executar” por quem está acima.

4 - Que falhas existiram no combate ao incêndio?
Ao longo dos últimos dias têm sido várias as falhas apontadas à coordenação do incêndio, que ficou nos primeiros cinco dias a cargo do Comandante Distrital de Faro, Vítor Vaz Pinto. O presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais, Fernando Curto, denunciava na terça-feira que a estratégia não estava a dar resultados, criticando uma “má coordenação de homens e meios” e falando numa “desorganização total em que ninguém se entende”.

Na quarta-feira, foi a vez do presidente da Associação Portuguesa de Bombeiros Voluntários, Rui Silva. Queixou-se que “tem sido unânime a opinião das populações que não encontram os bombeiros quando precisam”. E acrescentou, responsabilizando o comando distrital: “Muitos voluntários que estão lá sentem que podiam fazer muito mais.”

O Observador falou com especialistas e operacionais que combateram o fogo no terreno que têm apontado algumas falhas e caminhos alternativos:
  • Não-ativação do plano de emergência. No dia 2 de agosto o presidente do Comissão Distrital de Proteção Civil, Jorge Botelho, afirmou, citado pelo jornal Região Sul, que não havia necessidade de ativar um plano de emergência distrital. Para operacionais que passaram por Monchique, isto foi um erro, já que iria começar uma onda de calor e Monchique estava mais do que identificada como zona de risco. Com este plano ativado haveria logo mais meios para vigilância e para o ataque inicial ao incêndio.
  • Primeira ignição desvalorizada. Logo na quinta-feira houve um incêndio em Portela das Eiras, que foi extinto ao fim de 6/7 horas. A ignição desse incêndio foi a 12 quilómetros da ignição do grande incêndio que lavra há sete dias. No entender de um especialista ouvido pelo Observador e que esteve no terreno, as equipas que foram enviadas para o primeiro incêndio deviam ter continuado naquele local, mantendo vigilantes e meios de combate por perto nas horas e dias seguintes. Isso, acreditam, teria permitido uma resposta mais imediata à primeira ignição e, eventualmente, extinguir o fogo mais rapidamente.

  • Máquinas de rasto sem estratégia. O Parlamento aprovou por unanimidade um projeto de resolução que recomendava ao Governo a elaboração de um plano de utilização das máquinas de rasto no combate aos incêndios florestais. A proposta é de abril, mas o plano não foi criado antes do início da época de incêndios. Em Monchique, alguns operacionais queixam-se que as máquinas de rasto só começaram a operar no sábado, quando deveriam ter começado logo durante o dia na sexta-feira (o incêndio começou pelas 14h00). Há também relatos, recolhidos pelo Observador, que a maior parte das máquinas de rasto têm estado paradas. A comandante operacional nacional adjunta, Patrícia Gaspar, destacou esta quinta-feira a importância das máquinas de rasto. Um especialista ouvido pelo Observador acredita que se as máquinas de rasto tivessem sido utilizadas na frente que seguia para a vila Monchique, o fogo poderia não ter galgado a Estrada Nacional 266, o que permitiria uma melhor defesa da povoação. Ao invés disso, as máquinas terão sido utilizados na frente de Portimão para travar a progressão em direção ao autódromo internacional do Algarve.

  • Bombeiros sem gastar um único litro. Houve algumas corporações de bombeiros que se queixaram de passar várias horas, ou até dias, em Monchique sem que fossem mobilizados. Isso levou, até, o presidente dos bombeiros voluntários a mostrar desagrado com esse facto.

  • Residentes tratados como turistas. Quando começou a evacuação das casas, as autoridades começaram a dividir os estrangeiros por autocarros: ingleses num autocarro, holandeses noutro e alemães noutro e irlandeses noutro (eram estas as principais nacionalidades). Mas não perguntaram quem era turista e quem era residente. Mais tarde, nos centros de acolhimento, havia imigrantes que queriam voltar às suas casas e as autoridades insistiam que não podiam voltar aos hotéis ou turismo rural, não percebendo que se tratavam de residentes em Portugal.

5 - Porque o comando nacional não assumiu a coordenação mais cedo?
A coordenação passa para o comando nacional a partir do momento que é ativado o nível cinco do Sistema de Gestão de Operações (SGO), que foi revisto em abril deste ano. 
De acordo com o SGO, esse nível deve ser ativado assim que se ultrapassem os 648 efetivos no terreno. 
Ora, de acordo com a informação que foi colocada no próprio site da Proteção Civil — cujas sucessivas alterações foram sendo registadas pelo site Fogos.pt, que cedeu essa informação ao Observador — esse número foi ultrapassado às 02h06 de sábado, dia 4 de agosto. 
Ainda assim, só no dia 7 de agosto, esta terça-feira, quando já estavam mais de 1200 efetivos no local, é que o comando distrital passou para o nível nacional.

A segunda comandante operacional nacional da Proteção Civil, Patrícia Gaspar, veio esta quinta-feira — depois de uma notícia do Público sobre o assunto — justificar o facto da mudança ter demorado três dias com o facto de o SGO ser “flexível” e não para seguir à risca. 
A Proteção Civil fez ainda um esclarecimento a explicar que “a mudança do comando se processou de acordo com os princípios enunciados no SGO e em função da apreciação da evolução da operação que foi feita a cada momento”. 
Fica, assim, a saber-se que só ao quinto dia, a 7 de agosto, é que o comando nacional considerou que a gestão da situação era suficientemente complexa para subir a operação para nível cinco e assumir o controlo da operação.

Ao Observador, Francisco Oliveira Miguel defende que não é por a lei balizar que a partir dos 648 operacionais o comando deve passar para o comando nacional que essa transição deve ser feita imediatamente. 
“Era muito delicado mudar o comando naquela altura”, defende, sublinhando que essa mudança demora horas e implica a suspensão de todo o processo de tomada de decisões. “A passagem do comando demora no mínimo duas a três horas e se implicar escalões intermédios demora ainda mais”, nota, acrescentando que exige “calma e serenidade”. “Essas condições de relativa acalmia só aconteceram na terça-feira”.

6 - Quantas casas arderam?
Ainda não é possível saber o número concreto de casas ardidas. 
Esta quinta-feira, a comandante das operações de socorro Patrícia Gaspar confirmou aos jornalistas que as autoridades ainda não sabem quantas casas de primeira habitação arderam. 
“Não conseguimos dizer”, admitiu, sublinhando que os esforços têm estado concentrados na proteção de pessoas. 
“Esse trabalho [de contagem] está a ser feito em conjunto com as autarquias”, garantiu.

Os autarcas no local, contudo, já avançam com algumas estimativas. 
O presidente da Câmara de Monchique, Rui André, explicou esta quinta-feira que o número de casas destruídas no seu concelho, total ou parcialmente, pode estar perto das 50. “Penso que de primeira habitação, totalmente destruídas, serão menos de metade desse número”, acrescentou Rui André, sublinhando que existem também “anexos ou casas de apoio” afetados. 
Uma equipa multidisciplinar está atualmente no local a tentar avaliar a dimensão dos danos. A autarca de Silves, Rosa Palma, disse não ter conhecimento de casas afetadas no seu conselho.

7 - As pessoas podem ser retiradas de suas casas à força pela GNR?
De acordo com a lei, sim. 
Mas tal não significa que nessa retirada a força não seja usada de forma “proporcional”. Centenas de pessoas têm sido retiradas das suas casas nos concelhos de Monchique, Silves e Portimão, tendo algumas delas regressado entretanto — o que dificulta a contagem exata de deslocados. 
Certo é que só no passado domingo 110 pessoas foram retiradas de vários lugares no concelho de Monchique e até no de Odemira.

Desde então, o pavilhão multiusos de Portimão já recebeu entre 160 a 170 pessoas, de acordo com informações da presidente da Câmara de Portimão, Isilda Gomes. 
Também a autarca de Silves, Rosa Palma, explica que nesta noite de quarta-feira dez localidades do seu concelho foram evacuadas, tendo os habitantes pernoitado numa escola e regressado entretanto às suas casas.

São vários os relatos, contudo, de moradores que se recusam a largar as suas habitações, como o Observador presenciou.

“Não quero que esta seja a sua última casa”, disse um agente da Guarda Nacional Republicana (GNR) a uma mulher na aldeia de Enxerim, a fim de a convencer a abandonar o local.

Os agentes têm usado de todos os meios ao seu dispor para retirar as pessoas das aldeias que o comando pretende evacuar, mas há quem resista — tendo havido mesmo relatos de moradores levados “em algemas”, de acordo com o vereador de Monchique José Chaparro, ou de uma intervenção mais musculada pelas forças de intervenção em alguns locais.

A GNR tem apelado às populações para que obedeçam às ordens das autoridades no local, sublinhando “a necessidade de cumprir com as indicações e orientações das autoridades, principalmente nos procedimentos a adoptar em caso de evacuação”. 
Mas, em caso de recusa, podem as autoridades forçar os cidadãos a abandonarem as suas casas?

Para o especialista em Direito Constitucional Paulo Otero, a resposta é um redondo ‘sim’, apesar de sublinhar a “dificuldade para todos” da situação. 
“A Constituição é muito clara quanto a isso. 
A defesa da inviolabilidade da vida humana é clara”, diz ao Observador. 
Isso significa que o Estado, através das suas autoridades, tem plenos poderes para retirar pessoas de um local se as vidas humanas estiverem em risco, já que “a salvaguarda da vida humana se impõe à salvaguarda dos bens de natureza material” — neste caso, as casas.

Além disso, explica, há ainda que ter em conta “o interesse público”. 
“A intervenção da GNR pode servir para evitar a dispersão de meios dos bombeiros, por exemplo”, afirma o constitucionalista. 
“As pessoas não podem estar à espera que os bombeiros as venham salvar porque eles podem estar mobilizados para outras zonas de interesse como o centro da vila, por exemplo.”

Opinião semelhante tem o advogado Ricardo Serrano Vieira, ouvido pela Renascença: “A atuação policial está legitimada no Código Penal. 
Queremos salvaguardar a vida e a ordem está legitimada quando há o perigo concreto que pode lesar o bem jurídico que é a vida. 
Os agentes da autoridade têm de agir em conformidade”, afirmou, destacando que os próprios militares podem ser responsabilizados se não conseguirem retirar as pessoas como lhes foi ordenado.

Tal não significa, contudo, que não tenham de ser respeitados outros princípios, explica Paulo Otero. 
“A atuação tem de ser adequada, necessária e razoável”, diz ao Observador. 
“Eles devem usar todos os meios de acordo com a proporcionalidade. [Os agentes] não podem desatar aos tiros ou usar o cassetete, porque isso põe em causa a dignidade humana das pessoas. 
Mas podem pegar nas pessoas ao colo, por exemplo.”

Embora defenda a retirada de pessoas de local mesmo que contra à sua vontade, o jurista afirma que o Estado não deve de seguida acusar judicialmente os que recusaram sair pelo crime de desobediência: ”Levantar processos-crime a quem se recuse a sair seria desumano e frio”, resume Otero. 
“As forças de autoridade têm poder para intervir, mas não podem criminalizar quem não cumprir. 
Esse deve ser o equilíbrio do Direito.”

8 - A limpeza total das matas teria impedido o fogo de chegar às casas?
Paulo Fernandes, da UTAD, considera que, num incêndio desta intensidade, é uma ilusão achar que essa medida seria suficiente para impedir o fogo de chegar a casas. 
“Neste tipo de incêndios rápidos e intensos, as casas ardem devido a projeções que vêm de longe e a fagulhas e lenha acumulada”, explica. 
“Depende mais da casa e do que está adjacente do que da limpeza à volta da casa.” 
A experiência de Pedrógão serviu até para compreender isso mesmo, sublinha Fernandes, que garante que a grande maioria das casas nesse incêndio “arderam não pela chama direta do fogo, mas pelas projecções”.

O constitucionalista Paulo Otero acrescenta ainda que a grande campanha que foi feita em torno da limpeza das matas poderia até ter sido substituída por outro tipo de campanha — em torno da necessidade de respeitar as ordens de evacuação, por exemplo. 
A sensibilização para esta matéria, diz, “seria bem mais importante do que outras que passaram nas televisões”, como a de limpeza das matas. 
“Isto faz parte de uma cultura de prevenção”, resume.

O próprio Governo compreendeu a necessidade de sensibilizar as populações nessa matéria, mencionando-o no guia do programa “Aldeias Seguras”, apresentado em abril deste ano. 
Nesse plano, que deveria ser aplicado em conjunto entre a administração central e as autarquias, foi prevista a criação da figura de um oficial de segurança local e a elaboração de planos de evacuação locais para as zonas de risco de incêndio que deveriam “envolver os cidadãos”. 
A ANPC, contudo, coloca nas autarquias o ónus de sensibilização da população para a necessidade de estar preparado para uma possível evacuação. 
No documento, pede-se aos municípios e às freguesias que realizem “um esforço comunicacional direcionado para a adoção de comportamentos práticos” por parte dos habitantes.

Marcelo propôs uma comissão, mas já existe observatório para fazer o mesmo

INCÊNDIOS FLORESTAIS
Liliana Valente
13 de Agosto de 2018, 7:34 P
Marcelo esteve este fim de semana em Monchique e Silves

O Presidente da República sugeriu a criação de uma comissão independente para avaliação da actuação nos incêndios. 
No início do mês, promulgou a criação do Observatório com o mesmo fim.

O Presidente da República quer que os incêndios sejam analisados à lupa e de forma independente e por isso, na visita que fez este fim-de-semana a Monchique propôs a constituição de uma comissão independente que funcione junto da Assembleia da República. 
Acontece que já existe, pelo menos no papel, uma entidade exactamente com as mesmas funções descritas por Marcelo Rebelo de Sousa, o Observatório Técnico Independente (OTI).

Em visita a Monchique, no sábado, o chefe de Estado diz que a ideia lhe surgiu por acaso, depois de uma reunião com operacionais. 
Aí, defendeu a criação de uma "comissão independente permanente" que "ajude" o Governo e trabalhe em conjunto com a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF), que está em constituição. 
Para Marcelo, a comissão poderia estudar os dados sobre ignições, fogos registados e analisar se a "forma de prevenção" ou se as respostas resultaram.

Acontece que, com outro nome, a Assembleia da República já tem uma entidade para fazer a tal recolha de dados e análise, com a obrigatoriedade de fazer dois relatórios por ano. 
O Observatório Técnico Independente foi aprovado na última sessão do Parlamento, a 18 de Julho, com os votos a favor de todos os partidos, menos do PS. 
O Observatório, proposto pelo PSD, foi aliás já promulgado pelo Presidente no dia 2 de Agosto.

No decurso da visita, Marcelo foi questionado sobre este Observatório e primeiro defendeu que este servia apenas para recolha de dados, informado que não, que servia também para uma avaliação, considerou ser então suficiente.

Na verdade, o Observatório ainda não saiu do papel, uma vez que precisa agora de ser constituído. 
De acordo com o decreto aprovado e promulgado, o OTI, que decorre da ideia da comissão técnica independente que analisou os incêndios do ano passado, contará com dez técnicos independentes que devem apresentar dois relatórios por ano, um em Junho e outro em Dezembro, durante os próximos quatro anos.

No decreto, várias são as competências deste Observatório, desde logo "proceder a uma avaliação independente dos incêndios florestais e rurais que ocorram em território nacional, prestando apoio científico às comissões parlamentares com competência em matéria de gestão integrada de incêndios rurais, protecção civil, ordenamento do território, agricultura e desenvolvimento rural, floresta e conservação da natureza".

Nas suas competências, está ainda incluída a emissão de "pareceres na revisão do Plano Nacional de Gestão Integrada de Fogos Rurais"; "Analisar e avaliar todas as origens, características e dinâmicas dos incêndios" para os quais a Assembleia peça a sua colaboração e ainda, e sobretudo, "participar activamente no esclarecimento do público não especializado e do decisor político sobre medidas técnicas e políticas em discussão no âmbito da prevenção e combate a incêndios rurais".

liliana.valente@publico.pt

“PSD vai pedir explicações e não vai ser meigo”

INCÊNDIOS FLORESTAIS
São José Almeida
10 de Agosto de 2018, 6:00 
David Justino, vice-presidente do PSD, garante que o PSD vai pedir responsabilidades políticas sobre o incêndio de Monchique 






















BE, PCP e CDS também deixam as ilações políticas para depois da extinção do incêndio

“Em seu tempo, o PSD vai pedir explicações e não vai ser meigo a pedir responsabilidades”, declarou ao PÚBLICO o primeiro-vice-presidente do PSD, David Justino, sobre o incêndio que começou sexta-feira passada na serra de Monchique, garantindo: “Não queremos combate político antes de se combater o fogo.”

Recusando o aproveitamento político, o vice-presidente do PSD explicou que “logo que o fogo esteja extinto, poderá ser percorrido e analisado o filme dos acontecimentos”, e só depois o partido tomará posição. 
Acrescentando: “Questionaremos o Governo na devida altura.”

David Justino não deixou, porém, de considerar que “as declarações do primeiro-ministro foram infelizes, uma vez que diz que onde correu bem é um sucesso do Governo e onde correu mal é responsabilidade das condições climatéricas”.

O vice-presidente do PSD fez questão de adiantar que “há coisas que, desde já, causam estranheza”. 
Avançando com a colocação de questões: “Como se passa de um incidente confinado na zona inicial que as autoridades assumem que é controlável para uma situação de descontrolo? 
Há condições que ajudam à propagação do incêndio, mas porque se descontrolou?”

Outra questão que, para o PSD, se coloca é a de saber como é que, ao oitavo dia de incêndio, “ainda não se percebe o que se passou, para mais quando há todos os meios envolvidos e 1400 homens”. 
Desde já, o PSD avisa que quer “ouvir os bombeiros que dizem que há falta de coordenação na cadeia de comando, não possibilitando condições de combate”.

Por sua vez, em nota enviada às redacções, o BE anuncia que decidiu cancelar os dois comícios de Verão agendados para sexta-feira, em Quarteira, e sábado, em Monte Gordo, devido ao incêndio de Monchique, “acontecimento que acompanha com preocupação”, tendo dirigentes no terreno “em permanente contacto com as populações afectadas”, entre os quais destacam o deputado João Vasconcelos, eleito pelo distrito de Faro e vereador na Câmara Municipal de Portimão.

“Tendo em conta a evolução dos acontecimentos no terreno, e tendo a preocupação de não perturbar de forma alguma as operações de combate ao fogo e de retirada das populações para locais seguros, o BE está neste momento a avaliar se existem condições para efectuar novas visitas aos locais que foram afectados pelo fogo, por parte de outros dirigentes nacionais do partido”, acrescenta a nota.

Por sua vez, o PCP, logo quarta-feira, em nota enviada às redacções, afirma que “o tempo é de dar combate às chamas e não de fazer balanços prematuros”. 
Mas também quer saber “as razões que expliquem por que é que, com a concentração de meios que tem sido possível assegurar no terreno, o fogo prossegue sem dar tréguas”. Quer apurar “aspectos de natureza técnica e de comando”, para além de querer reflectir sobre problemas estruturais com que a floresta e o seu ordenamento se confrontam”. 
Por fim, manifesta a “solidariedade com a população, os bombeiros e outros agentes da protecção civil”.

Também na quarta-feira, a presidente do CDS-PP, Assunção Cristas, manifestou a estranheza com a situação do incêndio iniciado em Monchique: “Ficamos perplexos. 
Como é que há um incêndio a lavrar há seis dias sem ainda estar totalmente dominado?”

Assunção Cristas disse não querer “fazer comentários em excesso” sobre um incêndio ainda por dominar, mas sublinhou que “o Governo tem estado ausente” e, garantindo que não quer fazer “ruído político”, questionou: “Por que é que demorou cinco dias para que este incêndio tenha sido assumido pelo comando nacional?...”

sao.jose.almeida@publico.pt

PSD critica triunfalismo do Governo, mas está disponível para aprovar medidas


INCÊNDIOS

Sofia Rodrigues
13 de Agosto de 2018, 12:28  
david Justino comentou incêndios
Sociais-democratas admitem alterar configuração da comissão técnica independente para ir ao encontro da sugestão do Presidente da República.     

O vice-presidente do PSD David Justino criticou a falta de “recato, humildade e precipitação” por parte do Governo a propósito dos incêndios de Monchique, mas mostrou-se disponível para aprovar “soluções”. 

Em conferência de imprensa esta segunda-feira de manhã, David Justino começou por justificar o silêncio do partido sobre os incêndios de Monchique nos últimos dias com a ideia de não fazer “combate político” enquanto decorriam as operações de combate ao fogo que lavrou vários dias.

O dirigente criticou as declarações do primeiro-ministro que falou em vitória por não se ter registado vítimas mortais. 
“Essa deveria ser a situação normal e que não justifica a declaração de júbilo e de vitória”, disse, considerando que essa ideia é precipitada. 
“Este Governo contenta-se com o mal, sugerindo que poderia ter sido pior”, apontou, acusando o Governo de “ocultar” outros dados: “Portugal tem a maior área ardida, para começo de época reconheçamos que não é animador”.

David Justino condenou ainda as declarações de António Costa ao Expresso em que considerava que os incêndios de Monchique foram a excepção que confirmou a regra. 
“O que há é falta de recato, humildade e precipitação. 
Recato porque é produzida no auge do combate, precipitação porque é o início de época deste Verão que é tardio”, afirmou, recordando que o próprio Marcelo Rebelo de Sousa apelou para que “cessassem os triunfalismos”. 

Mesmo as publicações do primeiro-ministro na conta oficial do Twitter durante o incêndio, em que António Costa aparecia no gabinete a acompanhar a situação no terreno, foram consideradas desnecessárias. 
“Houve estratégia de comunicação a mais e combate a menos”, apontou, recomendando ao Governo: “Concentrem-se mais em resolver os problemas do país do que em fazer campanha eleitoral que ainda vem longe”.

Apesar do tom crítico, o vice-presidente e presidente do Conselho Estratégico Nacional do PSD anunciou que o partido “está disponível para encontrar soluções, agilizar processos e viabilizar medidas para ultrapassar esta situação”. 
Uma postura que já aconteceu na última legislatura com medidas aprovadas na Assembleia da República. 
Entre elas está a comissão técnica independente de acompanhamento dos incêndios sugerida este fim-de-semana por Marcelo Rebelo de Sousa e que já foi promulgada pelo próprio como noticiou o PÚBLICO.

O dirigente social-democrata admitiu a disponibilidade do PSD para “dar uma nova configuração” a essa comissão, designada por Observatório Técnico Independente, “nomeadamente torna-la uma comissão permanente”. 

Acompanhado de Rui Rocha, vogal da comissão política nacional, e por Luís Pais de Sousa, coordenador do Conselho Estratégico Nacional para a protecção civil, David Justino anunciou que o PSD vai pedir uma reunião com autarcas dos concelhos afectados pelos incêndios de Monchique. 

Sem querer entrar nos detalhes técnicos do combate aos incêndios de Monchique, o vice-presidente questionou o “atraso” da transferência da coordenação para o comando nacional, mas disse “compreender” com a estratégia de retirar de casa as pessoas em risco, embora isso não devesse impedir outras forças de combater o incêndio. 
“É nesse sentido que essa estratégia pode ter falhado. 
Salvar vidas é o normal”, afirmou. 

Numa conferência de imprensa dedicada apenas ao tema dos incêndios em Monchique, David Justino foi questionado sobre a saída de Santana Lopes do PSD para formar uma nova força política e sobre se há receio de “roubo” de votos, mas desvalorizou ao dizer que só está preocupado com problemas do país”. 
“Perante isso o aspecto que me coloca é mínimo, é insignificante”, rematou.

srodrigues@publico.pt       

domingo, 12 de agosto de 2018

Um agradecimento, uma ideia nova e uma crítica (pouco) velada: Marcelo em Monchique


MONCHIQUE
Lusa   11.08.2018 às 17h59 
























Marcelo Rebelo de Sousa esperou até o fogo de Monchique estar controlado para visitar a população afetada por seis dias seguidos de um incêndio que, depois de dado como quase dominado, voltou a varrer em força dezenas de casas e milhares de metros quadrados de arvoredo. 
O Presidente agradeceu aos bombeiros e à Proteção Civil e não deixou passar em branco a polémica sobre as declarações de António Costa

Marcelo Rebelo de Sousa não visitou Monchique enquanto o fogo ainda lavrava forte pela montanha. 
Os responsáveis da Proteção Civil advertiram contra a visita de figuras políticas ao cenário e, por isso, os afetos foram adiados para este sábado. 
O Presidente da República esteve reunido com as pessoas afetadas pelo fogo que durou seis dias e que deixou uma pessoa em estado grave, meia centena de casas ardidas e milhares de hectares de verde feitos em cinza.

Assim que saiu da reunião com a Proteção Civil, Marcelo foi interpelado por algumas pessoas que deram a entender algum desconforto com as palavras utilizadas por alguns responsáveis políticos para descrever a operação. 
O nome de António Costa não foi diretamente mencionado por nenhuma das pessoas que Marcelo ouviu ou, pelo menos, nenhuma das que tenham sido apanhadas pelas câmaras de televisão, mas a crítica ao “sucesso” do combate aos fogos, frase do primeiro-ministro, ouviu-se algumas vezes.

Costa quis dizer que o facto de ainda só se ter registado um incêndio de grandes dimensões este ano era prova do “sucesso” das medidas preventivas instaladas no terreno mas algumas vozes críticas falaram em “insensibilidade” do primeiro-ministro.

Quando falou, Marcelo disse que “é preciso ter uma grande compreensão”, rejeitando comparações com outras tragédias. 
“Não vale a pena comparar com outros incêndios porque isso não diz nada aos próprios. 
Se eu disser a uma pessoa que perde uma casa, ou perde os seus bens, ‘olhe, console-se porque no ano passado nos fogos houve muito mais casas ardidas, houve muito mais bens perdidos, houve muito mais empresas atingidas’, não consola porque para aquela pessoa aqueles bens são únicos”, afirmou o Presidente, depois de ter passado algum tempo com vários cidadãos das vilas e aldeias afetadas. 
Os cidadãos disseram ainda ao Presidente que, no entender da população, foi notória a descoordenação total na forma como foram combatidas as chamas.

Marcelo sublinhou que não é a ausência de vítimas mortais que traz "consolo" à população, recusando entrar em "triunfalismos" injustificados em relação ao incêndio. 
"O que eu sugeriria humildemente era o seguinte: sem triunfalismos, que não se justificam, sem juízos negativos definitivos já, mas sim preocupações, desabafos e sugestões para o futuro. 
Vamos terminar esta batalha, esta guerra e esta época", afirmou o chefe de Estado.

José Chaparro, vereador na Câmara de Monchique, disse a Marcelo que as pessoas foram retiradas "a mal" das suas casas pela GNR e apontou que "máquinas de rasto, militares e civis" estiveram três dias sem entrar ao serviço por "falta de indicações" do comando da Proteção Civil. 
"Houve descoordenação total. 
As pessoas que estavam à frente das operações nos 'briefings' não eram da terra e não conhecem o terreno. 
Andava tudo completamente às cegas", afirmou.

Um empresário, cujas propriedades e casas "arderam", queixou-se que na estrada do Alferce não foi visto qualquer carro dos bombeiros a ajudar ao combate e também deixou críticas à atuação dos elementos da GNR durante a evacuação das localidades. 
"No geral estiveram bem, mas devia ter havido um pouco mais de bom senso na atuação junto dos populares", afirmou.

Sobre esta matéria, Marcelo Rebelo de Sousa começou por dizer que o papel dos operacionais e da população foi "fundamental" para não haver vítimas mortais, sublinhando que a opinião pública está hoje "muito mais exigente em termos de segurança". 
"Têm de compreender que, sem querer antecipar nenhum juízo, houve uma definição de uma prioridade que foi, na medida do possível, proteger populações", afirmou, sublinhando que essa definição tem consequências, levando a "certas intervenções".

O Presidente alertou depois para o eventual cenário em que um operacional deixa de intervir atempadamente, tendo como consequência a morte de alguém: "’O senhor tinha a obrigação de intervir e evitar aquele morto ou aqueles mortos', é o que se dirá".

"Imaginam o que é o dilema de cada pessoa que intervém ponderar o grau e a forma de intervenção. 
Visto depois, com frieza, as pessoas dizem, atendendo às condições e situações, 'o tipo de intervenção foi drástico demais, incisivo demais, coercivo demais'?", acrescentou, defendendo que estas questões sejam analisadas posteriormente. 
O chefe de Estado sublinhou ainda que "o tempo disponível para tirar as lições" dos incêndios do ano passado e para "montar mecanismos preventivos" era "muito limitado".

Um cidadão ligado à área da cortiça questionou Marcelo sobre se considera que a operação de combate ao incêndio tinha sido um "sucesso", mas o Presidente da República acabou por devolver a pergunta: "Como alguém que viveu por dentro, qual é a sua opinião?". 
"A minha opinião é que não. 
Isto ardeu tudo, nós perdemos o concelho. 
Considero que foi uma derrota de toda a gente", respondeu.

Antes de dar início à sua visita, Marcelo Rebelo de Sousa deixou uma mensagem de gratidão aos operacionais que combateram o fogo, em nome de todos os portugueses. “Todos os portugueses acompanharam de perto ou de longe estes dias mais difíceis nas vossas vidas e que pela minha boca vos agradecem aquilo que foi uma dedicação, se possível, mais exigente, mais complexa, mais difícil, mais extenuante, que foi a dos últimos 10 dias”, disse o Presidente.

“Nós não esquecemos o vosso papel, mas como sabemos estamos ainda longe de ter terminado esta época de verão. 
A gratidão está sempre presente e também a sensação dos portugueses de que é bom haver quem esteja disponível para colocar as suas vidas em risco durante uma vida ao serviço deles”, acrescentou.

MARCELO PROPÕE COMISSÃO INDEPENDENTE PERMANENTE
O Presidente da República propôs, durante a sua visita a Monchique, a criação de uma "comissão independente permanente", sob alçada da Assembleia da República, para fazer a avaliação da época de incêndios e "ajudar" o Governo, o próprio chefe de Estado e instituições.

Marcelo Rebelo de Sousa fez esta proposta enquanto falava com populares, que lhe apresentaram, à saída de um 'briefing´ no posto de comando da Proteção Civil instalado no centro da vila de Monchique, diversas queixas relacionadas com a operação de combate ao incêndio naquele concelho do Algarve. 
"[Esta comissão] ajuda o Governo, ajuda o Presidente da República e ajuda todas as instituições", afirmou.

Segundo o chefe de Estado, a comissão poderia debruçar-se sobre as ignições e fogos registados e analisar se a "forma de prevenção" ou se as respostas resultaram ou não.

Marcelo Rebelo de Sousa sugeriu que a comissão permanente seja a mesma que existiu em relação aos grandes incêndios de junho e outubro do ano passado e que vá "acompanhando, em diálogo" com a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, as instituições governamentais e outras, "o que aconteceu ano após ano".

A comissão técnica independente criada no ano passado para analisar aqueles fogos, nomeada pela Assembleia da República e que produziu dois relatórios, foi liderada pelo investigador João Guerreiro, antigo reitor da Universidade do Algarve.

"Já se percebeu que o grau de exigência dos portugueses é muito alto. 
Já se percebeu que as alterações climáticas são cada vez mais complexas. 
Já se percebeu que o que sucede levanta problemas cada vez mais complexos. 
Vamos fazendo o balanço e aprendendo a lição ano após ano", acrescentou, já em declarações aos jornalistas.

O incêndio rural, combatido por mais de mil operacionais e considerado dominado na sexta-feira de manhã, deflagrou no dia 3 de agosto à tarde, em Monchique, distrito de Faro, e atingiu também o concelho vizinho de Silves, depois de ter afetado, com menor impacto, os municípios de Portimão (no mesmo distrito) e de Odemira (distrito de Beja).

A Proteção Civil atualizou o número de feridos para 41, um dos quais em estado grave (uma idosa que se mantém internada em Lisboa). 
De acordo com o Sistema Europeu de Informação de Incêndios Florestais, as chamas consumiram cerca de 27 mil hectares. 
Em 2003, um grande incêndio destruiu cerca de 41 mil hectares nos concelhos de Monchique, Portimão, Aljezur e Lagos.

Na terça-feira, ao quinto dia de incêndio, as operações passaram a ter coordenação nacional, na dependência direta do comandante nacional da Proteção Civil, depois de terem estado sob a gestão do comando distrital.

O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, já tinha afirmado que "a grande vitória" da operação de combate ao incêndio de Monchique é a inexistência de vítimas mortais, acrescentando estar satisfeito por poder "celebrar" o facto de ninguém ter morrido. Questionado depois pelos jornalistas sobre estas declarações, o Presidente da República recusou falar sobre o que, a seu ver, "não é essencial".

"É prematuro, neste momento, estar a olhar para uma batalha que está perto da conclusão mas que não está concluída e uma guerra que está longe de estar concluída e fazer um balanço daquilo que aconteceu globalmente", sublinhou.