domingo, 12 de agosto de 2018

"Foi a ganância e nada mais que a ganância que deu cabo da nossa serra"

MONCHIQUE
Ricardo J. Rodrigues  
12 Agosto 2018 — 06:31






















José Casimiro Duarte vive da profissão de pastor há muitas décadas. Aprendeu a ler os sinais que os animais e a natureza dão de que algo vai mal. Foi ele que deu o alerta para o fogo.

Foi José Casimiro Duarte quem fez soar o alarme. 
Andava com os gados ao pasto quando viu o primeiro núcleo de chamas eclodir mesmo em frente ao lugar das Taipas, nos terrenos que hoje constituem um eucaliptal chamado Perna da Negra. 
Era sexta-feira, 3 de agosto, e o homem rumava a casa com 32 cabras para o almoço.

Ali não havia rede de telemóvel, por isso correu para o alto do barranco para ligar aos bombeiros. 
A chamada passou, às 13.32 eram acionados os meios de combate para um incêndio que acabaria por se tornar o pior deste ano em Portugal. 
Sete dias de fogo deram conta de 27 mil hectares de terreno na serra de Monchique. 
Quase três Lisboas.

"Então agora, vão dizer outra vez que o eucalipto não tem culpa nenhuma disto?" 
Aqui, no lugar de ignição do fogo, não há grande volta a dar-lhe. 
Tudo o que se vê à volta do pastor é uma paisagem densa de árvores, e todas da mesma espécie. Eucalyptus globulus, milhões deles, cobrem todo este vale da serra.

"Quando o vento levantava eu só via as cascas das árvores começarem a voar para diante e isto espalhou-se num instante." 
A aldeia onde vive foi evacuada mas ele, à conta do rebanho, chegou atrasado e já não teve quem o levasse da Foz do Carvalhoso. 
José Casimiro viu o fogo marchar sobre tudo, foram mais as casas aqui que arderam do que as que ficaram de pé. 
"E eu agarrado às chibas, a ver se não nos tocava a morte." 
Salvaram-se, homem e bichos. 
"O vento levou outro destino."

Nos últimos dias a conversa de Monchique tem-se centrado na organização do combate às chamas e nas suas responsabilidades políticas. 
Mas quando se desce ao lugar onde o fogo começou percebe-se que há uma discussão para fazer antes dessa. 
A pergunta de um cuidador de cabras pode ser mais sábia do que a discussão de um país inteiro. 
"Como é que deixaram plantar aqui tantos eucaliptos depois de 2003?"

"Um monumento à ganância"
Quem sai de Monchique e atravessa a Estrada Nacional 266 em direção a Odemira não percebe a densidade do mato que existe nos vales que não se veem do alcatrão. 
Junto à estrada o eucaliptal está queimado, sim, mas apresenta-se ordenado, há espaço entre as árvores, os terrenos estão limpos. 
Quando se desce para a Perna da Negra, no entanto, um outro cenário revela-se.

É o sétimo dia de incêndio e Domingos Patacho, engenheiro florestal e especialista em política florestal da Quercus, vem a Monchique para ver aquelas propriedades. 
Fica impressionado: são quilómetros e quilómetros de árvores plantadas com uma intensidade fora do comum e nenhuma preocupação com a gestão do espaço. 
"Aqui pensou-se numa coisa e numa coisa apenas: o lucro. 
Isto é um monumento à ganância."

Nas cumeadas a floresta está mais organizada, mas no vale, precisamente o lugar mais perigoso para o fogo, chegam a ver-se 1500 árvores por hectare, quando a gestão eficiente aconselharia metade. 
"Com o tempo quente, com os níveis de humidade baixos e com esta densidade de arvoredo estavam aqui reunidas as condições para uma tempestade perfeita. 
Foi o que aconteceu."






















Domingos Patacho, engenheiro florestal e especialista em política florestal da Quercus: “Aqui pensou-se numa coisa e numa coisa apenas: o lucro. Isto é um monumento à ganância.”

A maioria dos eucaliptos está na segunda gestação, o que significa que foram plantados entre o final de 2003 e o início de 2004. 
Meses depois do primeiro grande fogo em Monchique, semeou-se gasolina na serra.

José Raimundo, o pastor, ouve a conversa e anuiu. 
Começa a apontar uma a uma as manchas enegrecidas. 
Este terreno era do senhor João, aquele era da dona Antónia, o outro do Manuel Paiva. Tinham eucalipto? 
"No alto do monte sim. 
Mas aqui em baixo só havia sobreiro e medronho."

Um namoro antigo
A serra de Monchique foi um dos primeiros lugares do país onde as celuloses investiram, no final dos anos 1960. 
Uma boa parte do eucaliptal que há na serra pertence às antigas Soporcel e Portucel, hoje Navigator Company. 
Abastece a fábrica de Setúbal e, quem atravessar por estes dias a A2, é provável que encontre na estrada vários camiões carregados de madeira a transportar o que escapou ao fogo.

O facto é que é da Navigator a floresta mais cuidada e vigiada. 
"O problema são muitas vezes os privados que se estabelecem à volta para alimentar esta indústria", diz o ambientalista da Quercus. 
"No país estima-se agora que exista um milhão de hectares de eucaliptos, mas apenas 155 mil são propriedade das celuloses."

Nas últimas duas décadas do século XX a exploração tornou-se dominante em Monchique, como em muitas outras zonas do país. 
Ao desenvolvimento de sementes em laboratório aliaram-se as técnicas de cultivo intensivo, que tornaram o eucaliptal na mina de ouro da região. 
"Houve muita gente nessa altura a converter o seu montado e os seus medronhais para eucaliptal", diz Domingos Patacho. 
"Mas havia apesar de tudo uma paisagem mais diversa do que agora. 
E, também, mais imune ao fogo."

Os 40 mil hectares que arderam em 2003 deram um novo fôlego à produção florestal. 
No final de 2003, uma única empresa comprou três mil hectares de terreno para ali plantar eucaliptal. 
Mas é impossível saber o número exato da área tomada pela espécie australiana. 
O presidente da Câmara de Monchique, Rui André, queixa-se disso constantemente.

"Mesmo que conheçamos os proprietários do terreno, a lei não nos permite saber quais as densidades, quais as zonas de corte, quais as áreas de replantação. 
O mercado do eucalipto funciona sem que ninguém o controle", diz o autarca do PSD. 
"Se nós soubéssemos quais as zonas que tinham sido cortadas, por exemplo, tínhamos podido levar para lá as cisternas dos bombeiros e impedido as chamas de avançar."

A chamada lei do eucalipto livre, aprovada pela então ministra da Agricultura Assunção Cristas em 2013, abriu portas à plantação intensiva em qualquer parte, sem autorização nem aviso prévio.

"E é deste conjunto de fatores que chegamos aqui, a um cenário como a Perna da Negra", diz Domingos Patacho. 
"E, se nada for feito, ele voltará a repetir-se." 
O ambientalista teme que nada mude com este fogo de Monchique. 
Uma coisa é certa: expansão do eucaliptal não haverá.

"Apesar de, depois dos incêndios de 2017, o governo ter proibido que novas áreas sejam colonizadas, a replantação intensiva é permitida nas zonas onde já existia eucaliptal. 
Agora olhe em volta e veja o que vai acontecer quando esta densidade calamitosa de eucaliptos for substituída por uma nova?" 
A única solução, afiança, é arrancar uma parte dos eucaliptos de vez.

A renovação da dor
"Agora chega, vou-me embora", e Maria Martins Fernando tem de engolir o choro se quiser continuar a falar. 
Era a última habitante do Canivete, um ermo de cinco habitações ao fundo daquele vale isolado. 
A casa ardeu e hoje a mulher veio retirar o que sobrou dos seus haveres. 
Encontra umas panelas carbonizadas, talvez se safem. 
Há um mealheiro cheio de moedas de escudo. 
Uma boneca com que a neta gostava de brincar.






















Na zona de Canivete, onde começou o incêndio de 2003 - e que agora voltou a arder -, Maria Martins Fernando sobrevive como a última habitante.

Tem 71 anos e mudou-se para esta casa aos 7. 
Ali se casou, criou três filhos, ficou viúva, e sempre que a descendência tentava convencê-la a mudar-se para a vila a mulher resistia. 
"Esta era a minha terra, o meu chão. 
Foi aqui que construí tudo o que sou. 
E agora tudo ardeu."

As chamas entraram pelo telhado, destruíram primeiro a sala, depois o quarto, por fim a cozinha. 
Vê-la agora a passear-se pelos escombros à procura das memórias é como olhar para uma cria que perdeu a mãe. 
"Isto era o meu chão", repete.

Foi aqui, neste fim do mundo, que começou o grande fogo de 2003. 
Maria Fernando lembra-se bem, estava deitada a dormir a sesta quando ouviu um barulho que parecia chuva. 
"Foi ali, naqueles eucaliptos atrás do montado", e um dedo coberto de fuligem aponta para norte. 
"A não mais de 200 metros."

Nessa altura ainda era vivo o marido, e tinham uma neta a seu cargo. 
Apesar de o fogo ter consumido tudo, safaram-se porque à volta da casa só existiam sobreiros, árvores que ardem mais lentamente e lhes deu tempo para salvarem a vida à mangueirada.

Neste ano andava fora de casa quando o fogo chegou. 
"Tinha ido a Monchique ter com o meu filho e já não me deixaram passar a estrada de volta." O seu problema, mais do que a casa, eram as galinhas e os coelhos. 
"Pobrezinhos dos bichos, morreram todos queimados. 
Eram a minha companhia." 
Desmancha-se, fica uns minutos em silêncio, depois lá se recompõe. 
"Sabe porque é que isto ardeu? 
Foi a ganância e apenas a ganância. 
Foi isso que deu cabo da nossa serra."

De repente aparece António Fernando, 53 anos, o seu primogénito. 
A mãe corre a mostrar-lhe o mealheiro e o homem agacha-se para contar as moedas, era da sua infância aquele tesouro. 
"Foi a ganância, pois foi", diz com uma raiva que ecoa nos montes em volta. 
"Foi o eucalipto, e eu estava farto de dizer à minha mãe que aqui havia demasiado. 
Não quero pensar o que seria dela se nesse dia estivesse para aqui sozinha."    






















Ao longo da área ardida, resta apenas uma reduzida crosta de vegetação verde junto ao rio, refúgio para os animais sobreviventes

António deixou a escola aos 13 anos e, desde então, tornou-se lenhador. 
Trabalha apenas com sobreiro e medronheiro, não que tenha uma paixão particular por estas árvores - é que estas foram as que conheceu toda a vida e são as únicas que sabe trabalhar. 
A família tinha um hectare no Canivete, dava para tirar uma arroba de cortiça a cada sete anos, dava para fazer licor de medronho para consumo familiar. 
Foi-se.

"Em 2003 tentaram comprar-me isto para fazer eucaliptal, mas o meu pai sempre disse que o medronho é que era o produto da nossa terra - e eu sou teimoso. 
Então nunca vendi." 
Os vizinhos venderam todos.

Até há 15 anos, o vale do Canivete tinha apenas um pequeno eucaliptal a 200 metros da casa dos Fernando, o tal onde começou o fogo. 
Agora está carregadinho de uma ponta à outra, e as únicas árvores que resistiam à monotonia eram as que rodeavam aquela casa. 
Foram sobreiros, foram medronheiros, agora são só toros carbonizados, parecem enormes lápis que alguém enfiou no solo.

"Agora chega, vou-me embora", anuncia Maria Martins Fernando com uma cara fechada. 
Ela e o filho carregam a carrinha com as sobras das labaredas, entram e despedem-se de vez. 
A vida que sempre conheceram acabou agora.

Uma estratégia certeira
Quando, em setembro de 2003, se extinguiram as últimas chamas do mais imponente incêndio a que o Algarve assistiu, um novo ator entrou no terreno. 
"Nessa altura, a ENCE, a maior celulose espanhola, comprou uma série de terrenos na serra de Monchique para plantar eucalipto. 
Tinham uma fábrica de transformação em Huelva e aqui adquiriam a matéria-prima", explica Rui André, presidente da câmara. 
A maior parte dos negócios foi firmada através de uma empresa chamada IberFlorestal, que ainda hoje opera na região. 
Possui uma série de terrenos e assegura o corte e o transporte da madeira que antes ia para a ENCE - e hoje ruma à Navigator. 
Há dias, em entrevista ao Público, o gestor da empresa descartava responsabilidades na sobreprodução de Eucalyptus globulus. 
"Não são os eucaliptos que provocam os incêndios", disse Rui Oliveira, explicando que a empresa tinha o seu próprio corpo de combate aos incêndios e tinha limpo os terrenos. 
"Ao lado das nossas propriedades, os terrenos estavam por limpar."






















Mesmo ao sétimo dia do fogo que fustigou a serra de Monchique, na zona de Pedra Negra, onde começou o grande incêndio de 2018, era visível a paisagem preenchida por uma grande área de plantação de eucaliptos

Durante dez anos, nunca ninguém soube quantos hectares de terreno ao certo a ENCE adquiriu. 
A resposta só chegou em 2013, quando a celulose espanhola decidiu terminar a sua unidade de produção na Andaluzia e anunciou num comunicado "decidir vender os três mil hectares que possuía em Monchique a um fundo internacional." 
O Jornal de Negócios, nessa altura, tentou apurar a propriedade do fundo de investimento, mas nunca conseguiu.

"O que se passou foi que, depois do fogo de 2003, muitas famílias desistiram de viver na serra e os terrenos iam ficar ao abandono. 
Então, perante a hipótese de venda ou aluguer, não hesitaram", diz Emílio Vidigal, presidente da Associação de Proprietários Florestais do Barlavento Algarvio - ASPAFLOBAL. 
A história que Maria Fernando conta em 2018 - "agora acabou" - é o terreno fértil para as plantações de eucalipto florescerem. 
À medida que se abandona o interior, ganha-se espaço para a produção.

Emílio Vidigal representa 500 produtores. 
Diz que 70% são pequenos proprietários, é a floresta explorada em minifúndio. 
"Os outros 30 são as empresas de celulose e duas ou três grandes famílias que têm aqui terrenos." 
Foram essencialmente estes que ficaram com os terrenos que eram da ENCE e lançaram semente de eucalipto à Perna da Negra, o lugar de ignição de 2018.

Também há dias, e também no Público, Vidigal acusou o governo de ter há sete meses um plano de ordenamento florestal para aprovar naqueles precisos terrenos, e do qual não obtivera resposta. 
O Ministério da Agricultura não respondeu ao jornal, mas emitiu no dia seguinte um comunicado dizendo que o que havia era uma candidatura a fundos europeus para montar esse projeto.

Mas porque é que os produtores não construíram à partida um eucaliptal seguro? 
"Estão a ser mal geridos, efetivamente. 
Mas o Estado não pode continuar a não querer investir numa produção que traz riqueza ao país. 
E, muito mesmo, à economia local", respondeu ao DN.

O sonho do medronho
Há um ano, João Rochato e Amanda Baganha mudaram-se para uma casa na Taipa, mesmo em frente à Perna da Negra. 
Têm dois filhos, Theo e Aurora, ambos nascidos em casa. 
São naturalistas e acreditaram que podiam transformar a sua casa numa habitação autossustentável. 
A luz vem de um painel fotovoltaico, a água do poço, depois tinham a horta e os animais que arderam. 
O fogo trocou-lhes as voltas






















É na Taipa, zona da Pedra Negra, que João Rochato e Amanda Baganha vivem com os filhos há um ano. Viveram um cenário de horror.

"A horta ardeu toda, animais só sobraram os cães, e os terrenos que tenho aqui atrás de casa estão reduzidos a cinzas", diz João - e um desconsolo sem fim. 
Trabalha como técnico de manutenção na barragem de Odelouca, mas o seu sonho era outro, era fazer uma destilaria para o medronho.

"Tenho um terreno de eucalipto, já estava plantado quando cheguei. 
Deram-me 7500 euros por ele e eu, sim senhor, levem. 
Queria plantar medronheiros, mas a pressão é muito grande." 
Ele explica: os madeireiros andam atrás dele a dizer que lhe põem as sementes, tratam das árvores, fazem os cortes e vendem os troncos. 
Ele não precisa de ter qualquer trabalho, é esperar sentado e receber capital a cada dez anos. 
"É preciso muita força de vontade para fazer outra coisa. 
Ainda mais que a população aqui é envelhecida, ou então mora longe. 
O que é que esta gente há de fazer?"

Em junho, a Navigator anunciou um programa especial para os proprietários dos terrenos em Monchique. 
Pagava 500 euros por hectare para replantar de forma eficiente os terrenos que não atingiam a melhor produtividade. 
"Esses fundos já quase se esgotaram", diz Emílio Vidigal, "mas contamos que na próxima semana a empresa de celuloses estabeleça um programa de apoios para continuarmos a produção."

Passaram 15 anos desde um fogo que deu cabo de tudo e agora veio outro, que o povo diz ter sido ateado pela ganância. 
O presidente da Câmara de Monchique, Rui André, diz que esta é uma oportunidade única para inverter os erros do passado. 
Fala de uma série de projetos com árvores autóctones, diz que o sobro e o medronho são futuro para o seu concelho.

Ao fim da tarde do dia em que o fogo foi dominado, quando se preparava para levar novamente as cabras para o curral, José Casimiro, o pastor, levantou o cajado em despedida e atirou toda a sua sabedoria para os ares. 
"Queira Deus vocês não tenham de vir cá outra vez daqui a dez anos para contar a mesma história." 
Deu meia volta e rumou com as chibas para casa.

sábado, 11 de agosto de 2018

"Hoje, viver na floresta significa correr risco de vida. Chega"

MONCHIQUE
Ricardo J. Rodrigues 
11 Agosto 2018 20:20
Rui André, presidente da câmara de Monchique, abordado por populares durante o incêndio em Monchique

O presidente da câmara de Monchique, Rui André, diz que, agora que os políticos saíram, começou o dia zero da reconstrução da sua terra


Nestes sete dias de incêndio, qual é a memória mais forte que vai guardar?
Há duas coisas que nunca me esquecerei. 
Uma é o momento em que as chamas chegam pela primeira vez ao perímetro urbano da vila. 
Aquela aflição das pessoas, aquela sensação de que estava a assistir a algo inimaginável. Depois houve o momento em que passei pela primeira vez pela estrada nacional 266 para visitar as aldeias afetadas. 
Um vento terrível, as chamas ao fundo, um cenário de apocalipse, com árvores queimadas e a terra fumegar. 
É uma coisa de filme, não da realidade - e muito menos na nossa terra.

Calculava há dois dias 10 milhões de euros de prejuízos diretos. Nos últimos dias foi visitado pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República. Teve as garantias de que precisava?
Estes dez milhões são para as coisas básicas, as emergências. 
Recuperar casas, placas sinaléticas, contentores de lixo e estradas. 
Não estou a contabilizar nestes valores as perdas que as pessoas sofreram. 
Nos últimos dias tivemos aqui políticos, jornalistas, representantes de tudo e mais alguma coisa. 
Mas hoje é o primeiro dia de solidão, é o dia zero em que começa o processo da cura. Espero que não seja um processo solitário, que consiga ter acesso a reuniões urgentes e eficientes com as várias pastas do governo. 
Sobretudo, espero que deixem lá fora a habitual mochila de burocracia. 
O incêndio de Monchique foi um acontecimento excecional, então merece medidas excecionais também.

Qual é agora a prioridade?
Claro que temos de cuidar dos problemas emergentes das pessoas, mas para mim o mais importante agora é criar um plano de restruturação da serra de Monchique. 
Quero juntar-me com os municípios vizinhos para concertarmos os esforços. 
Hoje, viver na floresta significa correr perigo de vida. 
E chega, isto não pode continuar a ser assim.

Mas esse discurso existiu depois dos incêndios de 2003 e 2016. E não resultou.
Depois disto, penso que toda a gente tem a noção de que esta é a última oportunidade para a serra.
Temos de diversificar a nossa floresta, apostar em espécies autóctones resilientes aos fogo. 
Não podemos continuar a explorar uma monocultura porque as consequências estão à vista. 
Há eucaliptais ordenados, sim, mas também os há nas margens dos ribeiros, nos lugares dos medronhais. 
Isto tem de ser travado. 
Se for preciso, arrancaremos eucaliptos.

O seu concelho tem 500 produtores florestais, quase todos de eucalipto. Como é que os vai convencer a arrancar árvores?
Não o quero fazer sozinho, um plano destes tem de envolver todos os municípios da serra e as autoridades centrais. 
Mas, depois deste fogo, estou disposto a ir até às últimas consequências. 
Ainda para mais, este é o meu último mandato à frente da autarquia. 
Não me importo de tomar medidas impopulares, se elas significarem que o povo pode viver seguro na floresta.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

"Lisboa será cidade de fachadas bonitas onde não mora ninguém"

IMOBILIÁRIA
Ana Sanlez   01 Agosto 2018 — 06:30
O presidente da Câmara de Lisboa, cidade onde há casas de duas assoalhadas à venda por 1,2 milhões de euros.

Santo António já se acabou, mas para as imobiliárias a festa está para durar. 
Na freguesia que ladeia a Avenida da Liberdade, em Lisboa, há casas de duas assoalhadas à venda por 1,2 milhões de euros. 
O preço médio do metro quadrado na Freguesia de Santo António ultrapassou, pela primeira vez desde que há dados, os quatro mil euros. 
Mas não é difícil encontrar quem peça três ou quatro vezes mais.

"Não é preciso ir muito longe, aqui em baixo há um T0 de 25 m2 à venda por 400 mil euros", conta Vasco Morgado, presidente da junta de freguesia mais cara do país. 
No espaço de um ano, os preços em Santo António dispararam 39,8%, segundo os números revelados ontem pelo Instituto Nacional de Estatística. 
Os valores não surpreendem o autarca, lisboeta de gema, que vê não só na freguesia mas em toda a cidade "cada vez menos gente e cada vez mais proprietários". 
Será Santo António o padroeiro da especulação imobiliária?

"Estes preços só são bons para quem é proprietário. 
Claro que Lisboa precisava de um abanão, mas este ritmo de crescimento vai ter custos. A médio prazo vamos ter uma cidade cheia de fachadas bonitas mas onde não mora ninguém", desabafa. 
Vasco Morgado revela que todos os dias lhe batem à porta inquilinos com ordem de despejo. 
E não tem dúvidas de que a subida em flecha dos preços é uma "bolha especulativa" que vai acabar por rebentar.
Além de Santo António, a capital tem mais duas freguesias onde o preço do metro quadrado não cabe em todas as carteiras: na Misericórdia, que vai do Bairro Alto ao Cais do Sodré, e em Santa Maria Maior, que sobe da Baixa até ao Castelo, o valor ultrapassa os 3500 euros. 
Zonas como Parque das Nações, Estrela ou Campo de Ourique já não ficam muito atrás. No conjunto da cidade, os preços subiram de 22,7% para 2580 euros o metro quadrado. 
A média nacional está nos 950 euros.
"Lisboa é uma moda, não é uma cidade consistente de turismo. 
E as modas passam. 
Este aumento dos preços traz alguns benefícios em termos de investimento, mas a parte humana da cidade perde-se, os bairros ficam descaracterizados. 
O que se passa é que está toda a gente a correr atrás do dinheiro fácil e imediato. Aumentos de preços de 40% num ano são a definição de bolha, que vai rebentar. 
Se calhar não chega até ao fim deste mandato", antecipa o autarca, reeleito em 2017 pelo PSD.

Para que Lisboa não se torne uma "cidade de classes", Vasco Morgado apela ao governo e à Assembleia da República para que tomem "medidas concretas de regulação", porque quem compra casas de 25 m2 por 400 mil euros "não mora cá, logo não paga impostos". Na freguesia, que tem menos de 1,5 km2, habitam pouco menos de 12 mil pessoas. 
"E serão cada vez menos. 
Os habitantes estão a sair a um ritmo alarmante.

O êxodo de nativos repete-se a norte, tal como as preocupações de quem manda. 
A freguesia onde os preços das casas mais aumentaram no período de 12 meses que terminou em março fica bem no centro do Porto. 
Na zona que une Cedofeita, Santo Ildefonso, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória, o valor do metro quadrado até parece modesto:1636 euros. 
Mas no ano passado custava menos 45,2%.

"É uma subida que não me surpreende mas que é preocupante", diz o presidente da junta, António Fonseca. 
Na opinião do autarca, a cidade está no centro de um ciclo de "especulação", motivado pela procura "elevadíssima face ao que está disponível no mercado".

Preços de quatro mil euros por metro quadrado na Avenida dos Aliados, como agora se pratica, "são uma loucura porque não são reais" e só beneficiam os "fundos imobiliários e grandes investidores". 
São estes os únicos com capacidade para dar 400 mil euros por um T1 na Cedofeita, "para procurar retorno através do turismo".
No Município do Porto, os preços aumentaram 22,7% num ano, para uma média de 1379 euros por metro quadrado. 
Na Freguesia de Paranhos e na União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde as subidas ultrapassaram os 20%. 
A manterem-se estes preços, é a cidade que perde, afiança o autarca eleito em 2017 pelo movimento independente O Nosso Partido é o Porto, liderado por Rui Moreira, o presidente da Câmara do Porto.

"Esta especulação pode ser uma fatalidade. 
Precisamos de uma cidade com habitação permanente. 
O turismo não é de mais, mas temos de ter população para receber os turistas, porque de um dia para o outro isto muda. 
E para haver habitantes permanentes os valores não podem ser tão exorbitantes. 
Estes preços são mais uma machadada na habitação", destaca António Fonseca.
Na freguesia do centro histórico da Invicta há cerca de 38 mil pessoas recenseadas. 
Em quatro anos, a zona perdeu mais de dois mil habitantes. 
"Há alguns moradores novos, mas é um número residual, não compensa os que estão a sair", afirma o autarca, que acalenta o sonho de ter daqui a dez anos uma freguesia "com muitas famílias jovens", mas não esconde o receio de ver nascer, ao invés, "mais uma estância turística".