segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Costa em Angola: o passado ficou no museu, o que conta é o futuro

DIPLOMACIA
DN/Lusa     17 Setembro 2018 — 12:12


O chefe do Governo português está em Luanda para relançar uma nova era nas relações bilaterais entre os dois países: o que começará com um novo acordo de cooperação estratégica e o fim da dupla tributação
O primeiro-ministro afirmou esta segunda-feira que o passado nas relações luso-angolanas ficou no museu e que os dois países se preparam para fechar um novo acordo de cooperação estratégica, num sinal de confiança em relação ao futuro.

Palavras proferidas por António Costa no primeiro ponto do programa oficial da deslocação de dois dias a Angola, depois de ter visitado o Museu Nacional de História Militar na Fortaleza de Luanda.


"Vamos assinar o Acordo de Cooperação Estratégica para os próximos anos e vamos dar um sinal de confiança para o aprofundamento das nossas relações económicas", declarou o líder do executivo nacional, num momento em que estava ladeado pelos ministros angolanos Manuel Domingos (Relações Exteriores) e Salviano Sequeira).

Perante os jornalistas, António Costa referiu que a sua visita "começou precisamente no Museu de História Militar".

"Pode significar que o passado ficou no museu e que agora compete-nos construir o futuro - é nesse futuro das relações entre Portugal e Angola que temos de estar focados. 
Esta visita é um momento muito importante, conjuga-se com a visita de Estado que o Presidente da República de Angola, João Lourenço, efetuará a Portugal em novembro", sustentou o primeiro-ministro.

Segundo António Costa, verifica-se agora, após um período de crise, com a quebra dos preços do petróleo nos mercados internacionais, que Angola "vive uma nova fase auspiciosa, procurando diversificar a sua base económica, o que é útil para os dois países".

Nas relações luso-angolanas, além do Acordo Estratégico de Cooperação (2018/2022), o primeiro-ministro destacou também a assinatura da convenção para o fim da dupla tributação nas transações entre os dois países e um novo acordo aéreo para aumentar as ligações entre os dois países.

"Serão passos importantes para construirmos o futuro", advogou.

Pagamentos em atraso
Interrogado sobre o processo de regularização de pagamentos em atraso a empresas portuguesas que investiram no mercado angolano, que envolverá no mínimo entre 400 e 500 milhões de euros, o líder do executivo referiu que "esse é um trabalho em curso".


"Tem havido sinais muito positivos do empenho de todos em ultrapassarmos situações difíceis. 
Os últimos dez anos têm sido muito turbulentos na economia mundial", observou.
António Costa e o o tenente-general angolano, Silvestre Francisco, durante a visita à Fortaleza de Luanda

Neste contexto, António Costa referiu-se ao período de assistência financeira externa a Portugal, com a troika, entre 2011 e 2014, apontando que muitas empresas nacionais "encontraram no mercado angolano uma prosperidade que não tinham no país".

"O que é muito claro, para mim, é que há entre os dois países um sistema de vasos comunicantes. Cada vez que há um problema num dos lados, a melhor forma é a solidariedade entre todos", defendeu.

Para o primeiro-ministro, a questão essencial relativa à regularização de pagamentos em atraso "passa pela existência de um bom clima de negócios que dê confiança e estabilidade, permitindo a todos recuperarem o dinheiro que têm a recuperar e ajudarem ao desenvolvimento das economias angolana e portuguesa".

"O maior desafio deste século é o das relações entre os continentes africano e europeu, onde Portugal e Angola têm especiais obrigações, mas, também, ótimas condições para darem um contributo positivo", acrescentou.

Jornais angolanos destacam visita de António Costa a Luanda

DIPLOMACIA
DN    17 Setembro 2018 — 09:44
António Costa foi recebido pelo ministro das Relações Exterior de Angola, Manuel Augusto

Cooperação económica merece a atenção dos jornais angolanos na cobertura da visita de dois dias do primeiro-ministro a Angola. 
Jornal O País faz capa e publica na íntegra a entrevista dada ao DN

Angola tem todas as condições para ser uma grande potência económica em África, afirma o primeiro-ministro António Costa em entrevista publicada esta segunda-feira no Jornal de Angola. 
O jornal O País, o segundo maior de Angola, dá destaque de primeira página e publica na íntegra a entrevista feita pelo DN ao primeiro-ministro antes de embarcar para a visita oficial de seis dias.
A entrevista ao Jornal de Angola merece também destaque na capa com uma foto do primeiro-ministro português e o título "Portugal ambiciona relações profícuas e estreitas com Angola", acrescentando o texto da primeira página que essas relações devem ser focadas "nos grandes desafios e nas grandes oportunidades do século XXI".

"Nunca teremos uma relação com outros países como a que temos com Angola", diz António Costa na entrevista ao diário angolano.
No Jornal O Guardião, já é dado destaque à chegada de António Costa a Luanda, em que o primeiro-ministro português afirmou que Portugal e Angola têm uma história "longa" e que o foco tem de estar centrado no futuro e não no passado.

No Expansão, um jornal mais focado na economia, a visita merece também atenção, com o fim da dupla tributação e uma maior cooperação económica a serem temas de manchete. 
Este jornal destaca a assinatura de acordos nas áreas de educação e ciência e afasta a possibilidade de ser discutida a isenção de vistos, já que Portugal integra o espaço de Schengen e não assim exercer reciprocidade com Angola.

Retomar níveis de 2014
António Costa está em Luanda hoje e amanhã. 
Hoje foi recebido no aeroporto de Luanda pelo ministro das Relações Exteriores angolano, Manuel Augusto, tem por objetivo retomar rapidamente os níveis anteriores a 2014 nas relações económicas e normalizar os contactos bilaterais político diplomáticos.

Com António Costa viajaram também os ministros dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e da Agricultura, Capoulas Santos, assim como os secretários de Estado Teresa Ribeiro (Negócios Estrangeiros e Cooperação), Eurico Brilhante Dias (Internacionalização) e Ricardo Mourinho Félix (Adjunto e das Finanças). 
Acompanham também o primeiro-ministro português, os presidentes dos dos conselhos de administração da agência Lusa, Nicolau Santos, e da RTP, Gonçalo Reis.

Hoje, primeiro dia da visita, que coincide com um feriado (o Dia do Herói Nacional, o programa de António Costa terá sobretudo uma componente económica, estando previsto um encontro à porta fechada com empresários portugueses que operam no mercado angolano.

Além do encontro com empresários, o primeiro-ministro terá também visitas com significado histórico, como a deslocação à Fortaleza de Luanda, onde está o recém-recuperado Museu Nacional de História Militar.

Na parte da tarde, o primeiro-ministro tem ainda previsto um passeio pela Baía de Luanda e termina o dia com um encontro com a comunidade portuguesa residente na capital angolana.

Um encontro que decorrerá no Centro Cultural Português e que ocorrerá depois de visitar a obra do hospital materno infantil da Camama, que está a cargo da empresa portuguesa Casais, num projeto avaliado em 194 milhões de dólares (cerca de 166 milhões de euros).

Na terça-feira, após a reunião, marcada para as 11.00 locais (mesma hora em Portugal), entre o Presidente de Angola, João Lourenço, e o primeiro-ministro português, os dois governos deverão assinar cerca de uma dezena de acordos, entre os quais uma convenção para o fim da dupla tributação e um memorando para a progressiva regularização de dívidas de entidades públicas angolanas a empresas portuguesas, cujo montante global se estima entre os 400 e os 500 milhões de euros.

Os governos de Lisboa e de Luanda vão ainda ampliar linhas de crédito, estabelecer um plano de cooperação no setor da agricultura e assinar um Programa Estratégico de Cooperação 2018/2022. 

Costa aterrou em Angola sem gravata e de ganga e logo arranjou uma polémica

DIPLOMACIA
Público
17 de Setembro de 2018, 13:56 
Indumentária do primeiro-ministro português na chegada a Angola deu “gritaria” nas redes sociais.

Costa chegou a Angola na manhã desta segunda-feira para uma visita de Estado muito aguardada depois de as relações entre os dois países terem andado por caminhos trocados. 
Costa aterrou no Aeroporto 4 de Fevereiro e abriu logo uma polémica nas redes sociais por causa da sua indumentária.

“É com grande satisfação, entusiasmo e profunda confiança no reforço das relações entre #Portugal e #Angola que aterrei esta manhã em Luanda para uma visita oficial”, anunciou António Costa na sua conta oficial no Twitter, o que originou vários comentários (a maioria) a criticar a escolha da roupa.










































































O texto era acompanhado por uma foto com Costa sobre a passadeira vermelha do aeroporto de Luanda ladeado pela guarda de honra militar e acompanhado pelo ministro das Relações Exteriores.

Só que o primeiro-ministro trajava uma camisa branca sem gravata, sob um blazer preto e calças de ganga. 
Uma indumentária pouco habitual numa visita de Estado que logo fez disparar críticas nas redes sociais, quer em Portugal, quer em Angola.

Mais tarde, na primeira paragem da visita, a deslocação ao Museu Militar, António Costa já vestia o tradicional fato e gravata, vestimenta que já usou em circunstâncias até menos adequadas, como para andar de bicicleta, lembrou-se nas redes sociais.

sábado, 15 de setembro de 2018

Gaza. “Isto já foi claustrofóbico, agora é fechado a vácuo”

CONFLITO ISRAELO-ÁRABE
Ana França     Sábado 15 de Setembro de 2018














Não há dias normais em Gaza, onde a cada hora há uma dificuldade diferente. 
Quatro cidadãos daquela que muita gente define como a “maior prisão a céu aberto do mundo” - cujas fronteiras, com Israel e o Egipto, estão fechadas a maior parte do tempo, como pressão sobre o Hamas, que governa o território - contam ao Expresso como é um dia normal em Gaza

São oito da manhã e Khalil Abu Yahia acorda dentro da sua “distopia literária do século XXI”. Tem 22 anos e estuda Literatura Inglesa na Universidade de al-Azhar, na Cidade de Gaza e nota-se. 
Há de ilustrar a sua rotina em Gaza, o território mais densamente povoado no mundo, também conhecido entre os palestinianos como a sua maior prisão a céu aberto, com passagens dos mestres: Orwell, H.G. Wells, Huxley, Rand. 
A pé, demora uma hora até à universidade e já está atrasado, tal como os dois irmãos: um para a escola primária, outro para o sexto ano.

Gaza sustém a respiração. 
Vêm aí mais cortes no orçamento da Agência das Nações Unidas para a Ajuda aos Refugiados da Palestina (UNRWA). 
As Nações Unidas gerem 250 escolas no território e 22 hospitais, além de entregarem todos os dias milhares de doses de alimentos, a todos os que se registem e se dirijam à sede da organização para ir buscar farinha, arroz, óleo e água.

Os cortes anunciados pelos Estados Unidos na sua comparticipação para o UNRWA são duros: 300 milhões de dólares, um terço de todo o orçamento da agência, vai desaparecer. “Esta decisão vai ter um impacto devastador nas vidas das 526.000 crianças que dependem da UNRWA para a sua educação, na saúde dos 3,5 milhões de pessoas doentes que utilizam os nossos hospitais e em 1,7 milhões de pessoas que recebem comida através da nossa ajuda”, disse Chris Gunness, porta voz da UNRWA depois de anunciada a decisão da Administração de Donald Trump.

Logo nos dias a seguir, surgiram acusações de que os Estados Unidos estão a tentar forçar a paz na região ao retirar aos refugiados palestinianos o pouco conforto e segurança que ainda têm, obrigando os seus atores políticos a aceitar os termos de Israel. 
“Saberás a verdade e ela irá enlouquecer-te”. 
Khalil cita Aldous Huxley.

Naquela manhã em que falou com o Expresso, Khalil queria um café e os irmãos queriam leite quente. 
“Nem sempre temos eletricidade, pelo que nem sempre dá para ligar a chaleira, que aquece tudo mais rapidamente. 
Também nem sempre temos botijas de gás para o fogão, que não é elétrico. 
Se fosse elétrico ainda seria mais difícil cozinhar, há cada vez menos horas de energia”, conta o jovem a partir de Gaza. 
Nos dias bons, há eletricidade seis horas por dia. 
Em muitos dos outros há quatro.

Mas Khalil queria mesmo um café. 
“Fui tentar fazer uma fogueira com os meus irmãos lá para fora. 
Claro que o vento não deixou, e também não havia paus secos suficientes, coisa que me irritou. 
Pode parecer-vos estúpido ou teimoso, mas às vezes dá-me assim uma descarga de nervos e penso que tenho que encontrar forma de viver como se estivesse numa cidade normal”, conta Khalil, que está com o telemóvel ligado à ficha, a carregar, num café perto da Universidade. 
Há uma fila de pessoas que esperam para fazer o mesmo. 
As tomadas em casa não servem para nada durante 18 das 24 horas do dia e os geradores dos cafés tornaram-se um dos serviços que estes estabelecimentos oferecem. 
“Algumas destas chamadas podem ser coisas urgentes. 
Depois falamos”, diz Khalil. 
“Não leves a mal”.

HOSPITAIS COM SERVIÇOS MÍNIMOS

Basman Derawi tem 29 anos e é fisioterapeuta. 
Enquanto Khalil lutava com os irmãos contra o vento, Basman lutava contra o sol refulgente que o acompanha no caminho para o centro de saúde onde trabalha. 
Como só tem recebido entre 40 e 50% do ordenado - cerca de 300 mil pessoas ainda são pagas pela Autoridade Palestiniana, apesar de ser o Hamas que está no governo em Gaza - deixou de poder suportar os custos de um automóvel.

O dia não começou bem. 
“Cheguei ao hospital e não consegui dar aos doentes a sessão completa de fisioterapia, porque não havia luz e o gerador estragou-se”, conta ao telefone depois de chegar ao emprego. 
São dez da manhã em Gaza, é um dia de agosto, e o termómetro marca 32 graus. 
Na sala de espera da clínica as pessoas abanam-se com revistas, leques, bulas de medicamentos.

“É horrível, porque as pessoas que me consultam têm dores muitas vezes agudas e não sabem se amanhã poderão ter a sessão toda, então à dor física junta-se a angústia de saberem que possivelmente a recuperação será muito mais longa do que o necessário ou ficarão com mazelas que seriam perfeitamente evitáveis”, diz.

Mas os casos mais graves não são no seu departamento, são na imagiologia e na cirurgia. “As pessoas não podem fazer uma TAC nem um raio-x, saber se têm membros partidos, hemorragias internas, mesmo cancros, porque não há eletricidade para todas as máquinas. Quando a há é por pouco tempo e o quadro vai abaixo com tantas coisas que têm de funcionar naquelas horas”, conta Derawi, que faz parte de um grupo de repórteres amadores, o grupo Não Somos Números, que se juntou para contar as histórias daquilo que é viver em Gaza.

As falhas no abastecimento de combustível para os geradores, segundo o Ministério da Saúde da Palestina, já inviabilizaram os serviços em 10 centros médicos e três hospitais.

“É UM LUGAR FECHADO A VÁCUO”

As fronteiras terrestres, com Israel e com o Egito, estão fechadas a maior parte do tempo ou para a maioria das pessoas. 
Recentemente, Israel fechou a fronteira de Karam Abu Salem, a principal passagem de bens para Gaza. 
Na semana passada, também a passagem de Erez foi fechada, em retaliação por “atos de vandalismo” dos palestinianos.

É sempre assim: o Hamas ataca, as fronteiras fecham, o número de milhas onde a pesca é autorizada diminuem, e a comida e água e a eletricidade escasseiam. 
Gaza tem 41 quilómetros de um lado ao outro, menos que de Lisboa ao Barreiro, metade do caminho entre Aveiro e Viseu.

A família de Haneen Abo viu a vida deteriorar-se à medida que o bloqueio económico se ia tornando mais apertado. 
“Já foi claustrofóbico, hoje é um lugar fechado a vácuo”, diz através de uma conversa no WhatsApp esta mãe “demasiado cedo”, de 24 anos. 
É formada em Serviços de Secretariado e Arquivística pela universidade de al-Aqsa, mas com dois filhos acabou por ter que deixar de trabalhar.

Apenas o marido de Haneen trabalha. 
Ele não quer falar, mas Haneen conta como a família chegou ao ponto de não conseguir dar aos filhos uma alimentação variada. 
“Ele é construtor civil, não ganhava muito, nunca ganhou muito, mas lá se iam construindo algumas coisas. 
Agora os materiais para a construção são muitas vezes retidos na fronteira. 
Não há cimento, não há tijolo, não há vidro, não há parafusos”, conta.

É meio dia em Gaza e a família Abo acabou de receber o tal telefonema que os informa que, naquele dia, também não haverá obra. 
Nos últimos seis meses, o marido de Haneen trabalhou uma média de 15 dias por mês. 
O ordenado não dá para viver.

Gaza é um local muito mais pobre do que nos anos 90. 
A economia cresceu 0,5% em 2017, de acordo com o Banco Mundial, e a média anual de rendimento per capita desceu de 2.659 dólares em 1994 para 1.826 em 2018. 
O desemprego está nos 44%, quase o dobro daquele que se verifica nos restantes territórios ocupados. 
O desemprego jovem ultrapassa os 60%. 
A comida vai sempre passando pelas fronteiras, mas as pessoas não têm dinheiro para a adquirir.

RESIGNAÇÃO E REVOLTA

É uma da tarde e Khalil faz uma pausa para almoçar na faculdade. 
É leve a sua lancheira. 
“Muitas vezes não como nada de muito consistente, porque isso tem que se cozinhar. Compramos pão que se faz em fornos que não precisam de eletricidade e também comemos coisas tipo couscous, coisas tão fininhas que não demoram nada a cozinhar. Começa a ferver e pode desligar-se”.

Nele há resignação e revolta ao mesmo tempo. 
“É normal, as duas coisas coexistem em todos os habitantes de Gaza. 
Todos somos ativistas, estamos sempre a desenhar cartazes, a escrever panfletos, a colar mensagens por aí mas ao mesmo tempo sabemos que isto é um genocídio em câmara lenta. 
Isto não é vida que se viva, é uma vida onde se vai vivendo para não morrer”, conta de uma só vez numa mensagem pelo WhatsApp, para não gastar bateria.























O pai de Khalil está a morrer de cancro na próstata. 
Durante uns meses tentou passar para Israel, para ser medicado e acompanhado, mas recentemente desistiu. 
“O meu pai não parece preocupado. 
É a fé. 
Diz que é o seu destino”, acrescenta. 
“Chegar à fronteira dias seguidos e não nos deixarem passar quando só queremos ver um médico é uma coisa para a qual nunca ninguém está preparado”, diz dois dias depois, numa nova chamada, que finaliza com Ayn Rand: “Entendi que séculos de amarras e vergastadas não matam o espírito dos homens nem o sentido de verdade contido neles”.

O encerramento da fronteira de Rafah, a sul, com o Egito, reduziu bastante, quase na totalidade, o número de pessoas que poderiam procurar ali uma alternativa aos hospitais de Israel.

Em 2014, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, mais de 4.000 pessoas por mês passavam esta fronteira por razões de saúde. 
E para Israel se, em 2000, 93% dos pedidos de acesso a cuidados médicos eram aceites; 18 anos depois apenas 54% o são. 
Menos de 240 palestinianos de Gaza entraram em Israel na primeira metade de 2017, comparando com 26 mil em 2000, segundo dados das Nações Unidas, que continua a ser o grande, quase o único garante, de vida na Faixa.

O ouvido de Ali Abusheikh, finalista do curso de Literatura Inglesa de 24 anos, reconhece um som pelo qual esperou todo o dia. 
Perto das três da tarde, a torneira que tem fora de casa começa a jorrar água. 
Está sempre aberta, para que o som denuncie que a água, racionada pelo governo por haver pouca nas reservas subterrâneas, chegou aos canos da casa. 
“Aqui está uma coisa que muita gente não sabe sobre a vida em Gaza: quando a água chega nós vamos logo ligar as bombas, para levar essa água para tanques que temos em cima das casas. 
Temos que ser rápidos, é quase um jogo de correria com os vizinhos”.

“SÃO BOMBAS MAMÃ!”

Cai a noite, são quase nove horas, e começa a ouvir-se fogo de artifício e músicas tradicionais dos casamentos. 
A sobrinha de Derawi começa a gritar. 
“Os israelitas estão lá fora! 
São bombas mamã!” 
Ninguém a consegue acalmar. 
Derawi pega nela e leva-a até ao local do casamento. 
“É assim que se educa uma criança em Gaza. 
Mas ela depois, no regresso, já só falava do vestido da noiva”, diz ao telefone.

Depois do trabalho, Basman volta a casa, onde vive com a mãe e com dois irmãos, a mulher de um deles e uma sobrinha. 
Dois deles trabalham, a cunhada está desempregada, tal como um outro irmão. 
É dos ordenados de dois homens pagos a metade que a família vive. 
Está a preparar-se o jantar. 
Arroz e atum enlatado - “o arroz é da ONU e o atum é acessível”.

Khalil chega a casa por volta da meia noite. 
Esteve no café com os amigos. 
“Gostava de estudar mas não consigo ler em condições, só tenho velas. 
Tenho dores de cabeça por causa do esforço que faço à noite para ler. 
E assim que vou dormir há sempre drones, parecem motores de barcos quando estão perto”. 
É a última mensagem que nos envia.

domingo, 9 de setembro de 2018

Extrema-direita sobe nas primeiras projecções na Suécia, centro-esquerda e centro-direita empatados

ELEIÇÕES
Público
9 de Setembro de 2018, 19:06 
As urnas acabam de fechar na Suécia 

Nenhum dos blocos parece conseguir maioria absoluta, e ambos recusam trabalhar com a extrema-direita.

Os partidos de centro-esquerda têm uma liderança pequena nas primeiras projecções das legislativas na Suécia, onde as urnas acabam de fechar. 
Mas uma segunda projecção, minutos depois, dava uma ligeiríssima vantagem ao outro bloco, de centro-direita. 

Segundo a televisão TV4, a coligação entre os social-democratas, os Verdes e o Partido de Esquerda pode ficar com cerca de 40,1% dos votos. 
Segundo a televisão SVT, o bloco de centro-direita (Partido Moderado, Partido do Centro, Liberais e Democratas-Cristãos) obteria 39,6% e o bloco de centro-esquerda 39,4%

Na primeira projecção os Democratas Suecos, anti-imigração e anti-União Europeia, teriam 16,3%, uma subida em relação à eleição anterior em que obtiveram 12,9%. 
Porém, a outra projecção diz que este partido de extrema-direita pode ir até aos 19,2%. Poderá ser a segunda ou a terceira força política. 
Ainda assim, parecia mais abaixo do que muitas sondagens pré-eleitorais previam, pelo menos até à chegada dos primeiros resultados, ainda que estes fossem muito preliminares, apenas relativos a 160 distritos num total de 6000. 

O jornalista do Financial Times Richard Milne resume o que se sabe até agora: as duas sondagens à boca das urnas mostram “essencialmente um empate entre o centro-esquerda e o centro-direita (cada um dos campos marginalmente à frente em cada sondagem)”. 
E os Democratas Suecos conseguem aumentar significativamente a sua votação, "mas menos do que alguns temiam". 
Nenhum bloco admite trabalhar com o partido de extrema-direita, que tem raízes no movimento neonazi sueco.

Para Sarah de Lange, especialista em populismo e radicalismo da Universidade de Amesterdão, “mais impressionante do que os ganhos e perdas de partidos individuais é a continuação da fragmentação do sistema partidário”, escreveu no Twitter. 
“Os maiores partidos estão a ficar mais pequenos e os mais pequenos estão a ficar maiores.”

Cas Mudde, outro especialista em populismo, da Universidade da Georgia (EUA), aponta que enquanto o bloco de direita parece ter ficado relativamente estável, o de esquerda perdeu mais de cinco pontos percentuais. 
"Isto, em conjunto com a significativa viragem à direita tanto da direita como da esquerda, é uma grande perda para a esquerda sueca". 

A viragem à direita que o especialista refere nota-se sobretudo na adopção de políticas mais restritivas de asilo e imigração: sob o Governo social-democrata a Suécia passou de ser o país que mais refugiados recebeu per capita em 2015/16, para o que tem hoje uma das políticas mais restritivas. 

A principal lição a tirar, para Cas Mudde, é: "Seguir a direita radical em políticas e no discurso não vai impedir que se perca votos anti-imigrantes. 
Tanto os social-democratas como o Partido Moderado viraram à direita e mesmo assim desceram muito.”

O efeito mais imediato da fragmentação é a difícil governabilidade. 
Muitos observadores destas eleições antecipam que a formação de um executivo irá demorar algum tempo, e a provável falta de uma maioria absoluta obrigará a acordos com o bloco oposto. 

“Haverá um longo caminho antes que tenhamos um Governo”, antecipava a professora de ciência política Marie Demker, da Universidade de Gotemburgo. 
“Mas acredito que apesar de tudo, a solução mais provável seja que o bloco maior – seja ele de centro-direita ou de centro-esquerda – possa governar com o apoio do outro”

Extrema-direita sueca ameaça establishment e sonha com vitória nas legislativas

SUÉCIA
António Saraiva Lima
3 de Setembro de 2018, 7:12 
Jimmie Akesson tem procurado normalizar o discurso dos Democratas Suecos

Democratas Suecos acenam ao eleitorado com discurso anti-imigração e eurocéptico. Estão bem colocados nas sondagens para a votação do dia 9.

O domínio centenário do Partido Social-Democrata na arena política da Suécia está seriamente ameaçado nas eleições legislativas agendadas para o próximo domingo. 
Os outrora ostracizados Democratas Suecos – cujas origens remontam ao movimento neonazi sueco da segunda metade do século passado – surgem nas sondagens como principais concorrentes do partido de centro-esquerda e podem mesmo vir a ser a força mais representada no Riksdag (Parlamento).

Defensores de um programa anti-imigração e anti-União Europeia, prometem baralhar as contas na formação do Governo e na definição da agenda política para os próximos anos.

De acordo com o site sueco Val.digital, que faz uma média actualizada das sondagens realizadas pelas principais empresas do sector, os nacionalistas agregam 20,2% das intenções de voto, pouco abaixo dos sociais-democratas, no topo com 24,3%, e acima do Partido Moderado (centro-direita), que recebe 19,5% dos apoios. 

Alguns dos estudos tidos em conta no cálculo do Val.digital dão aos Democratas Suecos o primeiro lugar e com percentagens superiores a 25%, como foi o caso do da YouGov. Números que põem a força populista à beira de duplicar a sua representação no Riksdag, depois dos 12,9% obtidos nas nas eleições de 2014.

O caminho percorrido pelos Democratas Suecos nos últimos anos é um caso de manual na política europeia recente. 
Ou, pelo menos, no que versa sobre a estratégia de “desdiabolização” posta em prática por muitos movimentos de extrema-direita do continente, como a Frente Nacional (França), a AfD (Alemanha) ou o FPÖ (Áustria).

Herança nazi
Fundado em 1988 por antigos membros do Reino Nórdico, um partido neonazi nascido nos anos de 1950, e patrocinado pelo movimento nacionalista Bevara Sverige Svenskt (Manter a Suécia Sueca), o partido de extrema-direita foi durante largos anos marginalizado pelas restantes forças políticas, devido ao seu programa xenófobo e supremacista. 

A partir de 2005, porém, os Democratas Suecos iniciaram um processo de moderação, sob a liderança de Jimmie Akesson (39 anos). 
Sem abdicar do nacionalismo, da reprovação da imigração e do desdém pela União Europeia, o partido suavizou as suas posições mais extremistas, começou a focar-se nos problemas que afligem os pensionistas e os desempregados, e levou a cabo uma verdadeira purga interna, expulsando militantes abertamente racistas, anti-semitas e xenófobos – incluindo figuras de topo. 

A estratégia tem funcionado. 
Os Democratas Suecos chegam a cada vez mais eleitores e estão a crescer a olhos vistos nas intenções de voto. 
Mas para os analistas não há grande diferença entre o passado e o presente do partido, quando o seu líder defende, por exemplo, que o crescimento da comunidade muçulmana na Suécia é a “maior ameaça estrangeira desde a II Guerra Mundial”.

“A mentalidade das pessoas mais activas dentro dos Democratas Suecos é a de que os imigrantes e as minorias estão no centro de tudo o que está errado com a sociedade. 
E por isso continuamos a ler, nas notícias, escândalos sobre políticos seus que dizem coisas como ‘a Suécia é um lugar onde os brancos pertencem e os não brancos não’”, explica ao Observer Jonathan Leman, investigador na revista sueca Expo, especializada no estudo de nacionalismos e extremismos.

“Imigração é cara”
Apesar de a economia estar a crescer, de o Estado social sueco ser um dos mais generosos do mundo e de o país apresentar elevados índices de satisfação e qualidade de vida, o eleitorado do partido de extrema-direita preocupa-se com o crescimento da população nascida fora da Suécia – 18% de 10 milhões de habitantes –, o seu impacto no acesso aos benefícios sociais, e o aumento da criminalidade e da violência urbana.

Inquietações que os Democratas Suecos têm sabido explorarem, abordando-as muitas vezes como um único problema. 
E com redobrado vigor nos últimos seis anos, depois de a Suécia ter acolhido mais de 420 mil refugiados.

Ao mesmo tempo que argumentam que todos os imigrantes que aprendam sueco e abracem a cultura do país são bem-vindos, os populistas querem reduzir o número de licenças de trabalho para cidadãos estrangeiros e confinar a aceitação de pedidos de asilo político a pessoas de nacionalidade dinamarquesa, finlandesa e norueguesa. 

“A imigração é cara: retira recursos aos professores, aos médicos e aos assistentes sociais. 
E afecta tudo o resto. 
Não podemos fechar os olhos”, justifica ao Financial Times Patrick Jonsson, dirigente regional do partido.

Excluindo o debate sobre a Europa – a proposta de um referendo sobre a saída da Suécia da UE ainda não granjeou muitos adeptos –, a verdade é que os Democratas Suecos foram bem-sucedidos a trazer os temas da imigração e dos desafios da globalização para a campanha. 
Obrigaram os partidos do establishment a adaptar os seus programas e, dessa forma, a contribuir para a legitimação de um partido que ainda vêem como pária e com quem ninguém quer conversar.

Paula Bieler, deputada dos Democratas Suecos, vê como inevitável a entrada do seu partido no diálogo político mais alargado e acredita que quanto mais forem ostracizados, mais apoios receberão no futuro: “De uma forma ou de outra, o próximo Governo terá de falar com todos os partidos. 
Se recusarem falar connosco, sofrerão as consequências em 2022”.

antonio.lima@publico.pt

A Suécia não é o paraíso

ANÁLISE
Teresa de Sousa
9 de Setembro de 2018, 7:00
Depois da cultura de consenso a que se habituou, a Suécia vai ter de lidar com um partido populista e xenófobo, que contraria a imagem que tinha de si própria, mesmo que por vezes demasiado embelezada.

1. A Suécia seria, para um observador pouco atento, o último bastião a resistir à vaga de populismo e nacionalismo que varre a Europa. 
Foi lá que nasceu o famoso “modelo nórdico”, que ainda hoje faz inveja a muita gente, assente num elevado grau de instrução, num elevado grau de igualdade e numa grande abertura ao mundo. 
A economia sueca resistiu bem à crise de 2008, melhor do que a maioria dos países europeus, registando hoje um crescimento assinalável (quase 3%) e um desemprego baixo, embora se preveja um progressivo arrefecimento da economia nos próximos anos.

Esteve nas bocas do mundo durante a crise dos refugiados pelas melhores razões: em 2014 e 2015, abriu-lhes as suas portas numa proporção superior, em termos relativos, ao milhão que os alemães receberam. 
Stefan Lofven, o actual primeiro-ministro social-democrata, teve de travar a fundo a política de portas abertas logo em 2015. 
Mesmo assim, não conseguiu travar as suas consequências políticas. 
Os Democratas Suecos, cujas raízes remontam ao movimento neonazi das décadas de 1980-90 e cuja bandeira é justamente contra a imigração e contra a União Europeia, vão provavelmente registar um resultado próximo dos 20% nas eleições que se realizam este domingo. 
O fenómeno tornou-se quase banal na Europa, incluindo nos países nórdicos. 
Na Dinamarca ou na Finlândia, partidos-irmãos dos Democratas Suecos têm hoje uma significativa presença nos parlamentos, condicionando a política dos respectivos governos. São todos países ricos, onde a razão mais evidente para o crescimento destes partidos parece estar, precisamente, nos grandes fluxos migratórios dos últimos anos e, sobretudo, na sua origem islâmica.

2. A Suécia teve a “sorte” de ter vivido a crise de 2008 antes de tempo, quando, em 1991, o seu sistema bancário soçobrou, com o crash de uma bolha imobiliária em tudo idêntica à bolha do sub-prime nos EUA, que conduziu à implosão do sistema financeiro. 
O governo de Estocolmo foi obrigado a salvar a banca. 
Desde então, o equilíbrio das contas públicas passou a ser sagrado.

Mas o bom comportamento da economia também pôde contar com um sistema de educação pública dos mais antigos da Europa (na passagem do século XIX para o XX a esmagadora maioria da população era alfabetizada), para construir a acumulação de conhecimento fundamental na adaptação das economias desenvolvidas à revolução tecnológica, encontrando aí a alavanca que lhe permitiu fazer face à concorrência crescente das economias emergentes. 
Nomes como Skyp ou Spotify nasceram lá.

A igualdade, que foi pedra de toque da sociedade sueca, assente num sistema de impostos muito elevado que garantiu um Estado Social generoso e universal, teve de se adaptar a uma mais forte concorrência internacional. 
Os excessos do Estado Social, que chegaram a limitar algumas escolhas dos cidadãos, tiveram de ser corrigidos. 
O sistema partidário começou a mudar, podo cobro à longa hegemonia dos sociais-democratas. 
O Partido Moderado teve a sua oportunidade de fazer (algumas) reformas e os sociais-democratas fizeram o seu caminho em direcção à “terceira via”. 
Mas o partido que construiu o modelo nórdico há muito que caiu dos mais de 40% a que estava habituado desde antes da II Guerra até 2006, para valores que hoje pouco ultrapassam os 25%, não fugindo ao destino da maioria dos seus congéneres europeus.

3. Mas nem tudo na sociedade sueca é harmonioso e pacífico. 
As imagens de actos de vandalismo praticados por imigrantes e refugiados que surgiram durante a campanha eleitoral (por exemplo, um parque de estacionamento onde 80 carros foram destruídos) não são sequer comparáveis com as que ocorreram num Conselho Europeu em Gotemburgo (Junho de 2001), rodeado pela violência muito mais ameaçadora dos movimentos alter-mundialização da altura, formados por jovens radicais suecos e de outros países europeus, vestidos de negro e de rosto tapado, que destruíam tudo à sua passagem e que cercaram durante dois dias o local da cimeira. 
A explosão de novos escritores de livros policiais suecos, na esteira do genial Henning Menkell, descreve uma sociedade que encobre as suas angústias, a sua violência, as suas perversões sob um manto de silêncio.

4. Durante quase dois séculos um país neutral (dispensando-a de participar nas guerras europeias), a Suécia mantém ainda hoje esse estatuto. 
O facto não apaga a sombra do seu comportamento durante a II Guerra, mais próxima da Alemanha de Hitler do que dos Aliados, que só a partir do final do século passado foi publicamente admitido pelos governos e pela sociedade. 
A percepção da nova ameaça da Rússia, muito forte no Norte da Europa, está a mudar as opções políticas e as mentalidades. 
Pela primeira vez, as sondagens revelam que são mais os suecos que querem aderir do que os que querem manter a neutralidade. 
Os sociais-democratas ainda resistem, mas os quatro partidos do centro-direita (Moderados, Liberais, Democratas-Cristãos e Centristas) incluem já nos seus programas eleitorais uma rápida adesão à Aliança ocidental. 
A sensação de maior vulnerabilidade já levou ao regresso do serviço militar obrigatório (de forma gradual) e ao aumento do orçamento da defesa.

5. Mas a grande diferença está em que, depois da cultura de consenso a que se habituou, a Suécia vai ter de lidar com um partido populista e xenófobo, que contraria a imagem que tinha de si própria, mesmo que por vezes demasiado embelezada. 
Mais uma vez, como se vê na Alemanha ou na Dinamarca, o crescimento da extrema-direita parece ter pouco a ver com a economia (que corre bem em qualquer dos três países, com níveis de desemprego historicamente baixos) mas, provavelmente, com uma questão cultural que surge como uma ameaça ao seu modo de vida e à sua segurança. 
E que leva as pessoas a sonhar com um passado que dificilmente voltará, a não ser através das suas páginas mais negras, que a Suécia também as tem.

teresa.de.sousa.@publico.pt