quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Na Autoeuropa, há casais que só estão juntos dois fins de semana até julho

Trabalho
Marta Santos Silva
3 Fevereiro 2018

Hoje é o primeiro sábado obrigatório com os novos horários. As folgas não consecutivas, o pouco tempo em família e os turnos rotativos causam desânimo entre os trabalhadores da Autoeuropa.

Este sábado, Ana vai terminar o turno na fábrica da Autoeuropa à meia-noite. 
Segunda-feira, entra ao trabalho às sete da manhã. 
Para esta trabalhadora, no primeiro dia em que a fábrica de Palmela implementa o trabalho obrigatório aos sábados, a situação é particularmente difícil porque o marido também começou a trabalhar nos novos horários e têm um filho de oito anos.


Os novos turnos impostos unilateralmente pela administração da Autoeuropa perante a impossibilidade de chegar a um acordo começaram esta semana, e alguns trabalhadores sublinham o impacto nas suas vidas pessoais e familiares. 
Ao ECO, Ana lamenta: “Afeta-me tudo, desde a escola do miúdo, aos ATLs, até à família…”

As escalas já foram distribuídas até julho. 
Durante seis semanas, os trabalhadores alternam semanalmente entre o turno da manhã, das 7h até às 16h, e o turno da tarde, das 15h às 24h. 
Seguem-se duas semanas a trabalhar à noite, das 00h até às 7h, e depois o ciclo recomeça. 
Além disto, o trabalho ao sábado passa a ser obrigatório, com uma folga rotativa a ser atribuída em vez desse dia. 
Por vezes, essa folga calha no sábado.

No entanto, para Ana, as vezes em que a folga calha no sábado não são suficientes. 
“Há famílias que vão ter dois fins de semana juntas em seis meses”, explicou ao ECO. 
É esse o caso de Ana e do marido, que já sabem quais vão ser os dois fins de semana em que, até julho, poderão estar dois dias em família, com o filho que nas folgas à semana está na escola.




















Em agosto, quando uma versão muito semelhante dos horários impostos fora rejeitada pelos trabalhadores e a Autoeuropa acabava de ver a primeira greve da sua história, uma trabalhadora estimou, ao telefone com o ECO, que houvesse cerca de 300 famílias com filhos em que o pai e a mãe fossem ambos trabalhadores da Autoeuropa. 
Perante este facto, a Segurança Social acabou por intervir, com a possibilidade de abertura extraordinária de creches na zona de Setúbal para cuidar das crianças mais novas caso não houvesse possibilidade de ficarem com um dos familiares.

Ana, por exemplo, não vê hipóteses para o filho de oito anos no caso de o marido ser chamado a trabalhar no mesmo sábado que ela. 
“No dia em que não tiver onde o deixar ao sábado, vou ficar em casa ou chegar mais tarde”, afirmou. 
“Durante a semana, para as noites, temos os meus sogros, mas ao fim de semana quando eles vão embora…”

Mesmo para trabalhadores com situações familiares menos complexas, “o impacto é o normal de qualquer pessoa que não tenha folgas consecutivas”, refere Carlos, ao ECO. Para o trabalhador, os dias soltos de descanso não permitem repousar e, muitas vezes, vão dificultar a transição entre horários diurnos e noturnos em apenas um dia.

Ana referiu também que as folgas rotativas podem tornar o dia de descanso solitário. “Numa folga durante a semana não estou com o meu filho, que está na escola, nem com o meu marido, que está noutro turno”, explicou. 
Uma outra trabalhadora também chamada Ana, a quem chamaremos Ana F., disse ter o mesmo problema com a filha, que já tem 18 anos. 
“Hoje estou em casa”, afirmou esta sexta-feira ao ECO, “mas a minha filha está na faculdade”. 
“Amanhã vou trabalhar, e depois só tenho o domingo de folga. 
Torna-se complicado o convívio…”

E o ambiente na fábrica de Palmela? 
Para Ana F., está “muito mau”. 
“As pessoas estão desmotivadas”, explica. 
“A Comissão de Trabalhadores está desacreditada. 
Quem lá está agora, antes defendia que não deveríamos ter de trabalhar os sábados obrigatórios”.

Este tipo de horário é normal?

Questionado sobre as queixas apresentadas pelos trabalhadores perante os novos horários, Eduardo Florindo, do sindicato Site-Sul, afeto à CGTP, evita a questão. 
“Críticas há sempre”, confessa. 
“O trabalho de segunda a sábado devia ter sido evitado. 
Mas agora está aprovado, e há que tentar que os trabalhadores tenham melhores compensações”.

Os aumentos salariais estão a ser negociados nesta altura pela Comissão de Trabalhadores liderada por Fernando Gonçalves, que realizou plenários com os trabalhadores esta quinta-feira para lhes dar conta do ponto de situação. 
A Comissão pede aumentos de 6,5%, num mínimo de 50 euros, em 2018, enquanto a administração tem como contraproposta um aumento de 3% em 2018 e de 2% em 2019. Este aumento salarial, destacou Carlos ao ECO, devia já ter sido acordado em setembro. “Daqui a nada estamos em setembro outra vez”, acrescentou.

No contexto europeu, os novos horários na Autoeuropa não são inéditos. 
Georg Leutert, sindicalista do IndustriAll, Global Union [sindicato global], explicou que não é um horário “normal”, mas também não é invulgar. 
“Há muitos casos em que os empregadores tentam utilizar o máximo da força de trabalho, e arranjam modelos de 17 ou 21 turnos”, afirmou o especialista do setor fabril automóvel ao ECO
“As empresas dizem que é a sua única hipótese de permanecerem competitivas”.




















Na Volkswagen em Palmela, os novos turnos surgiram devido ao novo modelo, o T-Roc, que lá está a ser construído. 
A fabricante de automóveis alemã quer que sejam produzidos 240 mil T-Rocs este ano na Autoeuropa, o que levou à aplicação dos novos horários apesar de não haver acordo com a Comissão de Trabalhadores. 
Para Georg Leutert, isso é “muito invulgar”, já que a Volkswagen costuma procurar o acordo dos seus trabalhadores em mudanças do género.

O horário até agosto é transitório, mantendo-se apenas até à pausa anual da fábrica. 
De agosto em diante, os pormenores dos horários e dos turnos ainda estão a ser negociados, mas a administração pretende ter um modelo de laboração contínua com trabalho inclusive ao sábado.

“Não vejo nenhumas fábricas, não há uma única fábrica na Europa Ocidental, que lide com um novo volume de produção ou um novo produto sem que os sindicatos ou comissões de trabalhadores tenham de fazer concessões”, concluiu Georg Leutert.

Vem aí greve?

Apesar de os trabalhadores terem aprovado em plenário a realização de uma greve nos dias 2 e 3 de fevereiro, esta acabou por não se concretizar, porque os sindicatos decidiram não entregar pré-aviso. 
Porquê? 

Para Ana F., que seria a favor de uma greve, a leitura foi outra. 
“Pareceu-nos que os sindicatos estão do lado da administração e não dos trabalhadores. 
O interesse único da administração é o da laboração contínua, e fazer carros. 
E pronto”, disse.

Carlos, no entanto, considera que uma greve seria inoportuna. 
“Fazermos uma greve, neste preciso momento, era mau. 
Há um acordo para fazer para depois de agosto”, disse. 
“Agosto está aí à porta”.

Aumenta tensão na Autoeuropa: estão “desorientados” e sem “boas maneiras”

ECONOMIA
7 de fevereirode 2018, às 15:54






















Comissão de Trabalhadores está "desorientada" e não legitimada, acusa UGT; CGTP tem de parar de interferir na Autoeuropa, soma Silva Peneda. 
O conflito estala na fábrica de Palmela.

A Autoeuropa é cada vez mais palco de tensões, e esta semana, com as negociações de aumentos salariais a decorrer, torna-se campo de batalha entre a UGT, Comissão de Trabalhadores e CGTP. 
Até o ex-ministro do Trabalho Silva Peneda já veio a terreiro. 
Trocam-se farpas e uns querem contornar os outros para tentar alcançar um acordo que satisfaça as necessidades dos trabalhadores e para ganhar poder na fábrica. 
Entretanto um abaixo-assinado circula para demitir a atual Comissão de Trabalhadores, que ainda está a analisar toda a situação.

Da esquerda para a direita, Carlos Silva, dirigente da central sindical UGT, Fernando Gonçalves, presidente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, Silva Peneda, ex-ministro do Trabalho, e Arménio Carlos, dirigente da central sindical CGTP.Imagens: Paula Nunes/ECO, e Lusa. Fotomontagem: Ana Raquel Moreira.

O Sindel, sindicato afeto à UGT ligado ao setor da indústria, quer apresentar um acordo de empresa à Autoeuropa contornando a Comissão de Trabalhadores (CT), liderada por Fernando Gonçalves. 
“Aquilo que neste momento se retira de toda esta situação”, disse ao ECO o dirigente sindical Alberto Vale, “é que a CT está ali num impasse, não sabem muito bem o que estão a fazer, acabam por estar desorientados porque não sabem como ultrapassar este momento”.

A UGT quer apresentar um acordo de empresa à administração da Autoeuropa, sem passar pela Comissão de Trabalhadores eleita pelos funcionários da empresa da Volkswagen, porque esta “não tem legitimidade” para apresentar um acordo do tipo, afirmou Alberto Vale. 
“Não têm legitimidade nem têm o apoio dos trabalhadores, acabam por não ter o apoio dos sindicatos, porque a ideia que transmitiram às pessoas é que não sabem o que estão a fazer. 
Por isso obviamente entendemos apresentar uma proposta”, acrescentou.

O Sindel não é o único ator a pôr em causa o apoio dos trabalhadores à Comissão que elegeram. 
O Diário de Notícias escreve esta quarta-feira que um abaixo-assinado que circula na fábrica de Palmela, a pedir a demissão da CT, já reuniu “200 a 300” assinaturas entre os 5.700 trabalhadores da fábrica. 
Trabalhadores que falaram ao ECO expressaram a sua desilusão com o trabalho desse grupo de representantes nas negociações junto da administração. 
O ECO entrou em contacto com a Comissão de Trabalhadores que preferiu, para já, não comentar a situação, afirmando estar a analisar os fatores em jogo.

Alberto Vale, representante do Sindel, explicou que a UGT vai pedir uma reunião à administração da Autoeuropa para avaliar a abertura da empresa para analisar um acordo proposto diretamente pelo sindicato. 
Segunda-feira, o líder da UGT Carlos Silva anunciou a intenção de se dirigir à administração da Autoeuropa
“O nosso sindicato [Sindel] irá apresentar uma proposta de acordo de empresa à Autoeuropa, cabe agora à administração dizer ‘não queremos’ e se não quiser está, naturalmente, a ferir de morte o que é o princípio da negociação coletiva no nosso país”, anunciou à saída de uma audiência com o Presidente da República.

Sobre a Comissão de Trabalhadores poder realizar este tipo de acordo, o dirigente sindical Alberto Vale sublinhou que “não tem legitimidade para subscrever acordos de empresa”. Isto porque, conforme o ECO confirmou junto da Direção Geral do Emprego e das Condições de Trabalho, as Comissões de Trabalhadores são constituídas e ganham personalidade jurídica ao serem publicadas no Boletim do Trabalho e do Emprego, mas não podem negociar acordos de empresa, com legitimidade jurídica. 
Podem apenas negociar acordos laborais, uma fórmula informal, que é o que tem sido feito, inclusive com a Comissão de Trabalhadores histórica que foi liderada por António Chora.

“Obviamente que a empresa tem legitimidade para dizer que não querem negociar um acordo de empresa com um sindicato. 
Obviamente que ao fazer isso estará a ir contra a legislação de negociação coletiva”, afirmou Alberto Vale. 
Isto porque a legislação laboral portuguesa prevê que as negociações laborais decorram com os sindicatos. 
Nas empresas do grupo Volkswagen, incluindo na Autoeuropa situada em Palmela, a tradição é habitualmente que a administração se concerte diretamente com os trabalhadores através das comissões eleitas.

As negociações entre a Comissão de Trabalhadores e a administração já duram há vários meses. 
Neste momento, , negoceia-se o aumento salarial na empresa para os anos de 2018 e 2019, com a CT a exigir um aumento de 6,5% com um mínimo de 50 euros, e a administração a contrapropor um aumento de 3% este ano e de 2% no próximo.

Fonte oficial da administração da Autoeuropa não respondeu diretamente à questão sobre se negociaria um acordo de empresa com a UGT e o Sindel, mas disse estar sempre aberta a reunir com os sindicatos. 
“Nós já reunimos e temos reunido com frequência com todas as estruturas sindicais, tanto afetas à CGTP como à UGT”, afirmou, referindo no entanto que ainda não teria sido recebido um pedido de reunião da UGT.

Questionado pelo ECO, o dirigente do sindicato Site-Sul, afeto à CGTP, Eduardo Florindo, preferiu não comentar, “neste momento”, a iniciativa do Sindel.

Silva Peneda choca com CGTP sobre Autoeuropa

O antigo ministro do Trabalho de Cavaco Silva, Silva Peneda, lançou duras críticas à central sindical CGTP, cujos sindicatos estão entre os que agem junto da Autoeuropa, pelo seu trabalho na fábrica de Palmela. 
Num artigo de opinião publicado no Jornal de Notícias que está estruturado como uma “carta aberta” dirigida aos restantes “parceiros sociais”, Silva Peneda pede que “todos os parceiros sociais” tomem “uma posição clara sobre a postura da CGTP no processo da Autoeuropa”.

Para o ex-ministro, a CGTP “descobriu agora a Autoeuropa como palco para a sua investida”. 
Silva Peneda afirma: “A estratégia dos comunistas para a Autoeuropa é que esta feche as portas e se desloque para outras paragens. 
Aí o PCP cantará vitória e como sempre serão vitórias ‘conquistadas’ à custa de milhares de trabalhadores que ficarão no desemprego e a Península de Setúbal voltará a viver os tempos de fome da década de 80, mas aí o PCP e a CGTP estarão no seu terreno favorito a desfraldar as bandeiras negras, nunca assumindo culpas, mas remetendo-as para os vícios do capitalismo”.

A CGTP reagiu com um comunicado em que considera “inaceitáveis e intoleráveis estas dissertações ofensivas, insultuosas e reacionárias de Silva Peneda”, afirmando que o ex-ministro “dá voz aos interesses da direita”. 
Reagindo à crítica de que a CGTP não se interessa pela concertação, a central sindical refuta: “A CGTP-IN esteve, está e estará disponível para compromissos, que cumpriu, cumpre e cumprirá, porque garantem e melhoram os direitos dos trabalhadores! 
A prova disso são os acordos subscritos pela CGTP-IN na concertação social que outros não cumpriram, nomeadamente, sobre Formação Profissional e Salário Mínimo Nacional”.

Termina acrescentando: “Dispensamos os ‘ensinamentos’ e as ‘boas maneiras’ sobre como intervir na Autoeuropa, na Gramax, na Ricon ou em qualquer outra empresa ou sector, onde os direitos dos trabalhadores são postos em causa”

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Sede do PAIGC cercada pela polícia

GUINÉ-BISSAU
LUSA
30 de Janeiro de 2018, 11:18 actualizada às 13:13
Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, está fora da sede e pede apoio de organismos internacionais para que o congresso se realize

O partido deveria começar esta tarde o seu nono congresso, cuja legalidade é contestada pelos tribunais. 
O ministro dos Estrangeiros português, Augusto Santos Silva, de visita a Cabo Verde já comentou a situação apelando a "todas as partes" para que o processo guineense se desenrole em "condições de inclusão, estabilidade e paz".

A sede do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que deve iniciar nesta terça-feira o seu nono congresso, está cercada pela polícia, que impede a saída ou entrada no edifício, disse à Lusa o secretário nacional do partido, Aly Hijazi.

O também presidente da comissão organizadora do congresso, a decorrer até 4 de Fevereiro, disse ainda que "a sede do partido está sequestrada", tendo lá dentro mais de 200 pessoas, entre militantes e dirigentes.

Na segunda-feira, em conferência de imprensa, um responsável do comissariado-geral da Polícia de Ordem Pública (POP), o coronel Salvador Soares, disse aos jornalistas que os agentes iriam fazer cumprir as orientações judiciais que mandam impedir a realização do congresso.

Segundo a Polícia, pelo menos três tribunais regionais emitiram providências cautelares a impedirem a realização do congresso do PAIGC.

O partido tem outra interpretação e adianta que o Ministério do Interior, que tutela a Polícia de Ordem Pública, se recusou a receber uma nota de um tribunal que voltou atrás com a decisão de impedir o início do congresso.

O presidente da comissão organizadora do nono congresso do PAIGC, que deverá ter início à tarde, disse que, a partir das três da manhã, a polícia não deixou ninguém entrar ou sair da sede do partido, onde se encontravam militantes nos preparativos.

"Estamos encurralados por todos os lados pelos elementos da polícia", declarou Aly Hijazi. O mesmo responsável afirmou ainda que "pelo menos" 11 militantes foram agredidos pela polícia, por, alegadamente, terem entrado em discussão com os agentes.

O secretário nacional do PAIGC indicou que, "para já", há água e luz eléctrica da rede pública na sede, mas o problema, disse, é arranjar comida para mais de 200 pessoas, com a sede cercada pela polícia.

O país vive uma crise política desde 2015, com o PAIGC dividido. 
O Presidente José Mário Vaz, que foi eleito pelo PAIGC, demitiu o primeiro-ministro Domingo Simões Pereira, líder do partido. 

Aly Hijazi avançou que Domingos Simões Pereira, que está fora da sede, tem-se desdobrado em contactos com os organismos internacionais, tanto os sediados no país, como os do estrangeiro, para lhes explicar a situação e pedir apoio.

Na segunda-feira, o comissariado-geral da Polícia de Ordem Pública disse que não recebeu a ordem do tribunal que autoriza o congresso pelo que “a lei será cumprida”. 
A POP diz que só poderá autorizar a realização do congresso se receber nova ordem do Tribunal Regional do Norte, com sede em Bissorã.

A polícia diz ter recebido “mais duas providências cautelares”, uma de um tribunal de Buba, Sul do país, e outra de Bafatá, Leste da Guiné-Bissau, que ordenam a suspensão do congresso. 
O coronel Salvador Soares afirmou que os agentes “vão ter de cumprir as decisões do tribunal”.

As três providências cautelares teriam sido intentadas por militantes do PAIGC que se consideram excluídos injustamente das conferências de base que determinaram a escolha de delegados ao congresso.

Carlos Pinto Pereira, um dos advogados do PAIGC, destacou na segunda-feira que o partido não tinha sido notificado sobre a existência de mais providências cautelares, tirando a do Tribunal Regional do Norte. 
Entende, por isso, que nada impede a realização do congresso que terá como lema: "PAIGC unido na disciplina, pelos ideais ao serviço da paz e estabilidade e desenvolvimento da Guiné-Bissau”.

Até aqui, Domingos Simões Pereira é o único candidato, para renovar o mandato, embora não seja de excluir as candidaturas de outros militantes no decurso do congresso que está a marcar a actualidade política guineense.

Os ausentes da reunião serão os 15 deputados expulsos do partido em 2015 mas que, entretanto, foram readmitidos pela direcção a tomar lugar no congresso. 
Segundo o coordenador do também designado grupo dos 15, Braima Camará, está fora de questão a participação dos deputados no congresso sem que todos os militantes sancionados sejam também admitidos a participar.

Um outro "notável" do PAIGC que não estará presente na reunião, pelo menos na qualidade de delegado, será Carlos Gomes Júnior, antigo primeiro-ministro e ex-líder do partido durante 12 anos.

Residente entre Portugal e Cabo Verde, desde que foi derrubado por um golpe militar, há cinco anos, Gomes Júnior regressou ao país na semana passada, tendo solicitado à direcção do PAIGC que lhe seja permitido participar no congresso como delegado. 
O pedido foi rejeitado.

O PAIGC pediu a presença de 150 soldados da força da Ecomib (contingente militar da África Ocidental) estacionada na Guiné-Bissau na sequência do golpe de Estado de 2012, para garantir a segurança durante o congresso.

Santos Silva: "As questões políticas devem ser decididas politicamente”

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que hoje cumpre o segundo dia de uma visita a Cabo Verde, reagiu aos mais recentes desenvolvimentos na Guiné-Bissau dizendo que "as questões políticas devem ser decididas politicamente" e apelando a "todas as partes" para que o processo guineense se desenrole em "condições de inclusão, estabilidade e paz".

"As questões políticas devem ser decididas politicamente. 
A Guiné-Bissau conseguiu o acordo de Conacri, que é um roteiro muito importante para que os processos político e eleitoral se desenvolvam com a normalidade possível”, disse o chefe da diplomacia portuguesa aos jornalistas.

“Enfatizamos muito a importância de todas as partes seguirem esse roteiro e chegarem aos entendimentos necessários para que a Guiné-Bissau possa viver um período de paz, estabilidade e para que seja o eleitorado da Guiné-Bissau a resolver, pelos canais próprios e nos momentos próprios, as escolhas que é preciso fazer", acrescentou ainda Augusto Santos Silva.

A Guiné-Bissau vive uma crise política desde a demissão pelo Presidente José Mário Vaz, do Governo liderado pelo primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, em Agosto de 2015.

Por falta de consenso entre as várias forças políticas, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) elaborou o Acordo de Conacri, que prevê a nomeação de um primeiro-ministro de consenso.

No entanto, o Presidente guineense disse na segunda-feira que esse consenso não existe e que ele próprio vai nomear um chefe de Governo esta semana, que será o sexto desde 2012.

Notícia actualizada: Declarações do ministro Augusto Santos Silva

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

História e Holocausto — Estudar o passado, conhecer os assassinos

ANÁLISE
História e Holocausto — Estudar o passado, conhecer os assassinos
IRENE FLUNSER PIMENTEL
14 de Janeiro de 2018, 7:11

Entre os anos 1940 e 60, os estudos sobre o Holocausto caracterizaram-se pela demonização e psicopatologização dos envolvidos. Uma corrente historiográfica mais recente, inaugurada por Hannah Arendt e Raul Hilberg, tem centrado a investigação nos carrascos e nos seus motivos. Uma análise que põe a descoberto o grupo de perpetradores enquanto burocratas e assassinos de secretária.

Aproximamo-nos de 27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto ou da Shoah. 
Foi escolhido, em 2014, por ter sido nesse dia, em 1945, que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polónia) foi libertado pelo Exército Vermelho soviético. 
Como se sabe, a historiografia sobre a Shoah tem sido muito abundante, sendo abordadas, para explicar esse terrível acontecimento, questões como a do anti-semitismo e da eugenia, das etapas que levaram ao Holocausto, da resistência — ou falta dela — ao nacional-socialismo, bem como da singularidade desse terrível evento relativamente a outras atrocidades ou o facto de ser comparável com estas.

Aproveito a proximidade da data para referir uma abordagem que tem sido central ultimamente quando se trata do tema e que pode servir de exemplo à análise sobre qualquer ditadura, incluindo a portuguesa. 
Trata-se dos estudos sobre os carrascos e os seus motivos, que constituem já um subtema de estudo com o nome em alemão de Täterforschung (investigação sobre os perpetradores), não só na historiografia, mas também na antropologia, psicologia, ciências políticas, direito e até na ficção. 
É que torturadores e criminosos de massa não nasceram assim, tornaram-se perpetradores, como diz Françoise Sironi, repegando uma expressão de Simone de Beauvoir sobre as mulheres. 
O criminoso Reinhard Heydrich, braço direito SS de Heinrich Himmler, aderiu tarde ao partido nacional-socialista, e para arranjar um emprego, pois não foi aceite na Marinha de Guerra.

De um modo geral, os estudos sobre o Holocausto e os perpetradores caracterizaram-se, entre os anos 1940 a 60, pela demonização e psicopatologização dos envolvidos. 
Os julgamentos do pós-II Guerra, a partir do de Nuremberga, nomeadamente o dos Einsatzgruppen, em 1958, e sobretudo o de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, bem como, depois, o de Auschwitz, em Frankfurt, deram a conhecer os principais criminosos, proporcionando a publicação de sólidas análises sobre os motivos, estruturas e métodos dos líderes do regime nacional-socialista. 
A sua forma comum de defesa assumida foi em geral a de que “apenas” eram executantes que teriam obedecido a ordens superiores.

A partir de 1961, na senda de Hannah Arendt (1906-1975) e Raul Hilberg (1926-2007), estabeleceu-se uma segunda fase na investigação, que interpretou o grupo de perpetradores enquanto burocratas e assassinos de secretária. 
Para Hannah Arendt, “o mal radical” (depois qualificado de “banal”) é “obra da liberdade dos homens vulgares”, assinalando a filósofa que “os autores do mal não têm uma alteridade absolutamente diferente” da generalidade dos seres humanos. Arendt foi muito criticada, e também por Hilberg. 
Em The Destruction of the European Jews (1961), interpretou a Shoah como um processo que funcionou em etapas sucessivas, levadas a cabo por uma multitude de decisores no seio de uma vasta aparelhagem burocrática, através de um processo desumanizante que não foi travado por qualquer ética, moral ou religião.

O historiador Raul Hilberg tinha sido influenciado, por seu turno, por Franz Neumann (1900-1954) que, em Behemoth, de 1942, atribuiu ao regime nazi a dupla característica de surgir como um poder monolítico submetido a um chefe absoluto, mas que, nos bastidores, resultava da lei da selva partilhada por quatro poderes rivais e universos semiautónomos: a burocracia estatal; o Exército; a grande indústria; o partido nazi. 
O poder de Hitler residia na sanção que dava aos compromissos passados entre as forças que se digladiavam entre si, fora do círculo dos projectores.

Hannah Arendt

Três caminhos

Na abordagem historiográfica da Shoah, uma preocupação central passou a ser a de descobrir os motivos dos carrascos, desenvolvendo-se, até aos anos 90 do século XX, três principais teorias que contribuem para a explicação do comportamento dos perpetradores: as narrativas intencionalistas, as estruturalistas e as situacionistas. 
Os chamados “intencionalistas” viram no extermínio a aplicação de um programa predeterminado e metodicamente planeado imposto de cima para baixo, derivando da vontade anti-semita de Hitler e da sua iniciativa individual, mas, muitos historiadores, apresentaram opiniões mais matizadas. 
Já os “funcionalistas”, retomando a tese de Neumann, nos anos 70, tenderam a analisar o Holocausto enquanto crime em massa “mecanizado” por um “aparelho industrializado de genocídio”.

Para Martin Broszat (1926-1989), o Estado nazi foi uma “policracia” pluridimensional, na qual a autoridade de Hitler constituía a garantia suprema da coesão do sistema. 
Por seu turno, Hans Mommsen (1930-2015), autor do conceito de “radicalização cumulativa” para descrever os diversos estádios que levaram ao Holocausto, reconheceu sobretudo o papel crucial de cumplicidade das elites alemãs com o regime. 
Ambos puseram em causa a ideia de que a evolução do Terceiro Reich resultaria da aplicação de um plano pré-estabelecido, há muito anunciado no Mein Kampf, dando centralidade à análise do sistema caótico nazi.

Prendendo-se com uma crítica do historicismo, desencadeou-se, nos anos 1980, no meio intelectual da RFA, a chamada historikerstreit (“querela dos historiadores”). 
Originada por uma ideia controversa do historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), segundo o qual o extermínio dos judeus deveria ser visto como uma forma de reacção aos crimes estalinistas, a contestação surgiu através o filósofo Jürgen Habermas, que, num artigo do jornal Zeit (11 de Julho, 1986), discutiu o estatuto do nazismo na memória colectiva alemã e a centralidade e singularidade do genocídio dos judeus, transformando a reavaliação do nazismo numa questão política e nacional. 
Os “funcionalistas” foram também criticados de historicismo e de relativizarem o quadro político, ideológico e moral específico, bem como substituírem a condenação moral do nazismo pela empatia com o objecto de estudo (Saul Friedländer).

As abordagens intencionalistas e funcionalistas foram depois matizadas através de sínteses com os aspectos positivos de ambos os lados. 
O historiador alemão Norbert Frei assinalou a importância do Führer como suporte carismático do poder e de arbitragem de conflitos, assente numa multiplicidade de centros de decisão e de conflitos. 
A coerência do “estado do Führer” (Der Führerstaat. Nationalsozialistische Herrschaft 1933-1945, editado em 1987) residiria na preeminência de um chefe supremo, que, ao mesmo tempo, soube responder à necessidade de integração social dos alemães, conseguindo obter a colaboração de pessoas vulgares que cooperaram no reforço do anti-semitismo e das medidas raciais.

Ian Kershaw, autor na segunda metade dos anos 1980 de obras sobre a opinião pública no III Reich e sobre Hitler, escreveria uma biografia monumental deste último em dois tomos: Hitler, 1889-1936: Hubris, publicado em 1998; e Hitler, 1936-1945: Nemesis, publicado em 2000. 
Ao apresentar o paradoxo de este não estar na origem de tudo mas ter sido indispensável, explicou o poder de Hitler pelo seu carisma político, concluindo que este resultou na colaboração de todos aqueles que, na Alemanha, ocuparam uma posição de influência, cujo objectivo foi servir o Führer, esforçando-se por adivinhar e pôr em prática os seus desejos.
Os estudos actuais não colocam a agência do Holocausto nos comandos centrais da estrutura (Hitler e Himmler), mas entre os perpetradores directos da periferia

É certo que, entre os sobreviventes do Holocausto, Primo Levi (1919-1987) — que só conseguiu publicar o seu primeiro livro em 1958, depois de ter visto recusada a edição em 1947, e só mais tarde descoberto, com Se Isto é Um Homem, A Trégua, Os Que Sucumbem e os Que se Salvam —, caracterizou Auschwitz como uma fábrica invertida da morte, onde não cabiam unicamente as vítimas (“zona branca”) e os carrascos (“zona negra”), mas uma enorme “zona cinzenta” composta por uma “classe híbrida de prisioneiros-funcionários”. 
Um terceiro estádio da análise historiográfica, na senda de Christopher Browning, influenciado pelo conceito de “zona cinzenta” de Levi, passou a originar novas representações dos perpetradores, vistos como “homens vulgares”. ­

No seu livro de 1992, Ordinary Men, Reserve police battalion 101 and the final solution in Poland, Browning revelou criminosos nazis, feitos do mesmo tecido (humano) dos outros, cujos actos resultaram, em parte, de circunstâncias em que se operou uma passagem do normal para o patológico no seio de um sistema em que os fins justificam os meios. Browning mostrou que a maioria dos elementos do Batalhão 101, que mataram judeus na Polónia, eram técnicos amorais, cujas iniciativas “de baixo” tornaram desnecessárias a explicitação precisa das ordens “de cima”. 
O autor concluiu que, no seio de qualquer colectivo social, o grupo dominante exerce uma tremenda pressão e impõe as normas morais. 
Por outro lado, as noções de lealdade, dever e disciplina baniram quaisquer considerações humanas e morais do seio dos “perpetradores”.

Certo é que a investigação sobre os perpetradores passou a examinar as “circunstâncias” situacionais, paralelamente às motivações ideológicas, abordagem a partir da qual se baliza o início dos estudos sobre perpetradores numa perspectiva “situacionista”.

Contrariamente à abordagem multicausal de Browning, ao estudar o mesmo grupo (Hitler’s Willing Executioners, de 1996), Daniel Goldhagem afirmou através de uma postura essencialista que a história cultural da Alemanha foi marcada por um anti-semitismo “eliminacionista”, principal motivo de os alemães levarem a cabo a Shoah. 
Na controvérsia à volta do livro de Goldhagen, com base nas mesmas fontes de Browning, este concluiu que uma combinação de factores situacionais e ideológicos concorreram para desumanizar as vítimas, transformando-os de “homens vulgares” em “executantes voluntários”.

Criminosos entre nós

A chamada “Täterforschung” desenvolveu-se de forma exponencial, a partir dos anos 90, entrando numa nova fase. 
Da análise da máquina do extermínio, levada a cabo sobretudo pelos “funcionalistas”, houve um regresso ao estudo dos “actores”, através de perspectivas diversificadoras, segundo as quais “os criminosos entre nós não são só assassinos, mas parecem-se connosco”, o que aliás “lhes permite viver em anonimato”. 
Seguindo alguns dos seus antecessores, os estudos actuais não colocam a agência do Holocausto nos comandos centrais da estrutura (Hitler e Himmler), mas entre os perpetradores directos da periferia. 
Não os visiona, porém, como marionetas ou robôs, encarando-os, ao invés, enquanto agentes históricos que levaram a cabo o seu “trabalho letal” de forma “voluntária, espontânea e entusiástica”.
Os dirigentes nazis Reinhard Heydrich, à esquerda, e Karl Hermann Frank

No final do século XX e no início do XXI, a historiografia alemã dedicou-se abundamentemente ao estudo dos perpetradores, mas de novo centrado sobre a ideologia racial anti-semita. 
Um dos críticos dos “funcionalistas”, Saul Friedländer, em The Years of Extermination (2007), daria especial relevo ao “anti-semitismo redentor” que desde o início teria contido as sementes do genocídio. 
Por seu lado, Gerhard Paul mostrou que o paradigma do crime “mecanizado” cometido por burocratas banais, enquanto explicação da Shoah, teria descambado num “automatismo sem pessoas”. 
Este historiador alemão, que colaborou frequentemente com Klaus-Michael Mallmann em estudos sobre a Gestapo, dirigiu uma obra antológica acerca dos perpetradores, Die Täter der Shoah. 
Fanatische Nationalsozialisten oder ganz normale Deutsche? (“Os perpetradores da Shoah. Nazis fanáticos ou alemães completamente normais?”), de 2002, onde é assinalado o regresso da ideologia, na forma de sistema de valores nazis, crenças e de mentalidade, com um papel central na preparação de indivíduos para o massacre de inocentes, com pouca angústia mental.

Muito devido à abertura dos arquivos na Europa de Leste e da Rússia, além da ideologia, regressou também a questão da relação entre o centro e a periferia, a relação entre as ordens de cima e as iniciativas de baixo, bem como o papel das instituições regionais da administração de ocupação, com um enfoque sobre os actores e actrizes. 
Foram colocadas em causa ideias feitas, por exemplo sobre a “obediência a ordens”, a brutalização provocada pela guerra e o impacto da propaganda nos elementos que se dispuseram a fuzilar civis. 
Muitos historiadores abandonaram as tentativas para encontrar generalizações sobre tipos de perpetradores, em favor de abordagens acerca vários grupos com papéis diversos. Foram também levados a cabo estudos prosopográficos das principais instituições nazis, entre as quais se contaram o Ministério dos Negócios Estrangeiros nazi, o SD — Sicherheitsdienst (serviço de segurança nazi de espionagem e contra-espionagem no estrangeiro) ou a RSHA — Reichssicherheitshauptamt (Gabinete Central de Segurança do Reich, órgão que centralizava e controlava as polícias de segurança nazis Gestapo-SD, Kriminal Polizei e Ordnund Polizei).

O conceito de “geração” tem sido muito proveitoso, na análise da emergência, na hierarquia nazi, de uma “elite ideológica”, formada na universidade, incluindo defensores de um “racismo científico”, que estiveram no centro do aparelho policial SS de Himmler e Heydrich. Götz Aly e Susanne Heim caracterizaram esses “planificadores étnicos” como especialistas e profissionais defensores de uma “economia política da Solução Final”. 
Da mesma forma, continuaram os estudos sobre os níveis médio e baixo, incluindo os “atiradores” dos Einsatzkommandos, das Waffen-SS e também da Wehrmacht.

Uma questão também levantada pelos estudos locais é a dos actores não alemães do Holocausto: estónios, romenos, ucranianos, letões, lituanos ou croatas. 
Os estudos regionais ilustram o que Kershaw quis dizer com “working towards the Führer” (“trabalhando para o Führer”), através da criação pelos nazis de uma “comunidade de violência” nas quais os perpetradores de todas as origens e posições ideológicas cometeram terríveis crimes. 
Wendy Lower (Nazi Empire Building and the Holocaust in Ukraine, 2005) criou o conceito de “obediência por antecipação” para mostrar de que forma os líderes nazis modelaram os acontecimentos a nível local. 
Tanto ela, como Jürgen Matthäus (Naziverbrechen. Täter, Taten, Bewältigungsversuche, 2013), com o conceito de “escalada controlada”, concluem que oficiais subordinados se revelaram desejosos em quererem mostrar a adopção de medidas cada vez mais radicais.

Sabe-se hoje que centenas de milhares de alemães e austríacos planearam, organizaram, levaram a cabo e ajudaram às perseguições e assassinatos de judeus. 
Colaboraram com eles milhares de alemães étnicos (Volksdeutsche) e centenas de milhares de auxiliares estrangeiros. 
No grupo central de homens que organizaram o genocídio estiveram ideólogos comprometidos e voluntários, embora não seja possível estabelecer uma relação causal entre o fanatismo anti-semita e o assassinato de judeus. 
E mesmo os ideólogos racistas necessitaram de um processo de “radicalização cumulativa” (expressão de Mommsen) para passarem das ideias extremas aos actos mais criminosos, como o foi a Shoah.

Não proporcionar situações e circunstâncias idênticas como aconteceu, por exemplo, com a guerra total à URSS em Junho de 1941 é uma das tarefas dos actuais cidadãos globais. Mas para isso é necessário conhecer o passado e os motivos dos assassinos e torturadores das várias ditaduras, incluindo da portuguesa.



























Em tribunal, a forma comum de defesa assumida pelos nazis foi a de que “apenas” eram executantes que teriam obedecido a ordens superiores. Em cima, o comandante da Luftwaffe Hermann Goering durante o julgamento, em Nuremberga, em 1946